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Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioFII
30/07/2026
7 min

'Morumbi? Eu passo', diz executivo por trás de icônico prédio dos livros de geografia

Edíficio na zona sul de São Paulo foi construído pela Lindenberg e ficou conhecido pelas piscinas privativas nas varandas, solução arquitetônica incomum para a época

'Morumbi? Eu passo', diz executivo por trás de icônico prédio dos livros de geografia

Quando Adolpho Lindenberg Filho era mais jovem, o edifício Penthouse, no Morumbi, representava o que havia de mais sofisticado na arquitetura paulistana. O empreendimento nasceu em 1979 como uma aposta ousada da Adolpho Lindenberg, incorporadora que, em sua fase mais acelerada, chegou a lançar um prédio por semana, mantendo 3.000 funcionários.

Hoje, a relação da companhia com o bairro – e com o mercado no geral – é outra. O próprio Adolpho, atual presidente da companhia e filho do fundador, diz que não pretende voltar a apostar no Morumbi como destino do alto padrão.

“Não, hoje não mais. Se me convidarem pra construir no Morumbi, eu passo, obrigado”, brinca.

O edifício localizado na Avenida Giovanni Gronchi, número 3891, foi construído pela Lindenberg e ficou conhecido pelas piscinas privativas nas varandas, uma solução arquitetônica incomum para a época.

O prédio também ganhou notoriedade por uma fotografia aérea publicada pela Folha de S.Paulo em 2004, que mostrava a proximidade entre as piscinas dos apartamentos de luxo e a favela de Paraisópolis. A figura ficou eternizada em centenas de livros de geografia para escancarar desigualdade social brasileira.

No milênio passado e até o começo dos anos 2000, o Morumbi era associado ao luxo paulistano. O bairro ganhou força entre famílias de alta renda que buscavam casas amplas e, posteriormente, apartamentos de alto padrão. O local também ficou conhecido nacionalmente após aparecer em produções da televisão, como a novela A Próxima Vítima, de 1995, da TV Globo, na qual a personagem Helena, interpretada por Natália do Vale, morava na região e ficou conhecida como “a bonitona do Morumbi”.

Três anos antes do lançamento do Penthouse, a Lindenberg estreava na bolsa, sendo a primeira incorporada listada. "A decisão foi incentivada pelo setor financeiro na época. Normalmente os bancos que têm essas ideias, né? A ideia foi de expansão", conta. Os anos seguintes foram marcados por um volume frenético de lançamentos, justamente quando o edifício icônico saiu do papel.

Apesar da mudança na percepção sobre o bairro bairro, Adolpho ressalta que o projeto continua sendo visto como um marco técnico e arquitetônico. O edifício representou um desafio de engenharia para a época, com a construção exigindo uma solução estrutural complexa para sustentar as piscinas em balanço nas varandas.

“Além do projeto arquitetônico ser bem diferente, o de engenharia, o estrutural foi muito complicado. Você tinha que fazer uma viga elíptica praticamente para segurar todas essas piscinas”, explica.

Na época do lançamento, o entorno ainda era muito diferente. “Não tinha nada em volta, os moradores tinham uma vista privilegiada. Mas depois a favela foi chegando, chegando. Até que encostou”, afirma.

Edifício virou representação da desigualdade social no Brasil (Imagem: Daniel Frias) (Daniel Frias/Reprodução)

A fase da seletividade

A história do Penthouse também mostra a mudança do próprio mercado imobiliário de alto padrão em São Paulo. Nos anos 1970, a Lindenberg vivia uma fase de expansão acelerada, chegando a lançar um empreendimento por semana. Hoje, o ritmo é muito mais contido, com cerca de três a quatro lançamentos por ano.

Segundo Adolpho, o cenário atual exige uma precisão maior das incorporadoras. No passado, o mercado era concentrado em poucas empresas e havia mais espaço para apostar em novos terrenos. Hoje, a competição aumentou, os projetos ficaram maiores e o custo de errar é muito mais alto.

“Antes era muito mais fácil. Você comprava, fazia e pronto. Hoje, a combinação de juros altos, investimentos vultosos e concorrência acirrada tornou o erro financeiramente 'proibitivo' nos dias de hoje”, reflete.

