MM2026: 'Dá para ter esperança no Brasil, mas precisamos tirar o fiscal da frente', diz Mansueto
André Esteves e Mansueto Almeida avaliaram os avanços econômicos da última década e apontaram o ajuste fiscal como principal desafio para o próximo ciclo de crescimento do país

Durante a premiação Melhores e Maiores 2026, da EXAME, realizada nesta quinta-feira, 24, o chairman e senior partner do BTG Pactual, André Esteves, e o economista-chefe do banco, Mansueto Almeida, avaliaram os desafios da economia brasileira e defenderam avanços institucionais e maior controle sobre o crescimento das despesas públicas como caminhos para ampliar investimentos e reduzir os juros.
Para Esteves, o principal desafio do país está menos relacionado ao desempenho econômico e mais à construção de instituições mais sólidas. "O nosso principal desafio não está na economia, mas nas instituições. A economia vamos melhorando aos trancos e barrancos, e tornando-a mais estável. As instituições exigem um trabalho diário para construir", declarou.
Na avaliação de Mansueto, o Brasil apresenta uma trajetória econômica mais positiva quando comparada ao cenário de uma década atrás.
"Se olharmos para 10 anos atrás, o Brasil melhorou muito de lá para cá na economia. Há 10 anos, estávamos em recessão, 2 anos seguidos de queda de PIB, desemprego em 12%, crise no setor de petróleo, Petrobras era a petroleira mais endividada do mundo, crise no setor de energia e crise no setor imobiliário", disse o economista-chefe do BTG Pactual.
Segundo Mansueto, parte desses problemas foi superada nos últimos anos. "Agora, nada disso acontece mais. No governo Temer, a Petrobras começou a trabalhar com a paridade internacional, teve o maior lucro da história nesse 2º trimestre e o Brasil é atualmente exportador de petróleo. Nós vamos terminar o ano com saldo de balanço comercial em torno de US$ 75 bilhões a US$ 80 bilhões, dos quais US$ 45 bilhões vêm do petróleo".
"Setor de energia voltou a investir em geração, transmissão e distribuição. E o setor imobiliário, apesar de juros muito altos, vem de quatro anos muito bons", afirmou.
Reformas e participação privada
No evento da EXAME, André Esteves, chairman do BTG Pactual e Mansueto Almeida, economista-chefe do banco, analisaram a trajetória recente do Brasil e defenderam maior previsibilidade institucional e disciplina fiscal. (Leandro Fonseca/Exame)
O economista-chefe do BTG Pactual ressaltou que o país avançou em marcos regulatórios considerados relevantes para atrair investimentos privados, citando saneamento, concessões de infraestrutura e a independência do Banco Central.
"O Brasil fez reformas importantes. No meio da pandemia, em 2020, o Brasil aprovou uma lei nova para investimentos em saneamento, algo muito significativo para um país com metade dos domicílios sem rede de esgoto, porque para investir em saneamento apenas rede estatal. Em junho de 2020, foi aprovado o marco regulatório e, desde então, vários estados fizeram concessão para serviço de saneamento", disse Mansueto.
Ele também mencionou o avanço das concessões de rodovias.
"Estamos terminando um governo com 30 concessões de rodovias federais. A média de concessão de rodovia federal, em cada mandato de quatro anos, era de 8 a 10 concessões. O governo foi pragmático e reconheceu que precisa do setor privado para fazer investimentos".
"Os estados fizeram concessões de portos, rodovias estaduais e o país avançou", acrescentou.
Mansueto citou ainda a aprovação da autonomia do Banco Central como outro marco institucional.
"Em fevereiro de 2021, o Brasil aprovou a independência do Banco Central, um marco regulatório importante".
Juros altos e desafio fiscal
Apesar dos avanços, o economista afirmou que o aumento dos gastos públicos é hoje um dos principais obstáculos para a redução dos juros no país.
"Mas o Brasil tem hoje um grande problema: infelizmente, um governo que gastou muito. Em quatro anos, de 2023 a 2026, teremos um crescimento do PIB de pelo menos 11%, que dá uma média anual 2,7%. Um período muito bom. Mas nesse período, o gasto público federal cresceu 22%, o dobro do crescimento da economia. Em um país com desemprego baixo, isso gera inflação alta e força o Banco Central a trabalhar com juros perto da Lua".
Para Mansueto, o caminho para uma queda mais rápida dos juros passa pelo controle das despesas.
"O problema do Brasil hoje é criar um ambiente com redução rápida de juros. E a melhor forma de fazer isso é simplesmente controlando o crescimento dos gastos", reforçou.
"Para criar um ambiente de juros baixos, quem quer que seja o próximo presidente, precisa fazer uma coisa: segurar o crescimento do gasto público. Com ambiente de juros baixos, teremos melhores condições de investir e levar esse país para frente", declarou o economista.
Ajuste fiscal
Ao tratar do ajuste fiscal, Mansueto afirmou que o desafio não é necessariamente cortar programas, mas controlar o ritmo de expansão das despesas.
"Do ponto de vista econômico, o desafio não é cortar despesas, mas controlar o crescimento delas. O Bolsa Família, por exemplo, é um programa bom. Mas de 2003 até 2019, chegou a 14 milhões de famílias e o custo anual nunca passou de R$ 40 bilhões. Hoje ele é maior, chega a 20 milhões de famílias e o custo anual é de R$ 160 bilhões. Então, não é necessário continuar aumentando o Bolsa Família".
O economista também citou o impacto da política de valorização do salário mínimo sobre outras despesas públicas.
"Em um país com pleno emprego, as empresas para contratarem, precisam elevar o salário. Em um país nessas condições, não é necessário aumentar o salário-mínimo todos os anos, porque no Brasil ele é o piso da presidência e o indexador de vários programas sociais. Quando o governo dá aumento de salário-mínimo, ele dá aumento real para 70% dos aposentados. E isso leva a uma expansão muito grande dos gastos".
Segundo Mansueto, mudanças pontuais podem alterar a dinâmica das despesas.
"Então com poucas medidas, você muda toda a dinâmica do crescimento dos gastos. Como fazer isso politicamente? Negociando e falando com o Congresso Nacional", disse.
"Dá para ter esperança no Brasil, mas precisamos tirar o fiscal da frente", declarou Mansueto.
Desempenho das maiores empresas brasileiras
Na abertura da premiação, Lucas Amorim, diretor de redação da EXAME, destacou o desempenho das maiores empresas do país no ranking Melhores e Maiores 2026.
"Em 2025, as 1000 maiores empresas do Brasil faturaram R$ 10 trilhões. É um recorde histórico e um crescimento de 10% em relação a 2024. Além disso, houve um feito inédito: todos os 22 setores cresceram, nenhum recuou. Uma amostra do poder e da diversidade das empresas brasileiras no último ano. O lucro cresceu ainda mais: 16% para R$ 670 bilhões", disse.
"É um prazer reconhecer as empresas que fazem a diferença. As empresas que atravessaram um ano tão complexo, com eleições e disputas. E a EXAME segue comprometida em reconhecer a consistência", acrescentou.
