Mercosul inicia negociação com Japão para formar área de livre comércio de US$ 7 trilhões

Os países que integram o Mercosul — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — oficializaram o início das negociações para um acordo comercial com o Japão. A decisão foi anunciada nesta terça-feira, em comunicado conjunto divulgado durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do bloco, realizada em Assunção, no Paraguai.
A abertura das tratativas ocorre em um momento de ampliação da agenda comercial do Mercosul. Em seu discurso na reunião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também defendeu que o bloco avance nas negociações de um acordo de livre comércio com a China. Em maio, entrou em vigor o acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia.
Segundo o governo brasileiro, um eventual acordo de parceria econômica entre Mercosul e Japão poderá criar uma área de livre comércio que reúne um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 7 trilhões e um mercado consumidor de cerca de 400 milhões de pessoas, caso as negociações resultem em consenso entre as partes.
O Japão ocupa a posição de quarta maior economia do mundo e figura entre os dez principais parceiros comerciais do Mercosul. Em 2025, a corrente de comércio entre as partes alcançou US$ 13,7 bilhões. No início deste mês, Lula se reuniu com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, durante a Cúpula do G7, realizada na França, quando antecipou a possibilidade de abertura das negociações ainda em junho.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, o lançamento das negociações decorre de conversas iniciadas após a assinatura da parceria estratégica entre Mercosul e Japão, em dezembro de 2025. Neste ano, os dois lados realizaram duas reuniões técnicas para dar sequência ao processo.
"Com este acordo, as duas partes buscarão ampliar o acesso a mercados de bens agrícolas e não agrícolas, a cooperação e os investimentos mútuos, integrando as cadeias de valor entre ambas as economias", informou o Itamaraty em comunicado.
Defesa do acordo com a China
Durante a cúpula, Lula afirmou que o Mercosul também deve iniciar negociações comerciais com a China. O presidente citou ainda as conversas já em andamento com Índia, Vietnã e Canadá.
"Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta".
Declarações sobre o cenário internacional
Em seu discurso, Lula também fez críticas indiretas ao alinhamento automático de países da região aos Estados Unidos e ressaltou a importância do Mercosul diante do atual contexto internacional.
"Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes", disse Lula. "A fragmentação da economia mundial impõe severos desafios ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável. Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica”, destacou o presidente brasileiro".
Antes de iniciar sua fala, o presidente brasileiro pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos terremotos registrados na Venezuela.
Além dos chefes de Estado de Brasil, Paraguai e Uruguai, participaram da reunião os presidentes de Chile, Equador e Bolívia como convidados. Chile e Equador são países associados ao Mercosul, enquanto a Bolívia está em processo de adesão como membro pleno. A Venezuela permanece suspensa do bloco. Colômbia, Guiana, Panamá, Peru e Suriname também possuem status de associados, mas não participaram do encontro.
A reunião também marcou o encerramento da presidência temporária do Paraguai no Mercosul, que foi transferida ao Uruguai. O presidente argentino, Javier Milei, foi o único chefe de Estado dos países-membros a não comparecer. A viagem a Assunção foi cancelada após a renúncia do chefe de gabinete da Casa Rosada, Manuel Adorni, em meio a denúncias de suposto enriquecimento ilícito.
Novo Focem
Outro tema discutido pelos líderes foi a criação de um novo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), que substituirá o modelo atual.
O governo brasileiro anunciou que pretende aportar US$ 100 milhões por ano ao novo mecanismo. Criado em 2004, o Focem financia projetos voltados à redução das desigualdades entre os países integrantes do bloco.
O Brasil também defende que a Argentina aumente sua participação financeira no fundo. Já o Paraguai propõe que os recursos destinados ao novo Focem sejam 50% superiores aos do modelo vigente.
Desde sua criação, o fundo contribuiu para a execução de obras de infraestrutura, incluindo mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão de energia e 100 quilômetros de redes de saneamento básico.
