Miami tem região com metro quadrado a R$ 100 mil - e os brasileiros estão investindo lá

Sede de sete jogos da Copa do Mundo, incluindo a partida de disputa pelo terceiro lugar que será realizada neste sábado entre Inglaterra e França, Miami é um atrativo turístico natural.
O clima mais quente e as praias chamam a atenção, e isso se reflete nos números. Segundo o Greater Miami Convention & Visitors Bureau, 28,3 milhões de turistas visitaram Miami no ano passado, com impacto de US$ 32,2 bilhões de dólares para a economia local. Para o Mundial da Fifa, os números consolidados devem ser ainda mais robustos.
Nos últimos anos, companhias como Apple, Microsoft e Amazon ampliaram sua presença no sul da Flórida, enquanto a Fifa instalou operações na região para a preparação da Copa.
Além do turismo, um setor bastante aquecido é o do mercado imobiliário. Para Ricardo Dunin, presidente do conselho executivo da North Development, incorporadora especializada em imóveis de alto padrão do sul da Flórida, a Copa do Mundo serviu como um catalisador. "Miami já vinha em uma trajetória forte de crescimento, mas a preparação para eventos globais como a Copa acelera decisões de investimento e aumenta a visibilidade internacional da cidade, atraindo tanto capital institucional quanto compradores individuais", explica à EXAME.
Daniel Ickowicz, CEO da Elite International Realty, consultoria imobiliária que está há mais de 30 anos no mercado da Flórida, disse que houve aumento na procura por imóveis com potencial para locação de curta temporada durante a Copa, enquanto outros clientes queriam garantir uma base na cidade para uso próprio durante o evento. "Estimamos que entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões em vendas tenham sido influenciados direta ou indiretamente pela Copa até o momento", falou o executivo.
Incentivos da Flórida para imóveis de alto padrão
Com uma carga tributária mais baixa que outros estados, a Flórida vem chamando a atenção do mercado imobiliário, investidores em geral e bilionários. De acordo com uma análise da Realtor.com (corretora de imóveis), a Flórida lidera de forma isolada o ganho anual de Renda Bruta Ajustada (AGI), registrando US$ 20,65 bilhões decorrentes de contribuintes que mudaram seus domicílios fiscais para o estado no primeiro trimestre deste ano. O segundo lugar é o Texas, com ganhos de "apenas" US$ 5,5 bilhões.
Na outra ponta, Califórnia e Nova York são os estados que mais perderam nesse quesito até agora, segundo o mesmo levantamento: US$ 11,9 bilhões e US$ 9,9 bilhões, respectivamente.
Esse fluxo migratório de receita reflete-se no crescimento demográfico do estado, que atingiu o ápice histórico em 2026, registrando a chegada de 1.350 novos residentes por dia — superando com folga o recorde de 2025 de 1.280 pessoas diariamente.
Segundo dados da ISG World, empresa do ramo imobiliário de alto padrão do sul da Flórida, os negócios envolvendo imóveis acima de US$ 10 milhões estabeleceram uma nova média histórica de 71 transações por mês — mais que o dobro do recorde anterior de 34 verificado no mesmo período de 2025.
Prédios corporativos ganham destaque em Miami
E isso tudo num cenário macroeconômico norte-americano adverso. Em março de 2026, as taxas de juros para financiamentos habitacionais de 30 anos (taxa fixa ponderada) saltaram para o seu nível mais alto em mais de três meses, atingindo a marca de 6,65%.
Um dos lugares pujantes de Miami é a Brickell, considerada a "Faria Lima" local. Lá, o preço por metro quadrado para imóveis novos de alto padrão é de aproximadamente R$ 50 mil até R$ 100 mil.
"Os brasileiros continuam entre os investidores internacionais mais ativos em Miami, e Brickell ocupa posição de destaque nesse movimento. O interesse não está ligado apenas ao uso do imóvel, mas também à diversificação patrimonial em dólar, proteção de capital e geração de renda por meio de locação", explica Daniel Ickowicz.
Chamando a atenção de bilionários
Não são apenas os brasileiros com alto poder aquisitivo que estão atentos ao mercado da Flórida.Alguns dos homens mais ricos do mundo também estão de olho nas oportunidades por lá.
De acordo com o ISG World, Sergey Brin, cofundador do Google, desembolsou US$ 51 milhões em uma mansão recém-construída à beira-mar em Allison Island, Miami Beach.
Já Howard Schultz, ex-CEO da Starbucks, optou pela região de Surfside, cidade que fica no condado de Miami-Dade, comprando uma residência no The Surf Club Four Seasons Private Residences por US$ 44 milhões, atingindo a histórica marca de US$ 86 mil por metro quadrado.
O Mandarin Oriental, em Miami, empreendimento de luxo em Brickell Key, confirmou a venda de duas coberturas que somaram quase US$ 100 milhões, superando a barreira de US$ 67 mil por metro quadrado.
Os efeitos da pandemia na região
A mais grave crise sanitária em 100 anos também mudou a cara do coração financeiro de Miami. O bairro já vinha em trajetória de valorização, mas o período pós-covid acelerou esse movimento.
Com a popularização do trabalho remoto, muitos empresários, investidores e profissionais de alta renda passaram a buscar cidades que oferecessem qualidade de vida, impostos mais baixos, menos restrições adotadas no período pós-pandemia do que outros grandes centros americanos e um ambiente mais amigável aos negócios.
Conjunto de prédios e hotéis na região de Dowtown em Miami (Luiz Anversa / EXAME)
"A pandemia teve um impacto transformador em Miami. Após a Covid, vimos uma aceleração significativa na migração de pessoas e empresas para a Flórida, especialmente de estados como Nova York e Califórnia, além de um aumento do interesse internacional. Isso impulsionou a demanda imobiliária, elevou os preços e estimulou uma nova onda de lançamentos", fala Ricardo Dunin.
"Brickell se consolidou como um dos mercados imobiliários mais valorizados dos Estados Unidos nos últimos anos. Hoje, o preço médio de um apartamento de luxo na região gira em torno de US$ 1,5 milhão, enquanto alguns dos principais lançamentos ultrapassam facilmente a marca de US$ 2 milhões a US$ 5 milhões por unidade. Na Brickell Avenue, apontada recentemente como a rua corporativa mais cara de Miami, houve crescimento de aproximadamente 65% nos valores de locação de escritórios em apenas dois anos", aponta Daniel Ickowicz, da Elite International Realty.
Tendência para a região para os próximos anos
A Copa se despede de Miami neste sábado, mas os investimentos na região vão continuar pelos próximos anos. A tendência, na visão de especialistas, é de consolidação da cidade como uma das principais no mundo para viver, investir e fazer negócios.
"Na próxima década, devemos ver um crescimento contínuo da população de alta renda, expansão dos setores de tecnologia e finanças e uma demanda cada vez maior por empreendimentos que ofereçam experiências de estilo de vida, bem-estar e serviços integrados", diz Ricardo Dunin, da North Development.
Para Daniel Ickowicz, da Elite International Realty, essa integração trabalho, lazer e comércio na cidade sustentará os preços elevados e a forte liquidez para os investidores. "A tendência é de continuidade da valorização, especialmente no segmento premium. Brickell deve reforçar sua posição como principal centro urbano de Miami, impulsionado pela presença de grandes empresas, pela oferta completa de serviços e pela escassez de terrenos disponíveis para novos projetos."
