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01/10/2026
7 min

Mineradora australiana compra projeto de terras raras no Sul de Minas por R$ 3,5 bi

Lynas Rare Earths vai adquirir 100% da Meteoric, empresa que desenvolve o Projeto Caldeira, no município de Caldas

Mineradora australiana compra projeto de terras raras no Sul de Minas por R$ 3,5 bi

A Lynas Rare Earths, maior produtora de terras raras fora da China, anunciou nesta quarta-feira, 30, um acordo vinculante para comprar 100% da Meteoric Resources, mineradora australiana que desenvolve o Projeto Caldeira, no município de Caldas, no Sul de Minas Gerais. A operação foi avaliada em 968 milhões de dólares australianos (R$ 3,5 bilhões pela cotação de hoje) e será paga integralmente com ações da Lynas. As duas empresas são listadas na bolsa australiana (ASX).

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em ímãs de alto desempenho, que equipam motores de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e sistemas de defesa. Caldeira reúne o maior recurso conhecido de terras raras em argilas iônicas (presos à argila, e não à rocha) fora da China, segundo as regras do código australiano JORC, padrão que disciplina como as mineradoras divulgam estimativas de jazidas.

Como funciona a operação

Cada acionista da Meteoric receberá 0,0207 ação nova da Lynas para cada ação que possui. Ao fim da operação, os atuais acionistas da Lynas ficarão com cerca de 94,1% da empresa combinada, e os da Meteoric, com 5,9%.

O valor de 968 milhões dólares australianos considera o preço médio ponderado por volume (VWAP) da ação da Lynas nos últimos 60 pregões, de A$ 15,29. Pelo fechamento de 30 de setembro, de A$ 13,83, a oferta equivale a  876 milhões de dólares australianos. Esse valor representa um prêmio de 68,4% sobre o último fechamento do papel. Como o pagamento é feito em ações, o valor final da transação vai variar com a cotação da Lynas até a conclusão.

A compra será feita por meio de um scheme of arrangement, mecanismo da lei australiana usado em aquisições amigáveis. Em vez de a compradora fazer uma oferta pública a cada acionista, a própria empresa-alvo conduz o processo sob supervisão da Justiça. A operação precisa do voto favorável de 75% das ações presentes na assembleia e da maioria numérica dos acionistas votantes, além de duas homologações judiciais. Aprovada, ela passa a valer para todos os acionistas, inclusive os que votaram contra. O mecanismo se aproxima da incorporação de ações prevista na Lei das S.A. brasileira.

O conselho da Meteoric recomendou a operação por unanimidade, desde que não surja uma proposta superior e que um avaliador independente conclua que o negócio atende ao interesse dos acionistas. Os diretores, que somam 2,6% das ações, e o maior acionista individual, Tolga Kumova, com 6,7%, declararam intenção de votar a favor. O acordo prevê cláusulas de exclusividade e multas de rescisão para as duas partes, cujos valores não foram divulgados.

Até a conclusão, a Lynas vai emprestar até 110 milhões de dólares australianos à Meteoric para manter o desenvolvimento de Caldeira. São 35 milhões liberados na assinatura e até 75 milhões adicionais caso o acordo siga em vigor após seis meses. A Meteoric só precisará devolver os recursos se aceitar uma proposta concorrente ou descumprir o acordo.

O que torna Caldeira relevante

A diferença do projeto mineiro está no tipo de depósito. Nas argilas iônicas, as terras raras não ficam presas dentro de uma rocha dura. Ao longo de milhões de anos, o clima tropical decompôs a rocha original e transformou parte dela em argila, e os elementos ficaram aderidos de forma fraca à superfície dessas partículas. Por isso, podem ser extraídos com uma lavagem com solução salina, sem necessidade de detonação, moagem ou ataque químico pesado, o que reduz custos. Esse tipo de jazida também costuma ter maior proporção de terras raras pesadas, de maior peso atômico, as mais escassas.

Os depósitos de argila iônica em operação no mundo estão concentrados no sul da China e em Mianmar. A Lynas, por sua vez, opera a mina de Mt Weld, na Austrália Ocidental, que é de rocha dura.

