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Mercado ImobiliárioFII
07/10/2026
13 min

Morar sozinho virou regra? 1 em cada 5 brasileiros vive só — e a maioria não é jovem

Imóveis de menor metragem ganham espaço com a alta de pessoas vivendo sozinhas

Morar sozinho virou regra? 1 em cada 5 brasileiros vive só — e a maioria não é jovem

O Brasil tem 13,7 milhões de pessoas vivendo sozinhas, e os domicílios com apenas um morador já representam quase um em cada cinco no país. Em pouco mais de duas décadas, esse número praticamente triplicou e os jovens são a menor parcela desse grupo.

Entre quem mora sozinho, 47% têm de 30 a 59 anos, 41% têm 60 anos ou mais e apenas 12% estão na faixa de 15 a 29 anos, segundo dados apresentados em um levantamento da Brain Inteligência Estratégica com a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

Entre as mulheres que vivem sozinhas, o envelhecimento desse perfil é ainda mais evidente. Mais da metade tem 60 anos ou mais. O cenário faz parte de uma transformação demográfica que já interfere na forma como os brasileiros enxergam a moradia e, consequentemente, no produto oferecido pelo mercado imobiliário.

A tendência também aparece na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua). O presidente da Abrainc, Luiz França, explica que os domicílios com apenas um morador passaram de 12,2% do total em 2012 para 19,7% em 2025.

Envelhecimento da população, maior longevidade, adiamento dos casamentos, redução do número de filhos, separações e maior autonomia para morar sozinho são apontados como fatores por trás da mudança. "Há relação, mas a tendência tem um forte componente demográfico e mudança no comportamento das pessoas", diz.

A consequência é uma demanda maior por unidades adequadas a famílias menores. Preço e localização também entram nessa equação e influenciam o tipo de imóvel oferecido.

Morar sozinho não significa a mesma coisa em todas as idades

O levantamento mostra que colocar todos os domicílios com uma pessoa só no mesmo grupo esconde diferenças relevantes. Um jovem, uma pessoa recém separada e um idoso podem procurar imóveis de metragem semelhante, mas apresentar necessidades bastante distintas.

Entre os mais jovens que moram sozinhos, a Geração Z é o grupo que mais considera a residência atual passageira. Nesse recorte, 90% veem a moradia em que vivem como temporária.

O estudo também aponta maior disposição desse público para aceitar menos espaço em troca de localização, com interesse em proximidade do trabalho, restaurantes e vida noturna.

Considerando um Brasil que envelhece, em 2025, 41,4% dos brasileiros tinham até 29 anos, ante 49,9% em 2012. A projeção citada pela pesquisa indica ainda que o Brasil deve atingir 220,4 milhões de habitantes em 2041, quando chegaria ao pico populacional antes de começar a diminuir.

Quem mora sozinho no Brasil
Indicador Dado
Brasileiros que vivem sozinhos 13,7 milhões
Participação nos domicílios do país Quase 1 em cada 5
15 a 29 anos 12%
30 a 59 anos 47%
60 anos ou mais 41%
Fonte: IBGE, dados apresentados no levantamento Brain + Abrainc

Na outra ponta da pirâmide etária, a população com 60 anos ou mais deve chegar a 37,8% do total em 2070, quase o dobro dos 15,6% registrados em 2022.

Entre os Baby Boomers que já moram sozinhos, 55% ainda consideram a residência atual temporária, segundo a apresentação. Segurança é valorizada por 39% desse grupo, acompanhada pela procura por praticidade, elevador e serviços próximos.

Há ainda um terceiro perfil abordado pelo estudo, o do brasileiro que passa a morar sozinho depois de uma separação. O tempo médio até o divórcio é de 13,8 anos e, em 2024, foram registrados mais de 428 mil divórcios, segundo os dados reproduzidos no levantamento.

A Geração X é a que mais recorre à venda de outro imóvel para viabilizar uma próxima compra, com 18,7% nesse recorte apresentado pela pesquisa.

