Muito além da Selic — por que uma única palavra do Copom pode movimentar milhões no mercado

Basta um parágrafo diferente no comunicado de qualquer decisão sobre juros para causar mal-estar ou euforia entre os agentes financeiros. E foi isso o que aconteceu na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Descrições como "confuso", "ruidoso" e "falho" apareceram em quase todas as análisespublicadas nos dias seguintes ao encontro de junho.
Ao invés de dar clareza, a leitura de economistas, gestores e analistas foi a de que os diretores do Copom haviam descrito um cenário futuro para juros e inflação ainda mais incertos.
O parágrafo em questão, de fato, estava difícil. O próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, admitiu posteriormente que a mensagem não havia comunicado de forma adequada aquilo que o comitê pretendia transmitir.
Mas por que uma frase mal redigida provocou tanta reação?
Se o objetivo principal do comunicado é informar a nova taxa Selic, o corte de 0,25 ponto percentual estava lá, de forma clara. O que ficou pelo caminho?
A resposta ajuda a entender um aspecto pouco conhecido fora da bolha do mercado financeiro: os bancos centrais não usam apenas os juros para conduzir a política monetária. Eles também usam as palavras.
"A efetividade da política monetária não depende apenas do nível atual da taxa Selic, mas também das expectativas para a trajetória futura dos juros e, principalmente, da inflação", afirma Cecília Mazzoni, analista de macroeconomia da Warren Investimentos.
Os juros de amanhã
À primeira vista, o comunicado parece cumprir uma função simples: explicar por que o comitê decidiu subir, reduzir ou manter os juros.
O documento da decisão traz a avaliação do Banco Central sobre atividade econômica, inflação, câmbio, cenário internacional e outros fatores que influenciam a deliberação dos juros. Na semana seguinte, aata do Copom aprofunda essa discussão e detalha os argumentosapresentados pelos diretores.
Mas o comunicado não serve apenas para explicar a decisão tomada. Ele também tenta moldar as expectativas sobre as decisões futuras.
O Banco Central define a taxa Selic a cada 45 dias. O que os diretores não controlam são as expectativas dos agentes financeiros em relação aos juros nos meses e anos seguintes.
Mas essas expectativas importam tanto quanto a taxa Selic anunciada.
Quem compra um imóvel financiado não toma sua decisão olhando para os próximos 45 dias. Uma empresa que pretende financiar um novo projeto tampouco. Isso também vale para investidores que compram títulos públicos, crédito privado ou outros ativos de prazo mais longo.
"O que importa para a economia é a taxa de longo prazo, não a Selic. A Selic só dura 45 dias", afirma Reinaldo Le Grazie, ex-diretor do Banco Central e sócio da Panamby Capital.
É por isso que o mercado olha outros detalhes do texto além da decisão do momento. Os agentes tentam descobrir no comunicado e na ata do Copom o que o Banco Central está enxergando para o futuro.
Se o BC simplesmente anunciasse a Selic a cada 45 dias sem explicar como enxerga a economia, investidores e empresas precisariam formar suas expectativas sozinhos. O resultado poderia ser uma volatilidade maior nos juros futuros, no câmbio e nos preços dos ativos.
"A comunicação do Copom tem como objetivo suavizar os movimentos de precificação do mercado", diz Le Grazie.
Uma palavra pode mudar milhões de reais de lugar
Imagine um investidor que comprou um Tesouro Prefixado de cinco anos.
Se o mercado passar a acreditar que a Selic vai cair mais rápido daqui para frente, a taxa desse título vai cair e o preço vai subir imediatamente.
E o oposto também é verdadeiro: se a expectativa for de juros elevados por mais tempo, ou a taxa fica estacionada ou ela sobe, fazendo o preço do papel diminuir.
É essa tendência de juro futuro que omercado tenta capturar nas entrelinhas dos comunicados do Copom. Como os textos costumam manter estruturas muito semelhantes de uma reunião para outra, alterações aparentemente pequenas ganham significado.
