'Milei é o principal inimigo de si mesmo', diz autor de livro sobre a Argentina
Fábio Giambiagi diz que crises do governo argentino foram autoinfligidas e que briga entre presidentes pode afetar parcerias comerciais

A crise entre os presidentes Lula e Javier Milei, que viveu um ápice nos últimos dias, poderá ter consequências para os futuros acordos comerciais do Mercosul, e são mais um exemplo de como o líder argentino se envolve em muitas crises originadas por ele próprio ou por seu entorno, avalia o economista Fábio Giambiagi.
"Milei é o principal inimigo de si mesmo. Todos os grandes problemas que o governo enfrentou na Argentina nesse período, já de 30 meses, foram auto infligidos, como o escândalo da Libra, a criptomoeda, os escândalos de corrupção do Manuel Adorni, o antigo chefe de gabinete, as denúncias sobre suposta corrupção em áreas dominadas pela irmã [Karina Milei] a partir de uma gravação do advogado pessoal do Milei, que acusava a irmã do presidente, fora esses [momentos] abruptos verbais", diz Giambiagi, em entrevista à EXAME.
Economista e pesquisador da FGV, Giambiagi lançou recentemente o livro "Argentina para Brasileiros: Un País de Película".
O autor, que já publicou mais de 30 livros sobre economia, é filho de argentinos, foi criado no país vizinho, mas fez carreira no Brasil, onde se tornou especialista em finanças públicas e previdência social. Giambiagi deu aulas na PUC-Rio e na UFRJ, e também trabalhou no Banco Mundial e no Ipea.
Veja a seguir mais trechos da conversa:
Quais são as origens do embate entre Lula e Milei?
É uma situação que se assemelha a uma dessas brigas de casal tão intensas que é difícil identificar a causa original. A rigor, ambos têm razões para reclamações em relação ao outro
O presidente Lula tinha manifestado, durante a campanha eleitoral [de 2023], um apoio explícito ao candidato Sérgio Massa. Depois, na Argentina, ele foi publicamente visitar Cristina Kirchner, dando a entender que ela estava sendo vítima de uma injustiça.
Do outro lado, o presidente Milei, tanto durante sua campanha eleitoral como depois de eleito, fez, em relação ao presidente Lula, manifestações completamente inaceitáveis pela sua virulência.
Agora, uma coisa é o presidente brasileiro ir à Argentina e se reunir com uma ex-presidente presa. Outras são as manifestações de violência verbal. É totalmente compreensível que o Brasil não aceite e tome medidas no campo diplomático para manifestar o seu repúdio.
Quais poderão ser as consequências desses embates?
Este bate-boca é lamentável e conspira contra a chance de sucesso, ou pelo menos contra a velocidade da chance de sucesso, de uma agenda interessante que se abre para o Mercosul, como região, com a assinatura do acordo com a União Europeia.
Ao longo dos últimos 20 anos, em diversos países do mundo houve aberturas recíprocas para o comércio com outros países. O Brasil e o Mercosul foram muito tímidos nesse processo.
Quando existe uma química entre presidentes, os processos são mais acelerados. É difícil acreditar que a velocidade desse processo não será afetada por esse tipo de coisa. Qual é o incentivo para que hoje se reúnam, por exemplo, as equipes técnicas do Brasil e da Argentina para discutir novos acordos de livre-comércio com esses países que estão na fila quando os dois presidentes estão se tratando desse jeito?
Como essa crise poderá se desenrolar?
Os dois países precisam lidar com uma questão. No cenário mais realista hoje, haverá a reeleição de ambos os presidentes, Lula aqui este ano e Milei no ano que vem. Os países vão ficar mais quatro anos com relações estremecidas?
Evidentemente, sair disso não é fácil e requer a ação das diplomacias, onde se nota uma assimetria clara, porque enquanto o Itamaraty tem o profissionalismo diplomático reconhecido por todos, que serviu a todos os governos com grande competência, no caso argentino, a chancelaria claramente está dominada por essa vertente ideológica que é muito forte no atual governo da Argentina.