Ter filhos também muda a relação com o imóvel

Não é apenas a idade que determina como as pessoas enxergam a moradia. A própria Brain ressalta que a composição familiar altera a relação com o imóvel tanto quanto a geração à qual o comprador pertence.

Na comparação por composição familiar, 77% das pessoas que moram sozinhas consideram a residência atual temporária. O percentual também é de 77% entre casais sem filhos, mas cai para 55% entre casais com filhos.

O levantamento resume esse movimento afirmando que quem tem filhos vê a moradia como mais definitiva.

Entre quem vive sozinho, 29% moram em imóveis com três ou mais quartos, enquanto o percentual chega a 63% nos casais com filhos. A ausência de vaga de garagem aparece em 18% de quem mora sozinho, ante apenas 6% entre casais com filhos.

Quem vê a moradia atual como temporária
Composição familiar Dado
Morando sozinho 77%
Casal sem filhos 77%
Casal com filhos 55%
Fonte: Brain Inteligência Estratégica + Abrainc

As diferenças financeiras são igualmente grandes. Só 11% das pessoas que vivem sozinhas pagam mais de R$ 100 mil de entrada, contra 29% entre casais com filhos. Parcelas acima de R$ 5 mil aparecem para 19% dos moradores sozinhos e para 53% dos casais com filhos.

Apartamentos menores avançam em São Paulo

O avanço de famílias menores ocorre ao mesmo tempo em que apartamentos de um e dois dormitórios perderam metragem nos lançamentos de São Paulo.

Dados do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP) mostram que apartamentos de um dormitório tinham área média de 40,5 metros quadrados em 2013.

Em 2024, eram 27,2 metros quadrados. Nas unidades de dois dormitórios, a metragem média passou de 57,2 para 38,6 metros quadrados no período. A redução, porém, não ocorreu em todas as categorias. Apartamentos de três dormitórios passaram de 87,7 metros quadrados para 101,2 metros quadrados.

Área média dos apartamentos lançados em São Paulo
Tipologia 2013 2024
1 dormitório 40,5 m² 27,2 m²
2 dormitórios 57,2 m² 38,6 m²
3 dormitórios 87,7 m² 101,2 m²
Fonte: Secovi-SP, dados citados pela Abrainc em resposta à EXAME

O levantamento ressalta, porém, que os números mostram uma mudança nos produtos lançados, mas não são suficientes para medir sozinhos quanto as preferências dos compradores se alteraram ao longo do tempo.

"O tamanho continua relevante, mas precisa ser conciliado com localização e capacidade de pagamento. Em regiões com terrenos caros e boa infraestrutura, aceitar menos espaço pode permitir morar perto do trabalho, do transporte e dos serviços, com um preço total mais acessível", afirma França.

O CEO da Brain Inteligência Estratégica, Fábio Tadeu Araújo, também identifica uma perda de importância da metragem na decisão do consumidor. "O tripé era localização, preço e tamanho. E hoje o tamanho é muito menos importante", afirma.

Segundo o executivo, há cerca de dez anos a divisão de importância desses fatores ficava, em média, próxima de 45% para localização, 30% para preço e 25% para tamanho. Hoje, ele estima 55% para localização, 35% para preço e 10% para tamanho.

Araújo associa essa mudança à redução do tamanho das famílias e ao aumento dos preços dos imóveis nas regiões mais desejadas.

Localização continua à frente do tamanho

Os dados da pesquisa por geração reforçam a distância entre localização e tamanho. Entre os Baby Boomers, 78% consideram localização um fator decisivo na escolha do imóvel. O percentual é de 72% entre as gerações X e Y e de 61% na Geração Z.

O tamanho aparece para 11% dos Baby Boomers, 12% das gerações X e Y e 13% da Geração Z. O preço faz o caminho inverso à localização e ganha importância conforme a idade diminui. É citado por 18% dos Baby Boomers, 26% das gerações X e Y e 35% da Geração Z.

