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Sacre Investimentos
Mundo
28/10/2026
5 min

Morre ativista americana que inspirou o “Yes, we can” de Obama

Criadora do lema “Sí, se puede”, Dolores Huerta liderou greves no campo com apoio de Martin Luther King

Morre ativista americana que inspirou o “Yes, we can” de Obama

A sindicalista americana Dolores Huerta, cofundadora do United Farm Workers, entidade que representa lavradores nos Estados Unidos, faleceu nesta quarta-feira, 28, aos 96 anos.

A informação foi confirmada pelos familiares em publicação nas redes sociais da fundação que leva seu nome. A causa não foi divulgada.

Para boa parte do público fora do país, o nome pode não soar familiar. Já a frase que ela criou, sim.

Foi Huerta quem cunhou “Sí, se puede”, lema dos trabalhadores rurais latinos que, em tradução livre, virou o “Yes, we can” , famoso slogan da campanha vitoriosa de Barack Obama à Casa Branca em 2008.

De professora a negociadora

Dolores Clara Fernández nasceu em 10 de abril de 1930 em Dawson, pequena cidade mineradora do Novo México, numa família de origem mexicana. Após a separação dos pais, se mudou com a mãe para a Califórnia.

Antes do ativismo, deu aulas, mas a carreira no magistério durou pouco. Ela costumava contar que não suportava ver alunos chegando famintos e descalços à escola, e que poderia fazer mais organizando os pais deles do que tentando ensinar os filhos.

Na Community Service Organization, entidade de base latina, conheceu o agricultor e líder sindical César Chávez.

Em 1962, os dois fundaram, junto ao militante Gilbert Padilla, a National Farm Workers Association, embrião da United Farm Workers (UFW), primeira organização bem-sucedida a representar os assalariados agrícolas do país.

Uvas, boicotes e uma lei pioneira

A partir de 1965, a UFW abraçou a paralisação nos vinhedos de Delano, iniciada por colhedores filipinos, e a transformou em um boicote nacional que se estendeu por cinco anos.

Recusar uvas sem o selo sindical virou gesto político nos lares americanos. A causa ganhou o apoio de Martin Luther King Jr. e do senador Robert F. Kennedy, ao lado de quem a ativista estava na noite em que ele foi assassinado, em 1968.

Do lado oposto estavam os grandes fazendeiros e o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, que chegou a comer uvas diante das câmeras de TV para provocar os grevistas.

Enquanto Chávez era o rosto público da luta, com greves de fome e o apoio de celebridades, coube a Huerta a tarefa menos visível e mais decisiva: era ela quem sentava à mesa com os empregadores, circulava pelos corredores do Legislativo e coordenava os piquetes.

Até que em 1966, conduziu o acordo com a vinícola Schenley, que resultaria no primeiro contrato coletivo de trabalhadores rurais com uma empresa do agronegócio americano.

A partir de então, os termos garantiram itens que hoje parecem básicos, como banheiros e água potável nas plantações, intervalos para descanso, plano de saúde, aposentadoria e proteção contra agrotóxicos.

Prisões, cassetetes e machismo

Dolores Huerta dizia que ser mulher lhe dava vantagem nessas conversas, porque os patrões não sabiam como reagir quando confrontados com as condições que ela descrevia.

Ao longo de sua trajetória, foi detida mais de 20 vezes em atos pacíficos. Em 1988, aos 58 anos, apanhou de policiais de São Francisco durante um protesto contra a candidatura presidencial de George H. W. Bush e sofreu fraturas nas costelas e lesões no baço.

Também enfrentou o preconceito de gênero dentro e fora da UFW. Durante anos foi a única mulher na diretoria da entidade, e chegou a ouvir de um padre que deveria voltar para casa e cuidar da família.

Mãe de 13 filhos, levava os pequenos a manifestações e reuniões, o que ajudou a redefinir o papel feminino nas linhas de frente das mobilizações operárias.

Com o tempo, ampliou a agenda para a defesa deestrangeiros sem documentos, das mulheres e da população LGBTQIA+.

Considerava sua maior conquista a participação na lei migratória de 1986, que regularizou a situação de milhões de pessoas. Em 2002, criou a Dolores Huerta Foundation, sediada em Bakersfield, na Califórnia, dedicada à formação de lideranças locais.

Do “Yes, we can” à Medalha da Liberdade

Em 2012, Huerta recebeu das mãos de Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, mais alta honraria civil dos EUA.

A revista Time a incluiu no projeto “100 Mulheres do Ano”, que revisitou as figuras femininas de maior peso do último século. E em 2026, voltou a destacá-la na lista TIME100, na categoria “Pioneiros”.

Seu nome batiza dois feriados estaduais, 12 escolas, ruas, parques e até um asteroide.

Dolores Huerta nunca se aposentou. Seguia palestrando em universidades criticando ocerco a imigrantes promovido pelo governo de Donald Trump e percorria o país a cada pleito, incentivando o registro de eleitores e apoiando candidatos.

Em 2025, foi às ruas no Texas e engajou-se, na Califórnia, na disputa sobre o redesenho dos distritos congressionais.

“Meu silêncio termina aqui”

Os últimos meses de vida da sindicalista foram marcados por uma revelação que abalou a causa que ela ajudou a erguer.

Em março de 2026, o The New York Times publicou uma investigação de vários anos, apoiada em dezenas de entrevistas e documentos, segundo a qual César Chávez aliciou e abusou sexualmente de meninas e mulheres ligadas à UFW, algumas menores de idade.

A ativista foi uma de suas vítimas. Ao jornal e em um comunicado público intitulado “Mi silencio termina aquí”, relatou dois episódios nos anos 1960.

Em um deles, disse ter sido manipulada e pressionada a manter relações com Chávez. No outro, ocorrido em 1966, afirmou ter sido estuprada por ele em um parreiral afastado.

Segundo a agência Reuters, as duas situações resultaram em gestações, e ela providenciou para que os bebês fossem criados por terceiros.

Ela explicou que guardou o segredo por tanto tempo por medo de comprometer o trabalho de uma vida e desmontar as conquistas obtidas no campo. Decidiu falar, segundo contou, ao saber pela reportagem que não era a única.

A repercussão foi imediata. Celebrações do Dia de César Chávez foram canceladas em diversas cidades, organizações passaram a defender a troca do nome dele pelo de Dolores em prédios e instituições públicas, e um mural no bairro de Watts, em Los Angeles, teve o rosto de Chávez apagado para dar lugar a um retrato dela.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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