Mulheres estão chegando aos conselhos, mas ainda longe das cadeiras de maior poder — qual o motivo?
B3, Spencer Stuart e MSCI mostram que presença cresce, mas cadeiras de comando seguem quase todas masculinas

Dados são do estudo Lideranças Plurais 2026, feito pela B3 em parceria com o Instituto Locomotiva, com base em 290 companhias mostram que 70% das companhias listadas na B3 têm ao menos uma mulher no conselho de administração, contra 55% em 2021. Nas diretorias estatutárias, o avanço também é recorde, com 51% das empresas tendo pelo menos uma executiva no colegiado.
Os números parecem mostrar uma vitória, mas o problema aparece quando a pergunta muda de "existe uma mulher ali?" para "quantas cadeiras elas ocupam?". O Brasil Board Index 2025, da consultoria Spencer Stuart, encontrou mulheres em apenas 18,7% das posições de conselho no país, praticamente estagnado frente aos 18,4% do ano anterior.
Considerando só membros titulares, a participação cai para 16,6%, mesmo com 86% dos conselhos analisados já tendo pelo menos uma integrante.
São duas métricas diferentes contando duas histórias diferentes: uma mede quantas empresas têm alguma mulher no topo, a outra mede quantas cadeiras, de fato, são ocupadas por mulheres. E é aí que o avanço perde força.
Quanto mais perto do poder, menor a presença feminina
O funil fica mais claro em outro levantamento. O Panorama Mulheres 2025, do Instituto Talenses Group em parceria com o Insper, acompanhou 310 empresas e encontrou mulheres em 30% das diretorias, recorde da série. Mas o número cai a cada degrau: 20% nas vice-presidências, 17% nas presidências e 17% nos conselhos de administração.
Ou seja, quanto mais próximo do comando, menor a participação feminina. É o inverso do que o discurso corporativo costuma sugerir, de que a diversidade aumenta conforme sobe na hierarquia.
O movimento se repete fora do Brasil. O relatório Women on Boards and Beyond 2025, da MSCI, mostrou que mulheres ocupam 28,3% das cadeiras de conselho em empresas globais de grande e médio porte, um índice superior ao brasileiro.
Mesmo assim, o próprio estudo aponta que a evolução é bem mais lenta em posições como presidência do conselho, CEO e CFO. Depois da entrada, vem a disputa pela influência, e essa parte do avanço é global.
A única mulher da sala ainda é regra, não exceção
Entre as companhias analisadas pela B3, 33% têm exatamente uma mulher na diretoria estatutária. Apenas 11% têm duas, e 7% têm três ou mais. Nos conselhos, uma única conselheira também segue sendo a configuração mais comum.
Isso significa que, em centenas de empresas brasileiras, a diversidade existe no papel, mas não chegou perto de alterar a dinâmica de quem decide. Ser a primeira mulher em um colegiado é uma conquista real. O problema é quando ela continua sendo a única, ano após ano.
A própria regulação já reconhece parte disso. Desde 2025, companhias listadas passaram a reportar critérios do Anexo ASG da B3 no modelo "pratique ou explique", entre eles ter ao menos uma mulher e uma pessoa de outro grupo sub-representado no conselho ou na diretoria.
É um mecanismo importante para criar pressão institucional, mas ele se cumpre com uma única cadeira, o que ainda deixa a maioria dos assentos concentrada entre homens.
Quem está sendo formada para as cadeiras que ainda faltam
Nenhuma dessas mulheres chega a uma cadeira de conselho pronta aos 50 anos. Existe uma trajetória de exposição estratégica, relacionamento com investidores, participação em comitês e repertório técnico de governança que antecede a nomeação, e que hoje concentra menos mulheres do que deveria em cada etapa.
É esse o gargalo que o ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women, da Escola de Negócios Saint Paul, busca endereçar. O programa, de 300 horas e aulas mensais presenciais com transmissão ao vivo, é voltado a executivas C-level, diretoras e herdeiras que já têm a experiência de gestão, mas ainda não tiveram formação específica para atuar em conselhos, como estrutura de governança, gestão de riscos, análise estratégica de performance e simulações de reuniões de board com casos reais.
Se o funil que leva à cadeira de conselho começa anos antes da nomeação, preparar mais mulheres para chegar lá com repertório técnico é o que pode transformar presença em poder de decisão de fato.
Os números da B3 mostram que o Brasil aprendeu a abrir a porta. O próximo capítulo, medido em cadeiras de comando e não apenas em fotos de conselho, ainda está sendo escrito.
