Mortes de pais após nascimento dos filhos revelam problema pouco monitorado
Estudo acompanhou mais de 130 mil nascimentos e descobriu que 60% dos óbitos paternos em cinco anos ocorreram por causas potencialmente evitáveis

Cerca de 60% das mortes de pais nos primeiros cinco anos após o nascimento dos filhos ocorreram por causas potencialmente evitáveis, segundo um novo estudo realizado nos Estados Unidos. Homicídios, acidentes, suicídios e overdoses estão entre as principais causas identificadas.
Pesquisadores da Universidade Northwestern analisaram 130.267 bebês nascidos no estado da Geórgia em 2017. Os pais foram acompanhados durante cinco anos, até 2022.
Nesse período, de acordo com o o estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics, 796 pais morreram.
Mortes evitáveis chamam atenção
A mortalidade materna recebe acompanhamento específico nos Estados Unidos, sobretudo durante o período após o parto. Segundo os pesquisadores, porém, existe pouca atenção semelhante para as mortes dos pais nos primeiros anos de vida dos filhos.
Craig Garfield, professor da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, considera essa ausência uma lacuna importante. O pesquisador destaca que os dados mostram mortes frequentes durante os primeiros anos dapaternidade. Apesar disso, faltam sistemas específicos para investigar como parte desses óbitos poderia ser evitada.
Homens entre 20 e 40 anos são particularmente afetados por causas evitáveis, como suicídios, overdoses, homicídios e acidentes. Poucos estudos, entretanto, investigaram essas mortes especificamente no contexto da paternidade.
Paternidade foi associada a menor mortalidade
Apesar da proporção elevada de mortes evitáveis, outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Os homens que eram pais apresentaram taxas gerais de mortalidade menores do que aqueles sem filhos na Geórgia.
Entre homens de 30 a 34 anos, por exemplo, ocorreram 120 mortes por 100 mil pais. Entre homens da mesma idade que não eram pais, foram registradas 231 mortes por 100 mil.
A diferença apareceu de forma consistente entre homens com mais de 20 anos analisados no estudo.
Os resultados, porém, mostram uma associação e não permitem concluir que a paternidade seja responsável pela redução da mortalidade. Os pesquisadores ainda não sabem o que explica essa diferença.
"Não sabemos se isso se deve a mudanças no estilo de vida, a um novo propósito ou a novos papéis e responsabilidades, mas certamente merece um estudo mais aprofundado", afirmou Garfield.
Alguns grupos apresentaram maior risco
As mortes por causas não naturais foram mais frequentes entre pais mais jovens. Entre os homens que morreram, também havia maior proporção de pais mais velhos, negros não hispânicos, solteiros e moradores de áreas rurais.
No estudo, partos financiados pelo Medicaid, programa público de assistência médica dos Estados Unidos, também apareceram associados a maior mortalidade paterna. O estado civil de solteiro e partos pagos pelo Medicaid foram associados especificamente a maior risco de homicídio.
Por outro lado, maior escolaridade, etnia hispânica e partos cobertos pelo Tricare, sistema de saúde destinado principalmente a militares e familiares, foram associados a menor mortalidade.
Os resultados apontam para possíveis fatores sociais e econômicos relacionados às diferenças observadas.
Falta de dados dificulta monitoramento
Para realizar o estudo, os pesquisadores cruzaram registros de nascimento e óbito da Geórgia. Os nomes presentes nas certidões permitiram acompanhar os pais e identificar as causas das mortes.
Segundo a Universidade Northwestern, realizar um levantamento semelhante em todo o território americano ainda é difícil. Isso ocorre porque os registros nacionais não permitem relacionar individualmente os pais às respectivas causas de morte.
A equipe conseguiu realizar a pesquisa na Geórgia porque já tinha acesso aos dados por meio do projeto PRAMS for Dads, criado para estudar a saúde e as experiências dos pais.
Os pesquisadores defendem que outros estados façam levantamentos semelhantes. A expectativa é que a ampliação desses dados ajude a compreender a mortalidade paterna e identificar medidas capazes de prevenir parte das mortes.
