Moçambique quer produzir mais alimentos — e vê a Embrapa e agricultores brasileiros como a chave
País africano busca reduzir a dependência de alimentos importados e negocia com a Embrapa capacitação de técnicos, transferência de cultivares e novas tecnologias para elevar a produtividade no campo

De Maputo, Moçambique* — Com uma economia na qual a agricultura ocupa cerca de três quartos da força de trabalho, Moçambique quer elevar a produção doméstica de alimentos para reduzir os preços e busca no Brasil parte da tecnologia, do conhecimento e do investimento necessários para acelerar esse processo.
A estratégia ficou clara durante a 61ª edição da Feira Internacional de Maputo (FACIM), a maior feira multissetorial de negócios de Moçambique, da qual a EXAME participou in loco pela primeira vez.
O evento, que terminou no dia 4 de setembro, contou com 3 mil expositores, entre moçambicanos e estrangeiros, e tinha diversas máquinas agrícolas e outros insumos relacionados à agricultura.
O Brasil teve a maior comitiva de empresários do evento e foi escolhido como o país de honra da edição de 2026 da feira.
Durante seu discurso na abertura do evento, o presidente Daniel Chapo, recém-reeleito em um processo contestado pela oposição, ressaltou a necessidade do país de aumentar a produtividade no campo.
"Queremos usar a tecnologia para aumentar a produtividade da nossa agricultura, modernizar a nossa indústria, expandir os serviços digitais, aproximar os produtores dos mercados e, sobretudo, tornar a vida dos cidadãos e das empresas mais simples, produtivas e prósperas", disse.
Quando participou da abertura do pavilhão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), ele falou que o país precisa produzir "mais comida" para a população e quer aprender com o Brasil.
Apesar do potencial agrícola, Moçambique ainda é um importador líquido de alimentos e depende do exterior para abastecer parte relevante do consumo de produtos como arroz e trigo.
A estratégia passa por ampliar a cooperação com a Embrapa, capacitar técnicos locais, testar variedades desenvolvidas no Brasil e atrair agricultores e empresas brasileiras dispostos a produzir no país africano.
É nesse espaço que a Embrapa tenta reconstruir uma presença mais próxima no continente africano. Ana Euler, diretora de Inovação Social e Transferência de Tecnologia da empresa, reuniu-se em Moçambique com o ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, como desdobramento de conversas iniciadas em novembro do ano passado.
Segundo ela, a primeira etapa da cooperação não passa apenas pelo envio de sementes ou pela venda de cultivares, mas pela formação de profissionais capazes de utilizar e adaptar tecnologias às condições locais.
“Não adianta só ter tecnologia se não tem quem guie as boas práticas para o acesso e uso, validação e adaptação dessas tecnologias”, diz Euler, em entrevista À EXAME durante a missão empresarial da ApexBrasil em Moçambique.
A avaliação coincide com a agenda apresentada pelo próprio Ministério da Agricultura moçambicano. Roberto Mito Albino tem colocado assistência técnica, acesso a insumos de qualidade e financiamento entre os elementos necessários para elevar a produtividade. O governo também criou iniciativas voltadas a cadeias como arroz, milho e feijão, produtos nos quais reconhece dependência relevante de importações.
A aproximação ocorre em um momento no qual o governo do presidente Daniel Chapo colocou a produção de alimentos entre as prioridades econômicas. Na campanha agrária 2025-2026, o governo estabeleceu, entre outras metas, produzir 3,4 milhões de toneladas de cereais, 7% acima do ciclo anterior, além de mais de 10 milhões de toneladas de raízes e tubérculos. O plano oficial também prevê avanços na produção de leguminosas, castanha de caju e proteína animal.
A dimensão do desafio aparece nos números do país. O Instituto Nacional de Estatística de Moçambique estima uma população de 34,96 milhões de pessoas em 2026, das quais 65% vivem em áreas rurais. O órgão calcula crescimento populacional de 2,5% ao ano. Em 2025, o PIB por habitante ficou em US$ 692 e a economia registrou contração de 0,2%, segundo os dados nacionais. A economia do país desacelera desde 2016, segundo o FMI, com dois terços da população abaixo da linha da pobreza e uma infraestrutura precária.
Além disso, Moçambique atravessou uma onda de protestos após as eleições presidenciais de outubro de 2024, que levou a confrontos, interrupções no transporte e fechamento de empresas. O Banco Mundial aponta a instabilidade pós-eleitoral entre os fatores que afetaram a atividade econômica em 2025, ao lado das pressões fiscais e da escassez de divisas.
A pressão sobre o custo de vida permanece em 2026. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 7,48% em julho, segundo o Instituto Nacional de Estatística, em um país no qual o preço dos alimentos tem peso relevante sobre a renda das famílias. O Banco Mundial afirma que a inflação voltou a ganhar força com a alta dos alimentos e prevê novas pressões em 2026, associadas, entre outros fatores, a problemas na oferta provocados por enchentes.
O FMI calcula que a agricultura responde por aproximadamente um quarto da economia moçambicana e emprega três de cada quatro trabalhadores, mas ainda opera com produtividade considerada baixa.
Entre os entraves citados pelo organismo estão acesso limitado a financiamento e insumos, baixa irrigação e exposição a choques climáticos. Apenas cerca de 12% da área territorial do país está atualmente sob cultivo, segundo relatório do Fundo publicado em 2026.
