Microsoft aposta em PCs de IA, mas alta da memória freia compras
Empresa quer levar computadores ao orçamento de IA das empresas enquanto mercado global de PCs recua 20,1% no terceiro trimestre

RESUMO +
A Microsoft quer apresentar a renovação dos computadores como investimento em inteligência artificial. A proposta enfrenta componentes mais caros e um mercado em retração: os embarques globais de PCs caíram 20,1% no terceiro trimestre, segundo a IDC. Enquanto promove máquinas com IA, a companhia também melhora o Windows em aparelhos com apenas 8 GB de memória.
A Microsoft quer que as empresas incluam a compra de computadores no orçamento de inteligência artificial, em vez de tratá-la apenas como renovação de equipamentos. A mudança de discurso, relatada nesta quarta-feira, 4, pelo The Register, ocorre quando a própria expansão dos data centers de IA ajuda a encarecer a memória e dificulta a venda de novos PCs.
O impacto aparece nos resultados da companhia. A receita de Windows OEM e dispositivos caiu 22%, para US$ 3,55 bilhões, no trimestre encerrado em setembro, o primeiro do ano fiscal de 2027. No mesmo período, a receita total da Microsoft cresceu 19%, para US$ 92,3 bilhões, conforme o balanço divulgado em 28 de outubro.
A retração vai além da empresa. Os embarques mundiais de PCs somaram 62,7 milhões de unidades no terceiro trimestre, queda de 20,1% em um ano e de 9,1% ante o trimestre anterior, segundo dados preliminares da IDC. O indicador considera remessas aos canais de distribuição ou aos usuários finais, e não apenas vendas no varejo.
Por que a memória ficou um obstáculo
A disputa por componentes ampliou o peso da memória no custo dos computadores. Segundo a Omdia, DRAM e SSDs passaram de cerca de 15% para quase 40% do custo dos componentes de um PC. A consultoria afirma que os reajustes realizados pelas fabricantes ainda não compensaram integralmente essa pressão.
Parte da dificuldade vem de compras antecipadas. Fabricantes e distribuidores formaram estoques no primeiro semestre para se proteger de aumentos de preços, retirando demanda dos meses seguintes. Na avaliação da IDC, esse movimento e as restrições de oferta contribuíram para derrubar os embarques justamente no período que costuma se beneficiar da volta às aulas no hemisfério norte.
A TrendForce projeta alta de 10% a 15% nos preços contratuais de DRAM convencional no quarto trimestre, frente ao terceiro. São negociações entre fornecedores e grandes compradores, não uma previsão de reajuste equivalente nas lojas. A consultoria diz que fabricantes de memória continuam priorizando produtos para servidores e alerta que a oferta destinada a PCs pode diminuir em 2027.
O movimento também repercute no mercado brasileiro, como mostra a cobertura da EXAME sobre o encarecimento de RAM, SSDs e placas de vídeo.
A aposta em inteligência artificial híbrida
No Canalys Forum, em Barcelona, Mark Linton, vice-presidente corporativo de Windows e vendas de dispositivos, defendeu que parte das tarefas de IA seja executada em modelos menores no próprio computador. Segundo o The Register, o executivo apresentou a estratégia como uma forma de reduzir o uso de serviços cobrados por tokens na nuvem e aproximar o processamento dos dados.
A proposta integra a estratégia de IA híbrida da Microsoft, que distribui tarefas entre o dispositivo e a nuvem. O desafio comercial é justificar a compra de computadores mais capazes justamente quando a memória encarece esses equipamentos.
Para receber a classificação Copilot+, um PC precisa de pelo menos 16 GB de RAM DDR5 ou LPDDR5, 256 GB de armazenamento e uma unidade de processamento neural com capacidade de 40 trilhões de operações por segundo ou mais. Os requisitos da Microsoft distinguem essa categoria de outros computadores com Windows capazes de executar aplicações de IA localmente.
Windows tenta aproveitar melhor os PCs de 8 GB
Enquanto promove máquinas com mais memória, a empresa também trabalha para melhorar a experiência nos modelos mais modestos. Em publicação de 3 de novembro, a Microsoft anunciou ajustes no Windows 11 para PCs com 8 GB de RAM.
A companhia relata respostas até 20% mais rápidas e ganho de até 40% em um teste de multitarefa em laboratório, na comparação com versões de janeiro de 2026. As mudanças incluem maior eficiência na compressão de memória e menor uso de recursos por aplicativos. São resultados informados pela fabricante, dependentes do equipamento e das tarefas, não uma garantia de desempenho igual em todos os PCs.
As melhorias estão disponíveis no Windows 11 26H2, compilação 26300.9818 ou posterior, e também dependem de atualizações de aplicativos. Elas não alteram a exigência mínima de 16 GB para a categoria Copilot+.
Empresas prolongam o uso dos computadores
A disputa pelo orçamento aparece também no relato da Dell. Em conferência do Citi em setembro, o diretor financeiro David Kennedy afirmou que empresas estavam mantendo seus equipamentos por mais tempo e direcionando recursos à infraestrutura.
O executivo estimou em mais de 400 milhões o número de PCs em uso com mais de quatro anos e apontou uma demanda represada por renovação. Trata-se da avaliação da Dell sobre uma oportunidade futura, condicionada à estabilização do mercado e à ampliação dos orçamentos, não de compras já contratadas.
Perguntas frequentes
Por que a expansão da IA pressiona o preço da memória? +
Servidores disputam capacidade produtiva com outros aparelhos. A TrendForce aponta prioridade dos fornecedores para produtos de maior desempenho destinados a esses sistemas.
Todo computador que executa IA é um Copilot+? +
Não. Copilot+ é uma categoria com requisitos próprios, incluindo ao menos 16 GB de RAM. Outros PCs também podem executar aplicações compatíveis de IA.
Os ganhos anunciados para PCs de 8 GB valem para qualquer tarefa? +
Não. Os percentuais divulgados pela Microsoft vêm de testes específicos. O desempenho varia conforme o hardware, os aplicativos e a carga de trabalho.
