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TecnologiaACS
04/06/2026
7 min

Movida: a corrida de três dias por trás do principal case da Meta no WhatsApp

Movida: a corrida de três dias por trás do principal case da Meta no WhatsApp

LONDRES* — Em uma quinta-feira do início deste ano, a Movida teve uma reunião com a Meta. No meio da conversa, o time da Meta mencionou que executivos da área técnica global da empresa chegariam ao Brasil na segunda-feira para apresentar uma nova tecnologia de inteligência artificial voltada a negócios. A Movida mostrou interesse em participar. Mas decidiu chegar à reunião de segunda com algo a mais.

"A gente juntou todo o time e, de quinta para segunda-feira, trabalhou o final de semana todo, montou um projeto e apresentou para eles", disse Gustavo Moscatelli, CEO da Movida, à EXAME durante o Conversations 2026. "O time técnico deles ficou abismado com a profundidade que a gente já tinha e o tempo que a gente precisava para desenvolver o primeiro projeto de IA para business do mundo."

Vieram dois meses e meio de desenvolvimento conjunto, com reuniões diárias, seis pessoas dedicadas do lado da Movida e quase 50 do lado da Meta. E quando Fred Leach, VP de Produto da Meta, quis demonstrar no palco do evento o que o recém-lançado Meta Business Agent faz na prática, o exemplo escolhido foi uma reserva de carro feita inteiramente dentro do WhatsApp, sem o cliente sair da conversa.

Por que o WhatsApp

O mercado de locação de carros é, na prática, um mercado de commodity. O carro que a Movida aluga é o mesmo que os concorrentes alugam. O que diferencia uma empresa da outra é o serviço — e, sobretudo, o canal onde esse serviço acontece.

"A gente não criou qual é a jornada perfeita para a companhia e depois ofereceu para o cliente", disse Moscatelli. "A gente procurou entender qual é a jornada que o cliente quer." A resposta foi o WhatsApp, onde o consumidor já estava.

A solução construída com a Meta permite que o cliente consulte disponibilidade, escolha o veículo, contrate seguro e conclua o pagamento sem precisar abrir o site ou o aplicativo. A reserva inteira acontece em poucos segundos dentro da conversa.

Em menos de um mês de operação com o agente da Meta, a conversão de vendas no WhatsApp dobrou em relação ao período anterior. O custo por locação caiu de uma faixa de 8% a 10% do valor da reserva para algo próximo de 2%. No mesmo período, a empresa registrou cerca de 30 mil locações pelo aplicativo.

"Dobrar a conversão de vendas em menos de um mês pode ser muito preliminar", disse o CEO. "Mas, de fato, falando de produtividade e rentabilidade, dobrar a conversão significa naturalmente aumentar a base de clientes, aumentar a fidelização e ter maior receita."

Em conversa nos bastidores do Conversations, Naomi Gleit, executiva da Meta que comanda a divisão de produto, perguntou a Moscatelli como tinha começado a parceria entre a Movida e a empresa. O CEO contou a história do fim de semana. A resposta foi curta: "That's it. É essa agilidade que a gente gosta na Meta."

Questionado por jornalistas latino-americanos sobre o papel do Brasil como "laboratório" da empresa, Fred Leach rejeitou o termo. "Eu não diria que é um laboratório. É um lugar onde co-construímos e aprendemos com as empresas sobre o que precisamos construir. É a fundação que levamos para o resto do mundo", disse o VP de Produto.

Segundo Leach, o diferencial brasileiro está no comportamento do consumidor. O uso do WhatsApp para transações comerciais não tem paralelo na maioria dos outros mercados. "Eu não sei se alguém nos Estados Unidos estaria confortável em reservar um carro por um app de mensagens. No Brasil, as pessoas já fazem esse tipo de transação naturalmente."