Além do foco no agro, Moçambique vive a expectativa dos investimentos em gás natural. Chapo afirmou que US$ 50 bilhões serão investidos no país nos próximos anos. A francesa Total Energies retomou a construção de um mega projeto no norte do país, paralisado por cinco anos após um ataque terrorista na região de Cabo Delgado.
Embrapa quer começar pela capacitação
Uma das frentes em discussão é ampliar o acesso de técnicos e agricultores moçambicanos às plataformas digitais da Embrapa. A empresa mantém o e-Campo, plataforma de capacitação que, segundo Euler, reúne mais de 200 cursos, 1,5 milhão de inscritos e usuários em 167 países.
A proposta para a África é ir além da disponibilização do conteúdo produzido para as condições brasileiras. A Embrapa discute parcerias com universidades brasileiras e africanas para adaptar cursos às cadeias produtivas locais e oferecer formação mais extensa a extensionistas rurais.
“O momento em que a gente está agora é o fortalecimento do capital humano deles”, diz Euler.
A diretora disse que a instituição pretende combinar ensino digital, comunidades de prática, intercâmbio e acompanhamento técnico. Entre as áreas citadas estão produção de alimentos, mudanças climáticas, pecuária e bioinsumos, produtos de origem biológica utilizados, por exemplo, na nutrição ou no controle de pragas e doenças agrícolas. Outra frente envolve a genética desenvolvida pela empresa.
De acordo com Euler, cerca de 150 cultivares da Embrapa, variedades de plantas melhoradas geneticamente para produzir mais, resistir a pragas e doenças e se adaptar ao clima do Brasil, já estão em domínio público e poderiam integrar programas de cooperação. Parte desse material, segundo ela, já passou por avaliações anteriores em países africanos.
Entre os exemplos citados estão variedades biofortificadas de batata-doce, milho, feijão e mandioca, desenvolvidas para apresentar concentrações maiores de determinados nutrientes.
“O que a gente quer fazer é capacitar os técnicos, democratizar o acesso à nossa genética e acompanhar, junto com eles, a validação e o processo de desenvolvimento dessas cadeias aqui”, afirma a diretora.
O modelo é diferente para variedades ainda protegidas. Nesse caso, empresas interessadas precisam recorrer a licenciados e pagar pela utilização da tecnologia, mecanismo que gera receitas para financiar novas pesquisas da Embrapa.
A FAO, braço das Nações Unidas para alimentação e agricultura, afirma que mais de 80% da população moçambicana depende da agricultura para sua subsistência. A organização também aponta que eventos climáticos, conflitos e dificuldades de acesso a recursos produtivos continuam afetando a capacidade de produção no campo.
Governo também quer agricultores brasileiros
A segunda frente da aproximação tem caráter empresarial. O governo moçambicano tenta atrair produtores e companhias capazes de ampliar a agricultura comercial, ao mesmo tempo em que busca elevar a produtividade dos pequenos produtores, responsáveis por grande parte da produção de alimentos consumida internamente.
“Eles querem muito atrair o setor privado, inclusive do próprio Brasil. Empresários brasileiros para cá, para poder dar escala a uma agricultura de exportação”, diz Euler.
A diretora afirma que já encontrou, durante a viagem, produtores brasileiros interessados em avaliar oportunidades no país e cita a disponibilidade de terra como um dos elementos que entram no cálculo dos investidores.
Ela pondera, porém, que investimentos agrícolas no continente exigem uma avaliação própria de riscos, infraestrutura e condições institucionais.
“Tem, sim, investidores. É lógico que, na minha visão, é um investidor mais arrojado, porque vir para a África não é para amadores”, afirma.
Cooperação depende de financiamento
O interesse dos dois governos, porém, não significa que a transferência de tecnologia ocorrerá apenas com recursos públicos brasileiros.
Euler afirma que uma das principais limitações da expansão da Embrapa no continente é justamente financiar a implementação dos projetos.
“O mais caro da Embrapa é o custo da nossa folha de pagamento, dos nossos cientistas, da nossa estrutura de laboratórios, do nosso banco ativo de germoplasma e das nossas tecnologias. Agora, o custo de transferir isso tem que ser pago por alguém”, diz.
A empresa passou, por isso, a procurar bancos multilaterais, organizações internacionais e agências de cooperação que possam financiar programas conjuntos. Entre os interlocutores citados pela diretora estão o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, o Banco Africano de Desenvolvimento, a FAO e agências nacionais de cooperação.
A Embrapa também reabriu uma representação na África, instalada em Adis Abeba, capital da Etiópia e sede da União Africana. Segundo Euler, o escritório tem função de articulação institucional e de construção de projetos com governos, organismos internacionais e potenciais financiadores.
Além de Moçambique e Etiópia, a diretora cita negociações ou projetos com Angola, Nigéria e Marrocos.
O mesmo cenário ajuda a explicar por que aumentar a produção doméstica de alimentos ganhou espaço na agenda econômica.
Para o governo moçambicano, a equação combina duas frentes: elevar a produtividade de milhões de pequenos produtores e criar espaço para investimentos privados capazes de produzir em maior escala.
Para a Embrapa, a cooperação abre outra discussão: em vez de repetir o modelo de décadas atrás, baseado principalmente na transferência brasileira de conhecimento, a empresa quer usar a aproximação para construir projetos conjuntos de pesquisa, sobretudo sobre adaptação da agricultura às mudanças climáticas.
“Não é um país que sozinho vai ter todas as soluções”, disse Euler. “A gente precisa, no novo contexto de mudanças do clima, fazer parcerias com o Sul Global.”
*O jornalista viajou a convite da ApexBrasil