O impacto financeiro da desvalorização do edifício Penthouse -- que hoje tem apartamentos à venda por R$ 1 milhão -- é nulo no balanço da empresa hoje.  Segundo o executivo, o impacto ficou principalmente com os compradores e investidores. A Lindenberg, afirma ele, atuou como incorporadora, construiu os empreendimentos e seguiu para novos projetos.

A mudança também está ligada à transformação dos bairros. No caso do Morumbi e do Panamby, Adolpho avalia que a falta de valorização dos imóveis está diretamente ligada à mobilidade urbana.

“Ainda tem imóveis de luxo no Morumbi, nós fizemos vários além do Penthouse. Mas não houve valorização nenhuma”, afirma.

Para ele, o principal problema é o deslocamento. “É trânsito. Problema é por você ir pro Panamby, hoje é 40 minutos, não tem jeito. Você não consegue escapar disso por qualquer caminho.”

Apesar disso, ele afirma não se arrepender do projeto, já que considera que o empreendimento faz parte da história tanto da empresa quanto da cidade.

"No mercado imobiliário, as decisões são tomadas com base na expectativa de que a região vá sempre melhorar, ganhar mais comércio e se valorizar. Não há como olhar para trás e pensar em não construir, pois aquilo era o que se esperava para o futuro do bairro naquele momento", diz.

O novo luxo está em Moema

Com 70 anos de história — enquanto seu fundador, Adolpho Lindenberg, completaria 100 anos — a companhia adapta sua estratégia ao que chama de uma nova fase do mercado de alto padrão.

Fundada em 1954 pelo engenheiro e arquiteto Adolpho Lindenberg, a empresa foi responsável por mais de 700 empreendimentos e 14 milhões de metros quadrados construídos. A incorporadora ajudou a transformar o modo de morar em São Paulo ao popularizar, a partir dos anos 1960, o conceito de “casas sobrepostas”: apartamentos que convenceram parte da elite paulistana a deixar os casarões e migrar para edifícios.

Agora, a aposta está concentrada em regiões com maior liquidez e proximidade de áreas verdes, como Moema, Vila Nova Conceição, Pinheiros e Itaim. A lógica do novo luxo, segundo Adolpho, mudou: deixou de estar apenas dentro do apartamento e passou a envolver localização, segurança, áreas comuns e qualidade de vida.

Os apartamentos atuais têm plantas mais integradas, menos divisões formais e mais suítes. Condomínios passaram a incorporar estruturas de wellness, como academias, piscinas, áreas de massagem e espaços voltados ao bem-estar.

Outro ponto central é a preocupação do comprador com a valorização futura do imóvel. Segundo Adolpho, mesmo clientes que compram para morar analisam o patrimônio como investimento e querem saber se conseguirão vender o imóvel sem perda financeira.

Para celebrar a trajetória da companhia, a Lindenberg prepara o lançamento do Edifício Adolpho Lindenberg, em Moema, considerado o maior empreendimento da história recente da empresa.

O projeto terá VGV de R$ 1,2 bilhão, o maior já lançado pela companhia, em um terreno de mais de 5 mil metros quadrados. Serão 75 unidades distribuídas em duas torres, com plantas de 332 metros quadrados a coberturas duplex de até 875 metros quadrados.

O empreendimento reúne três nomes associados ao alto padrão: Pablo Slemenson, responsável pela arquitetura; Sig Bergamin, pelos interiores; e Burle Marx, pelo paisagismo.

A escolha de Moema reflete a mudança da demanda pelo luxo paulistano: proximidade com o Parque do Ibirapuera, infraestrutura consolidada e maior facilidade de deslocamento.

A Lindenberg também mantém projetos em bairros como Jardins, Higienópolis, Pinheiros, Itaim, Santana e Tatuapé, além de parcerias com a Eztecem produtos fora do segmento mais exclusivo, como apartamentos menores e studios. Segundo Adolpho Lindenberg Filho, a colaboração faz sentido em projetos com metragens menores, nos quais a Eztec possui maior experiência e estrutura de vendas. “Eu aqui tenho uma equipe de 40 corretores especializados. E esses outros têm 800 corretores. A Eztec está com duas houses hoje em dia”, explica.

A marca que ajudou a criar o imaginário do luxo residencial paulistano agora tenta preservar seu maior ativo: a percepção de exclusividade. Como resume Adolpho, o diferencial não é apenas o prédio entregue, mas o que a marca representa. Ao final da obra, o comprador não terá apenas um apartamento, mas “um Lindenberg”.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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