Outra brasileira no palco 

A Movida não foi a única empresa do Brasil que teve destaque no evento. Nesta quinta-feira, o Sem Parar apresenta a solução própria desenvolvida com a Meta,  também construída a partir de um problema brasileiro.

A empresa, pioneira no pagamento automático de pedágios, criou um serviço via WhatsApp voltado ao free flow, modelo eletrônico em expansão no país em que os veículos passam por pedágios sem precisar parar. Para quem tem tag, o pagamento acontece sozinho. Para motoristas sem tag, o sistema gera uma cobrança que precisa ser quitada em até 30 dias para evitar multa de mais de 200 reais e perda de pontos na carteira.

O problema é que cada trecho de rodovia pertence a uma concessionária diferente, com site próprio. O mercado virou alvo de sites falsos, que cobram os motoristas sem repassar o pagamento à concessionária.

"É muito difícil dos motoristas entenderem e lembrarem qual é o site oficial de cada concessionária", disse Gabriel Porto, CMPO do Sem Parar, à EXAME. "Se você faz uma viagem de longa distância, provavelmente passa por mais de uma. Imagina chegar no destino e ter que entrar em três, quatro sites para pagar." Para Porto, o free flow é "o melhor modelo de pedágio que o Brasil pode ter", mas exige educar o mercado outra vez, como o Sem Parar fez nos anos 1990, quando popularizou o pagamento automático com tag.

E como funciona?

O motorista envia a placa do carro por mensagem de voz ou texto a um número de WhatsApp. O agente identifica todos os débitos em aberto, mostra detalhes de cada transação e permite o pagamento dentro da própria conversa. Para clientes do Sem Parar que já têm tag, a mensagem é de confirmação: o pagamento foi feito automaticamente — uma resposta que, segundo Porto, já se mostrou necessária, porque muitos clientes não têm clareza sobre como o sistema funciona e fazem a consulta mesmo já estando cobertos.

Em pouco mais de uma semana de operação, a taxa de conversão entre usuários que consultam e têm débito em aberto é de mais de 75%. Entre 1% e 2% dos que pagam acabam adquirindo uma tag do Sem Parar na mesma jornada — o que, para a empresa, configura um canal de captação de lead com perfil altamente segmentado: motoristas sem tag que efetivamente passam por pedágios.

O potencial é proporcional ao tamanho do mercado endereçável. A categoria de tag de pedágio tem hoje cerca de 15 a 16 milhões de clientes no Brasil, dos quais 8 milhões são do Sem Parar. O universo de veículos de passeio sem tag chega a aproximadamente 45 milhões, a maior parte do parque rodoviário brasileiro.

Porto descreve uma estratégia em três fases para o canal. A primeira é a que está em curso: usar o WhatsApp para capturar volume e resolver o problema imediato do free flow. A segunda é o cross-sell — oferecer seguros, pagamento de débitos veiculares, abastecimento e a própria tag para a base capturada. A terceira é mais ambiciosa: transformar o WhatsApp em canal primário de relacionamento de marca, capaz de avisar o cliente sobre licenciamento atrasado, multas, e gerar pagamentos via Pix dentro da própria conversa.

"Se eu crio uma relação de marca dos usuários via WhatsApp, consigo capturar uma outra demanda da minha base e conversar com eles sobre outros produtos", disse o executivo. O Sem Parar oferece hoje, no aplicativo próprio, consulta integrada a 100% dos Detrans do país, parcelamento de débitos em até 12 vezes e alerta automático de multas. A aposta é levar essa camada de serviços para o WhatsApp.

A escolha de começar pelo free flow, em vez de fazer cross-sell na base já existente, foi tomada em conjunto com a Meta. "Em termos de receita de curto prazo, o cross-sell ia voar", disse Porto. "Mas a gente tem uma oportunidade, inclusive, de utilizar a capacidade de comunicação da Meta para fazer barulho no Brasil."

*A jornalista viajou a convite da Meta.

AutorMariana Martucci
FonteExame
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