Multinacional de R$ 350 milhões constrói centro logístico no Brasil — e não vai parar por aí

A mexicana Cubbo está inaugurando seu quinto centro de distribuição no Brasil, em Extrema, no sul de Minas Gerais. A nova unidade recebeu investimento de R$ 450 mil — baixo para este tipo de operação, porque, segundo a empresa, parte de uma antiga estrutura foi utilizada. O espaço tem 2,2 mil metros quadrados e será usado para atender marcas de diferentes regiões do país.
O centro logístico é o segundo aberto pela empresa em 2026. O primeiro começou a operar em Manaus, no Amazonas. Com as duas inaugurações, a Cubbo passou a ter cinco operações brasileiras, localizadas também em Embu das Artes, na Grande São Paulo, Itapeva, em Minas Gerais, e Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre.
No total, a companhia possui oito centros de distribuição entre Brasil e México, atende cerca de 300 marcas, processa mais de 1 milhão de pedidos por mês e projeta alcançar um faturamento global anual de US$ 68 milhões (R$ 350 milhões na cotação atual). A operação brasileira cresceu 310% entre 2024 e 2025, segundo a empresa, que afirma operar com lucro desde 2023.
A expansão acontece em um mercado que ganhou escala com o avanço das compras pela internet. O comércio eletrônico brasileiro movimentou R$ 235,5 bilhões em 2025, crescimento de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce. Foram cerca de 439 milhões de pedidos ao longo do período.
Esse crescimento aumentou a demanda por galpões bem localizados, sistemas capazes de acompanhar pedidos em tempo real e operadores que assumam etapas antes executadas internamente pelos varejistas.
No caso da Cubbo, a aposta é que a combinação entre estrutura física e tecnologia permita à empresa avançar sobre uma parcela maior dessa cadeia.
Do México ao Brasil
Fundada em 2021, a Cubbo tem sua matriz no México e nasceu como uma empresa de fulfillment — serviço no qual um operador recebe o estoque das marcas e assume processos como armazenagem, separação, embalagem e expedição dos pedidos.
A entrada no Brasil ocorreu por meio da aquisição de uma pequena empresa local que já mantinha uma estrutura logística no país. A primeira unidade brasileira da Cubbo foi instalada em Embu das Artes.
Desde então, a companhia ampliou sua presença por diferentes regiões. Além dos cinco centros brasileiros, mantém três operações no México e uma equipe na Espanha dedicada ao desenvolvimento do Engage, ferramenta voltada ao relacionamento das marcas com seus consumidores depois da compra. O próprio site da companhia apresenta atualmente suas soluções como uma combinação de fulfillment, software logístico e infraestrutura para marcas no Brasil e no México.
“A Cubbo nasceu com o fulfillment. Essa foi a grande força do negócio e a maneira como nos estruturamos. Agora estamos abrindo outras frentes de serviços, principalmente ligadas a dados e tecnologia”, afirma Melissa Feijó, country manager da Cubbo no Brasil.
Formada em administração com ênfase em comércio exterior, Melissa assumiu o comando da operação brasileira em abril de 2025. Antes disso, acumulou mais de dez anos de experiência na gestão de empresas de varejo e passou por companhias como Daki e Rappi.
Segundo ela, a experiência como contratante de serviços logísticos — e não como fornecedora — ajuda a orientar a atual estratégia da Cubbo.
“Eu sempre estive do outro lado da mesa, como cliente. Entrei na Cubbo com o desafio de trazer essa empatia e esse cuidado sobre como o cliente enxerga a prestação de um serviço”, diz.
Melissa Feijó, country manager da Cubbo no Brasil: executiva comanda a expansão da companhia no mercado brasileiro (Cubbo/Divulgação)
Por que Extrema
O novo centro de distribuição atenderá inicialmente uma marca do setor de moda, além de outras empresas que estão em processo de entrada na unidade.
Extrema foi escolhida por reunir duas características procuradas pela Cubbo: proximidade com o principal mercado consumidor do país e benefícios fiscais oferecidos por Minas Gerais.
Localizada perto da divisa com São Paulo e conectada à capital paulista pela Rodovia Fernão Dias, a cidade se tornou um dos principais polos logísticos do país.
“Estamos em Minas Gerais, mas muito próximos de São Paulo. Conseguimos aproveitar o benefício fiscal oferecido pelo estado e, ao mesmo tempo, chegar rapidamente a um grande centro consumidor”, afirma Melissa.
A executiva diz que o valor investido na unidade ficou abaixo do observado em projetos construídos integralmente do zero porque a empresa conseguiu aproveitar parte da infraestrutura existente no imóvel.
O antigo ocupante vendeu à Cubbo equipamentos como porta-paletes — estruturas metálicas usadas para verticalizar o armazenamento de mercadorias e que costumam representar uma parcela relevante do investimento inicial de uma operação.
“O investimento ficou na casa de R$ 450 mil. Conseguimos fazer uma parceria com o antigo locatário e comprar boa parte do ferramental que já estava instalado, principalmente os porta-paletes”, diz Melissa.
A área da unidade de Extrema é significativamente menor do que a dos principais centros brasileiros da empresa. A operação de Embu das Artes tem cerca de 13.500 metros quadrados, enquanto a unidade da região de Porto Alegre possui aproximadamente 14.000 metros quadrados. O centro de Manaus ocupa cerca de 7.000 metros quadrados.
Embu e Porto Alegre concentram atualmente os maiores volumes de pedidos da companhia no Brasil.
Um centro operado pela própria Cubbo
O modelo adotado pela Cubbo é diferente daquele de companhias imobiliárias que constroem galpões e alugam os espaços para varejistas ou operadores logísticos.
