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EconomiaMacro em PautaACS
20/06/2026
5 min

Mundo está em nova era de juros altos, e a conta pode chegar ao Brasil, diz Pessoa

Mundo está em nova era de juros altos, e a conta pode chegar ao Brasil, diz Pessoa

A "super quarta" de decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos deixou uma mensagem menos benigna do que a leitura inicial poderia sugerir. Embora o Copom tenha reduzido a Selic em 0,25 ponto percentual, e o Federal Reserve tenha mantido os juros americanos estáveis, o economista Samuel Pessoa, pesquisador do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vê um sinal claro de cautela e de que o mundo entrou em uma nova fase de juros estruturalmente mais altos.

"Está se consolidando a visão de que o juro real pós-Covid, o juro de equilíbrio mais de médio prazo, vai ser 1,5 ponto percentual acima daqueles valores que vigoravam antes da Covid", afirma Pessoa, pesquisador da FGV e economista do BTG Pactual, em entrevista ao Macro em Pauta, da EXAME.


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Uma das dúvidas na economia global depois da pandemia era sobre os patamares dos juros globais — se retornariam às baixas taxas observadas antes de 2020. A resposta, agora, parece ser negativa.

"A gente está indo para um ciclo de alta dos juros", diz Pessoa. "A impressão que dá é que a gente vai para um período em que os juros no mundo se elevam."

Nos Estados Unidos, Pessoa avalia que a taxa neutra real — isto é, o nível de juros compatível com uma economia em equilíbrio — deve ficar em torno de 1,5%. Com uma meta de inflação de 2%, isso significaria uma taxa básica americana próxima de 3,5% no médio prazo.

RELEMBRE: O ano da desinflação

Pessoa também vê uma mudança importante na economia americana: os Estados Unidos estariam perdendo parte do que ele classifica como “privilégio exorbitante” dos títulos do Tesouro, vistos como o ativo mais seguro do mundo.

Historicamente, o movimento natural do mercado em momentos de crise era correr para esses papéis, o que permitia ao governo americano captar recursos pagando juros relativamente baixos, mesmo com níveis elevados de endividamento.

"Os Estados Unidos estão perdendo uma parte daquele privilégio exorbitante que os títulos do Tesouro americanos têm", diz.

Para ele, isso tende a aparecer em juros mais altos, especialmente nos papéis de prazo mais longo. Ou seja, o mercado começa a exigir retornos maiores para financiar o governo americano. "É possível que apareça como um aumento do prêmio de duração, prêmio por alongamento do prazo de duração dos títulos", afirma.

Deterioração fiscal

Pessoa argumenta que essa mudança estrutural decorre de uma combinação de fatores: inflação de serviços persistentemente elevada, mercado de trabalho ainda apertado nos Estados Unidos e uma deterioração fiscal crescente.

Para o economista, o problema fiscal dos Estados Unidos deixou de ser um tema secundário e começa a se tornar parte central da equação macroeconômica global. “A dívida está aumentando muito, tem a perda desse 'privilégio exorbitante', que vai aumentar um pouco o custo de rolagem para o Tesouro da sua dívida", diz.

"Significa que em alguns anos eu acho que os Estados Unidos vão ter que fazer um ajuste fiscal mais intenso", afirma.

Embora ele ressalte que, diferentemente de outros países desenvolvidos, os EUA ainda têm margem tributária relativamente ampla."“Não é tão difícil, porque a carga tributária lá é ridiculamente baixa comparativamente à Europa ou Brasil", diz.

O efeito global, no entanto, tende a ser disseminado. Como os títulos americanos funcionam como referência para o custo do dinheiro no mundo inteiro, qualquer aumento estrutural dos juros nos Estados Unidos acaba contaminando o restante dos mercados.

E, nesse ambiente, países emergentes tendem a sofrer mais.

"Essa é a má notícia. É uma péssima notícia, principalmente para países como o nosso, que são países importadores de poupança", afirma.

O novo patamar tem implicações diretas para o Brasil. Países como o Brasil, afirma o economista, dependem de poupança externa para financiar investimento. Quando o custo global do capital sobe, essa dependência fica mais cara.

“É uma péssima notícia, principalmente para países como o nosso, que são países importadores de poupança”, afirmou. “Vamos ter que pagar mais pela poupança do mundo.”

E os juros no Brasil?

No Brasil, o cenário também ficou mais duro. Pessoa afirma que o corte de 0,25 ponto percentual da Selic provavelmente encerra o ciclo de queda no curto prazo. “[O Banco Central cortou] 0,25 ponto percentual e provavelmente vai parar por aí”, diz. “É muito diferente dos 3% de queda que tínhamos projetado no começo do ano [para a Selic terminal].”

A revisão veio junto com uma piora nas projeções de inflação. Segundo Pessoa, a estimativa do BTG para a inflação no final de 2026 passou de 4,1% no início do ano para 5,3%. Parte da alta vem de choques externos, como petróleo e o El Niño, mas parte relevante tem origem doméstica.

"O governo está gastando mais ou fazendo mais políticas de crédito que aumentam a demanda", afirma. "Quando há um choque de demanda sobre uma economia que já está em plena carga, esse choque gera uma resposta relativamente menor de crescimento econômico e um impacto maior na inflação."

Para Pessoa, o Banco Central deve agora ficar em compasso de espera até a eleição e até que fique claro qual será o regime de política econômica do próximo governo. “O Banco Central parou. Acho que ele vai parar a queda e ficar em compasso de espera para os resultados eleitorais”, diz.

Macro em Pauta

O Macro em Pauta é o programa de entrevistas de política e economia da EXAME. Assista aos episódios mais recentes:

AutorLuciano Pádua
FonteExame
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