O senhor avalia que Milei deverá realizar ações para tentar influenciar os votos nas eleições brasileiras?
O Milei não influencia um voto aqui no Brasil. Ele fala para os convertidos. Aquilo foi uma encenação, um show pirotécnico para a convenção, mas do ponto de vista da oposição, não vejo que benefícios podem trazer novas incursões desse tipo.
O presidente Lula com a ex-presidente Cristina Kirchner, hoje em prisão domicliar (Ricardo Stuckert / PR)
Como o senhor vê a popularidade de Milei na Argentina hoje?
Ele é o principal inimigo de si mesmo. Todos os grandes problemas que o governo enfrentou na Argentina nesse período, já de 30 meses, foram auto infligidos, como o escândalo da Libra, a criptomoeda, os escândalos de corrupção do Miguel Adorni, o antigo chefe de gabinete, as denúncias sobre suposta corrupção em áreas dominadas pela irmã [Karina Milei] a partir de uma gravação do advogado pessoal do Milei, que acusava a irmã do presidente, fora esses [momentos] abruptos verbais do Milei.
Há um reconhecimento, de uma parcela muito representativa do eleitorado, de que foi conseguida uma vitória importante na redução da inflação, mas há por outro lado, três elementos a considerar. Primeiro que isso tem um custo importante em termos de nível de atividade, que é outro lado da moeda.
Segundo, a redução da inflação também não foi completada. Uma coisa é reduzir a inflação de 200% para 30% e outra é reduzir para 5%, 4% como aqui no Brasil. A inflação está em mais de 30% ao ano há oito ou nove meses, sem sinais claros de redução.
O terceiro ponto é que essa vitória se dilui com o passar do tempo. Vamos resgatar o que foi a experiência anti-inflacionária no Brasil. Sair daquela época de inflação maluca para uma inflação mais normal foi o grande trunfo do Fernando Henrique nas eleições de 1994 e com menos peso, mas ainda importante, nas eleições de 1998. Nas eleições de 2002 já não teve nenhuma importância, porque as pessoas queriam mais. É natural, e próprio das ambições naturais do ser humano
Ao mesmo tempo, com 200% ao ano de inflação, como era a situação da Argentina em 2023, podia fazer sentido fazer campanha com aquele visual da motosserra. Mas você corta o gasto público brutalmente no primeiro ano, corta no segundo, no terceiro já há uma fadiga. Você não pode viver de cortar o gasto público o tempo todo. O mundo real não funciona assim.
Na próxima eleição, que outras propostas Milei poderia trazer?
Realmente, não tem muito mais que apresentar hoje. A não ser por uma visão um pouco idílica de que a Argentina vai ser o país que mais vai crescer no mundo nos próximos 50 anos, até agora pouco consubstanciada na realidade.
Há um grande problema quando você se apresenta como quem vai destruir o Estado. Quando você o culpa pela inflação de 200%, há um certo eco na sociedade, em meio ao desespero.
Mas o Estado existe na sociedade moderna para se fazer coisas. Em alguns momentos, ele se excede e faz mal, mas tem que haver uma reflexão sobre políticas públicas que praticamente não há no governo argentino, pelo discurso de Milei.
Milei diz que é como um rato que está corroendo os pilares da casa para acabar com uma casa corrupta. Mas quando se pensa em políticas públicas, não são apenas ações anti-inflacionárias. É preciso política de educação, saúde, segurança. Em geral, em termos de políticas públicas, o governo tem muito pouco a exibir.
O economista Fábio Giambiagi, pesquisador da FGV (Divulgação)
Como avalia as chances de reeleição de Milei?
Milei é favorecido pela inação e falta de propostas da oposição, que até agora está engalfinhada em conflitos internos dentro do peronismo. Então, as chances dele vão depender, em parte, do que acontecer com a economia daqui até lá, que, se tiver uma inflação de 18%, 20% ano que vem, economia crescendo 3%, 3,5%, emprego melhorando etc., evidentemente, as chances de reeleição são maiores.Se tiver uma inflação que tá indo ao patamar de 30, 40% e não cai, economia e emprego patinando, evidentemente, as chances diminuem.