A empresa arrenda os imóveis, instala sua infraestrutura e assume diretamente a operação. Os funcionários, sistemas e equipamentos são da Cubbo. As marcas entram apenas com seus produtos.
“O que pertence ao cliente é o inventário. Os colaboradores e toda a operação são nossos. Gerir a própria mão de obra também traz um diferencial no nível de serviço”, afirma Melissa.
Segundo a executiva, os clientes normalmente nem mantêm equipes dentro dos centros de distribuição.
“O cliente não faz nada dentro do CD. Nós fazemos todo o processo para ele”, diz.
A frota utilizada nas entregas é fornecida por transportadoras parceiras. Mesmo sem possuir todos os veículos, a Cubbo permanece como responsável pela gestão do serviço e funciona como único ponto de contato para a marca contratante.
O modelo permite que uma mesma estrutura atenda diferentes clientes e categorias. Entre as marcas citadas pela companhia estão Natura, TAG Livros, Spoiler, Fran e Baw, com produtos que vão de cosméticos e roupas a livros.
A Cubbo diz que sua plataforma integra estoques e pedidos provenientes de diferentes canais de venda. O cliente consegue acompanhar a movimentação da operação, a situação de cada entrega e informações financeiras em tempo real.
“Quando o cliente entra na plataforma, ele consegue enxergar o negócio acontecendo. Tem previsibilidade financeira, sabe onde está o pedido e se ele já foi entregue”, diz Melissa. “Quanto mais informação você oferece, mais consegue apoiar a marca a crescer.”
Depois do boom dos galpões
A expansão da Cubbo ocorre em meio a um período de forte procura por espaços logísticos no país.
A pandemia acelerou a adoção do comércio eletrônico e levou varejistas a rever a localização de estoques e centros de distribuição. Mesmo após a reabertura das lojas físicas, a demanda por imóveis logísticos modernos permaneceu elevada.
O mercado brasileiro terminou 2025 com aproximadamente 43,7 milhões de metros quadrados de estoque logístico e absorção líquida de 1,63 milhão de metros quadrados durante o ano. Dependendo da consultoria e da metodologia utilizada, a taxa de vacância nacional ficou entre 6,5% e 7,7%, um dos menores patamares já registrados.
A disponibilidade limitada de imóveis adequados também influencia as decisões de expansão da Cubbo.
“Pode parecer trivial para quem não conhece o setor, mas é muito complexo encontrar um galpão do tamanho necessário, com bom custo-benefício e na localização certa”, afirma Melissa. “É preciso estar perto de grandes cidades e facilitar a coleta das transportadoras.”
Essa escassez ajuda a explicar por que a companhia não segue um calendário fixo de inaugurações. A Cubbo considera a demanda de clientes, os custos, a disponibilidade de imóveis e a conexão com rodovias antes de assumir uma nova estrutura.
Além da logística
A companhia busca evitar que seu crescimento fique limitado ao número de centros de distribuição. Parte da estratégia é ampliar a receita gerada por produtos tecnológicos.
Uma das apostas é o Engage, plataforma desenvolvida por uma equipe localizada na Espanha. O sistema atua na etapa posterior à compra e utiliza recursos de inteligência artificial para organizar a comunicação com o consumidor, acompanhar pedidos e criar oportunidades de novas vendas.
Para a Cubbo, a extensão do negócio para o pós-venda responde a um problema provocado pela fragmentação do comércio eletrônico. Uma empresa pode vender pelo próprio site, por marketplaces e pelas redes sociais, mas depender de diferentes fornecedores para administrar pagamentos, estoques, atendimento e entregas.
“A logística é um mercado muito tradicional. Nosso diferencial é reagir rapidamente às necessidades dos clientes e adaptar tecnologia e operação”, afirma Melissa. “Não queremos ser apenas uma ponta do processo, mas uma plataforma capaz de operar esse negócio com inteligência.”
A ambição de crescer como empresa de tecnologia também aparece na velocidade das integrações. Segundo Melissa, projetos que poderiam levar seis meses em fornecedores tradicionais podem ser implementados pela Cubbo em prazos menores. A companhia afirma já ter colocado uma nova operação em funcionamento em aproximadamente três meses.
Próximo destino: Chile
A Cubbo também prepara sua entrada no Chile, que deverá se tornar o terceiro mercado latino-americano atendido pela empresa.
Diferentemente das operações próprias do Brasil e do México, a estreia chilena deverá ocorrer por meio de uma parceria com um operador local. A empresa parceira ficará responsável pela infraestrutura física, enquanto os sistemas e processos serão oferecidos sob a marca da Cubbo, em um modelo de white label.
“A operação no Chile será feita com um terceiro. É um parceiro que entra com a operação, usando o modelo e a marca da Cubbo”, diz Melissa.
A companhia, contudo, ainda não anunciou uma data para o início da operação nem revelou o nome do parceiro.
No Brasil, novas unidades também estão em avaliação, mas a empresa não prevê outro centro de distribuição em 2026.
“A ambição de abrir mais operações existe, mas não temos nada assinado. Tomamos essas decisões com cautela porque queremos manter uma empresa financeiramente saudável”, afirma Melissa. “Neste ano, ficamos com Extrema.”
Com cinco centros logísticos, 420 funcionários no país — mais de 300 deles alocados diretamente nos galpões — e uma estratégia para ganhar espaço também no software, a Cubbo agora tenta mostrar que o crescimento de uma empresa de fulfillment não precisa ser medido apenas em metros quadrados.