Como cada geração viabiliza a compra do imóvel
Geração Financiamento bancário Venda de outro imóvel
Baby Boomers 15% 36%
Geração X 26% 21%
Geração Y 41% 14%
Geração Z 44% 5%
Fonte: Brain Inteligência Estratégica + Abrainc

Outro recorte da pesquisa separa as gerações X e Y e mostra a mesma direção. Na hora da compra, preço aparece para 18% dos Baby Boomers, 23% da Geração X, 28% da Y e 36% da Z. As condições de pagamento pesam para apenas 1,3% dos Baby Boomers e chegam a 9,2% entre a Geração Z.

O estudo destaca que esse fator pesa sete vezes mais para os jovens do que para os mais velhos.

Segurança ainda está no centro da casa própria

Apesar das diferenças de idade, renda e composição familiar, segurança continua sendo um conceito central na relação dos brasileiros com os imóveis. As motivações de compra também ajudam a mostrar em que momento da vida o imóvel entra.

Na amostra geral, a pesquisa soma a resposta direta de segurança, com 36%, à formação de patrimônio, com 15%, que o estudo também relaciona à estabilidade. Com isso, chega a 51% dos entrevistados. Qualidade de vida aparece com 18% e moradia para a família, com 13%.

Transições representam 61% das motivações registradas, enquanto upgrade responde por 21% e investimento por 14%. Dentro das transições, sair do aluguel responde por 66%, mudanças familiares por 24% e mudança de cidade por 10%.

Entre as compras classificadas como investimento, 85% são relacionadas à locação e 15% à revenda.

Entre famílias com renda de R$ 2,5 mil a R$ 5 mil, 42% veem o imóvel como segurança e 6% como formação de patrimônio. Acima de R$ 20 mil, os percentuais passam para 28% e 23%, respectivamente.

A percepção da residência atual como temporária também cai com a renda, de 70% na primeira faixa para 57% entre os que recebem acima de R$ 20 mil.

Jovens dependem mais do banco

O financiamento bancário aparece para 44% da Geração Z e 41% da Geração Y. Na Geração X, recua para 26% e chega a apenas 15% entre os Baby Boomers. A venda de outro imóvel segue a direção oposta. É citada por 5% da Geração Z, 14% da Y, 21% da X e 36% dos Baby Boomers.

"Quanto mais jovem, mais é importante financiamento bancário porque ele tem menos poupança guardada. Ele até tem às vezes uma renda mensal, um salário mensal muito bom, mas não guardou dinheiro suficiente ainda porque é muito jovem", de acordo com Araújo.

A capacidade de pagar a entrada também separa as gerações. Entre os Baby Boomers, 40% afirmam pagar mais de R$ 100 mil de entrada. O percentual cai para 33% na Geração X, 18% na Y e somente 3% na Z.

Parcelas mensais superiores a R$ 5 mil aparecem para 30% dos Baby Boomers, 26% da Geração X, 18% da Y e 15% da Z.

Além disso, moradias com três ou mais quartos são ocupadas por 74% dos Baby Boomers, 59% da Geração X, 51% da Y e 41% da Z. A falta de vaga de garagem segue o movimento oposto e aparece para 15% da Geração Z, ante 6% dos Baby Boomers.

Financiamento longo incomoda mais conforme a idade

Entre a Geração Z, 18% se dizem desconfortáveis com um financiamento de longo prazo. A parcela aumenta para 21% na Geração Y, 38% na X e 62% entre os Baby Boomers. Na direção oposta, 41% dos jovens se declaram confortáveis com esse tipo de compromisso, contra 11% dos Baby Boomers.

Araújo também destaca a maior importância do patrimônio já acumulado conforme a idade avança. "A utilização da venda de um bem, de outro imóvel, para adquirir o imóvel pretendido é muito maior quanto maior a idade."

Entre os Baby Boomers, o levantamento resume a relação com o imóvel como segurança, preservação e adequação.