Caldeira tem recurso mineral de 1,631 bilhão de toneladas, com teor médio de 2.317 partes por milhão (ppm) de óxidos de terras raras, ou cerca de 0,23%. Recurso é a quantidade estimada de minério no subsolo. A reserva, parcela que os estudos técnicos mostram ser economicamente viável de extrair, é de 151 milhões de toneladas, com teor de 3.524 ppm.

Dentro desse recurso estão cerca de 802 mil toneladas de NdPr (neodímio e praseodímio), a dupla de terras raras leves que forma a base dos ímãs permanentes, e 41 mil toneladas de DyTb (disprósio e térbio). Essas duas terras raras pesadas são adicionadas aos ímãs para que mantenham o desempenho em altas temperaturas, como nos motores de veículos elétricos.

O Estudo de Viabilidade Definitivo (DFS, na sigla em inglês), última etapa técnica antes da decisão de investimento, foi publicado em julho. Ele prevê investimento de US$ 498 milhões, vida útil de 23 anos e produção média anual de 12.500 toneladas de óxidos de terras raras, sendo 3.862 toneladas de NdPr e 127 toneladas de DyTb. O custo caixa estimado é de US$ 11,68 por quilo. O projeto obteve a Licença Prévia do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) em dezembro de 2025, e a meta é conseguir a Licença de Instalação ainda neste ano.

O que a Lynas ganha

Para a Lynas, Caldeira amplia em 79% os recursos minerais e em 26% as reservas, considerando a soma das estimativas das duas empresas. Segundo a apresentação da operação, a Meteoric representará cerca de 6% do valor de mercado da companhia combinada, mas responderá por 44% dos recursos e 21% das reservas.

A Lynas tem valor de mercado de cerca de 14 bilhões de dólares australianos (R$ 50 bilhões) e encerrou junho com 1,2 bilhão em caixa e aplicações de curto prazo. A empresa tem operações na Austrália e na Malásia e é hoje a única produtora comercial, fora da China, de óxidos separados de terras raras leves e pesadas.

A separação é a etapa mais sensível da cadeia. A mina entrega uma mistura com vários elementos juntos, e isolar cada um deles exige um processo químico com centenas de estágios. É nessa fase industrial que a China construiu sua vantagem, e o país responde por cerca de 90% da produção mundial de ímãs de terras raras.

No comunicado, a Lynas afirma que pretende avaliar o potencial de desenvolver atividades de separação no Brasil, mas não assumiu compromisso de investimento. A empresa também diz que vai manter a equipe da Meteoric no país.

O aval de Brasília

A conclusão depende de aprovação no Brasil com base na Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei exige autorização do governo para mudanças de controle em empresas que detêm direitos de exploração desses minerais e prevê até R$ 5 bilhões em créditos tributários para quem processar os minérios no país.

As empresas reconhecem que essa etapa pode afetar o cronograma, já que partes da nova regulação ainda precisam ser implementadas. Segundo o comunicado, Lynas e Meteoric já abriram diálogo com representantes do governo federal.

O calendário indicativo prevê a primeira audiência judicial em meados de novembro, a assembleia de acionistas da Meteoric no fim de janeiro de 2027 e a conclusão da operação no início de março de 2027.

De US$ 20 milhões a quase A$ 1 bilhão

A Meteoric chegou a Caldas em 2023. Em março daquele ano, a empresa assinou o contrato definitivo para comprar os direitos minerários do Grupo Togni, empresa familiar que extrai argila na região de Poços de Caldas há mais de um século para fabricar materiais refratários. O acordo previa US$ 20 milhões pagos em quatro parcelas anuais e um royalty de 4,75% sobre o valor da produção futura. Semanas depois, a Meteoric ampliou a área com 21 licenças vizinhas adquiridas de outros proprietários.

A operação reforça um movimento de consolidação no setor. Em abril, a americana USA Rare Earth comprou a Serra Verde, dona da única mina de terras raras em operação no Brasil, por US$ 2,8 bilhões. Na época, o BTG Pactual citou a Meteoric entre as empresas bem posicionadas para a próxima onda de aquisições.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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