Uma frase retirada. Um risco enfatizado. Uma preocupação que desaparece do comunicado. Tudo pode ser interpretado como sinal sobre os próximos passos do comitê.
"Uma parte relevante da política monetária é retórica", diz André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica. "Quando eles trocam qualquer palavra no comunicado, sabem que o mercado vai notar e buscar uma explicação."
Como o mercado tenta decifrar a mensagem
É justamente nessa leitura das entrelinhas que surgem alguns dos jargões mais comuns entre agentes financeiros, como os termos hawkish e dovish.
Se o comunicado denota uma maior preocupação com pressões inflacionárias, a leitura é de que a postura dos diretores está mais hawkish — um termo usado para descrever uma tendência mais dura em relação aos juros.
Na prática, é uma leitura de que o Copom está inclinado a manter os juros mais altos.
Mas se o texto sugere que a inflação está sob controle, a atividade econômica está fraca e alguma inclinação a convergência à meta, a interpretação é de postura dovish, mais favorável aos cortes nos juros.
Porém, não se engane: nada disso é descrito de forma direta. Pode ser uma frase, uma palavra ou um termo. Muitas das vezes, a chave está no balanço de riscos.
O balanço de riscos é um mapeamento que o Copom faz sobre os fatores econômicos capazes de fazer a inflação ficar acima ou abaixo da meta. Se há muitos fatores favoráveis a um lado ou outro, os diretores indicam que o balanço está "assimétrico".
Pode ser assimétrico a favor ou contra a inflação, e essa inclinação serve de guia para as decisões sobre a taxa Selic — e para a interpretação do mercado sobre o futuro da política monetária.
Boa parte do trabalho dos economistas após cada reunião do Copom é justamente tentar entender se o Banco Central ficou mais duro, mais flexível ou manteve sua visão inalterada.
O perigo de uma comunicação ruim do Copom
O problema surge quando mensagens diferentes podem ser extraídas do mesmo comunicado — como aconteceu na última reunião. Economistas, gestores e analistas chegaram a interpretações distintas sobre o que o Copom quis dizer em relação a decisão atual e as futuras.
Quando isso acontece, o resultado é mais incerteza e há consequências para os mercados.
"Uma comunicação mal interpretada pode aumentar a volatilidade das curvas de juros, do câmbio e dos ativos financeiros, dificultando a transmissão da política monetária para a economia", diz Mazzoni, da Warren.
Em outras palavras: se o mercado não entende o que o Banco Central quis dizer, parte do efeito pretendido com a decisão e a comunicação pode simplesmente não acontecer.
A tendência é uma cobrança maior no prêmio de risco. As taxas dos títulos de renda fixa tendem a subir, o preço das ações mais sensíveis a juros tende a cair, a taxa de câmbio tende a favorecer o dólar e por aí vai.
Falar sobre o futuro sem prometer o futuro
O maior desafio para os diretores do Copom, segundo as fontes, é orientar as expectativas futuras sem assumir compromissos rígidosou adiantar o que fará no futuro.
A inflação pode surpreender. O cenário externo pode mudar. Uma guerra pode alterar os preços de commodities. O crescimento econômico pode desacelerar (qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência).
Tudo isso pode acontecer em um intervalo de 45 dias e modificar a decisão da reunião seguinte.
Por essa razão, muitos banqueiros centrais evitam indicar com precisão o próximo passo da política monetária.
Le Grazie afirma que a comunicação precisa oferecer uma direção, mas preservar a liberdade de ação do comitê: "acho importante dar um pouco mais de horizonte para a análise, mas o ideal é deixar o comitê livre para fazer o que precisa ser feito", afirma o ex-diretor do BC.
A ironia é que o comunicado mais importante do Copom quase nunca é o que anuncia a decisão sobre a Selic. O mercado normalmente já espera e antecipa esse movimento.
O que realmente movimenta milhões é a tentativa de responder outra pergunta: o que acontece depois? É essa resposta que os agentes financeiros procuram em cada frase, cada palavra e cada mudança de tom dos diretores do Banco Central.
