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Sacre Investimentos
Exame INBDR
19/06/2026
4 min

Morgan Stanley: Boa parte do rali atual em Wall Street não é lucro — é fé

Morgan Stanley: Boa parte do rali atual em Wall Street não é lucro — é fé

Em meio às sucessivas máximas históricas de Wall Street, um relatório do braço de gestão de ativos da Morgan Stanley levanta um sinal de atenção. Parte relevante do preço das ações americanas hoje não reflete o lucro que as empresas já entregam, mas sim a expectativa de que elas vão entregar ainda mais no futuro. Normal para um investimento de longo prazo que se baseia em perspectivas de retornos futuros. Mas essa fatia de "fé" está em um dos níveis mais altos da história.

O que é o PVGO

O estudo, assinado pelos analistas Michael J. Mauboussin e Dan Callahan, usa o conceito de PVGO, sigla em inglês para "valor presente das oportunidades de crescimento". A métrica, criada pelo economista financeiro Stewart Myers, separa o preço de uma ação em duas partes: o valor de "estado estável", que assume que o lucro atual simplesmente se mantém ao longo do tempo, e o PVGO propriamente dito, a parcela do preço que só se justifica se a empresa conseguir crescer e criar valor além do que já entrega hoje.

Segundo o levantamento, que analisa o S&P 500 desde 1961, o PVGO representou, em média, 35% do preço das ações ao longo da história, contra 65% atribuídos ao lucro já consolidado. No fim de 2025, porém, esse percentual estava bem acima da média histórica, patamar semelhante ao observado em momentos de forte euforia, como 1999 e 2001, segundo o relatório.

A conta por trás do prêmio

Se uma empresa não crescesse nunca mais — apenas repetisse o lucro atual ano após ano —, o preço "justo" da ação seria o lucro dividido pelo retorno mínimo que o investidor exige para aplicar em ações, hoje estimado em 8,75% ao ano. Essa conta resulta em um múltiplo preço-lucro de apenas 11,4 vezes. O S&P 500, no entanto, é negociado hoje a 21,9 vezes o lucro estimado para 2026, quase o dobro disso. A diferença entre os dois múltiplos é justamente o tamanho da aposta que o mercado está fazendo no crescimento futuro das empresas.

O estudo também percebeu uma correlação negativa moderada entre o percentual de PVGO e os retornos totais dos 10 anos seguintes: quanto maior a fatia de expectativa no preço, menor tende a ser o retorno subsequente. Dividindo o histórico em trimestres, as ações com PVGO mais baixo entregaram um retorno anualizado de 11,6% em 10 anos, contra apenas 7,6% para o período com PVGO mais alto.

Os exemplos individuais: Nvidia, Amazon, Microsoft e JPMorgan

Quando o foco sai do mercado como um todo e vai para empresas individuais, os exemplos citados no relatório ilustram histórias opostas. A Nvidia, hoje a maior companhia do mundo em valor de mercado, tem um PVGO percentual menor do que a média do início dos anos 2000. O crescimento acelerado de lucro e caixa nos últimos anos fez a empresa "entregar" parte do que antes era pura expectativa. A Amazon segue o mesmo caminho: o PVGO da empresa encerrou 2025 no menor nível desde a abertura de capital, em 1997, outro reflexo de como o crescimento real dos lucros vem reduzindo, proporcionalmente, a fatia do preço sustentada apenas por expectativa.

Outros casos reforçam o padrão: a Microsoft viu seu PVGO cair de 85%, em 1999, para -53% em 2012, território em que o mercado já não embutia praticamente nenhuma expectativa de crescimento futuro no preço, antes de se recuperar nos anos seguintes. Já o JPMorgan Chase seguiu um padrão parecido ao das gigantes de tecnologia, mas em níveis bem mais baixos, com o indicador ficando fortemente negativo após a crise financeira global de 2008-2009.

Em um mercado que segue batendo recordes, vale perguntar quanto desse preço é lucro de verdade, e quanto é aposta no que ainda não aconteceu.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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