Nesse grupo, 59% já veem a moradia atual como definitiva, 36% dependeriam da venda de outro imóvel para uma nova aquisição e 62% consideram desconfortável assumir um financiamento de longo prazo.

Geração Z vê a moradia atual mais como etapa

Na Geração Z, o quadro é diferente, porque, entre os jovens de 21 a 28 anos, 83% enxergam a residência atual como temporária e 44% apontam o financiamento bancário como forma de viabilizar a compra. Além disso, 79% das motivações apresentadas para o grupo estão ligadas a sair do aluguel ou da casa dos pais.

A intenção de compra é justamente maior entre os mais jovens. O percentual é de 67% na Geração Z, 53% na Y, 47% na X e 25% entre os Baby Boomers. "As diferenças aparecem principalmente nos objetivos da compra e no momento de vida", segundo França.

O imóvel do futuro também muda conforme a geração

Na Geração Z, 48% se imaginam morando em um imóvel maior, percentual idêntico ao da Geração Y. Entre a Geração X, são 31%, e entre os Baby Boomers, 18%. Permanecer no mesmo imóvel é a expectativa de 38% dos Baby Boomers, 27% da Geração X, 11% da Y e apenas 8% da Z.

A possibilidade de morar em um imóvel menor também cresce entre os mais velhos. É mencionada por 23% dos Baby Boomers, 10% da Geração X, 3% da Y e 5% da Z.

Fatores decisivos na escolha do imóvel
Geração Localização Preço Segurança Tamanho
Baby Boomers 78% 18% 39% 11%
Geração X e Y 72% 26% 35% 12%
Geração Z 61% 35% 40% 13%
Fonte: Brain Inteligência Estratégica + Abrainc

Na escolha do tipo de imóvel ideal daqui a dez anos, 57% dos Baby Boomers apontam apartamento na capital. O percentual é de 38% na Geração X, 38% na Y e 34% na Z. Para apartamentos no interior, os números são 36% entre Baby Boomers, 20% na X, 19% na Y e 32% na Z.

A renda também muda o imóvel projetado para o futuro, já que uma casa ou sobrado em rua é citada por 56% de quem recebe de R$ 2,5 mil a R$ 5 mil e por 17% de quem ganha acima de R$ 20 mil. No condomínio fechado, a relação se inverte e a preferência sobe de 18% na faixa mais baixa para 36% entre os entrevistados de maior renda.

Imóvel continua sendo investimento para uma parcela relevante

Mesmo com o uso próprio como principal finalidade, a compra para investimento mantém participação relevante no mercado. Desde o início de 2024 a participação das compras por investimento vem oscilando entre 20% e 30%. No recorte informado, passou de 20% em junho de 2025 para 26% em junho de 2026.

No estudo da Brain e da Abrainc, 11% afirmavam pretender comprar com finalidade de investimento, enquanto a participação chegava a 25% entre quem efetivamente havia comprado nos 12 meses anteriores.

O estudo calcula que a participação do investimento na compra realizada era 127% superior à registrada na intenção, e Araújo diz que a formação de patrimônio ajuda a sustentar essa procura. "E por que as pessoas continuam comprando? Porque elas gostam de formar patrimônio."

Para ele, a compra de imóveis como investimento permaneceu nos últimos cinco anos próxima de 25% entre consumidores com renda acima de R$ 2.500, oscilando geralmente entre 20% e 30%. Nas rendas acima de R$ 20 mil ou R$ 30 mil, segundo o executivo, o percentual chega a cerca de 35%.

Estudo ouviu 1.142 pessoas de 21 a 70 anos

O levantamento ouviu 1.142 pessoas de 21 a 70 anos, com renda superior a R$ 2.500. A amostra reuniu diferentes gerações e perfis familiares, com 52% de homens e 48% de mulheres. Do total de entrevistados, 56% tinham renda familiar mensal acima de R$ 10 mil, e a renda média declarada foi de R$ 16.061.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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