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Sacre Investimentos
Mundo
26/08/2026
4 min

Muro de Trump ameaça pinturas rupestres de até 5 mil anos na fronteira dos EUA

Terra necessária para o projeto abriga dezenas de pinturas rupestres tão antigas quanto as pirâmides do Egito

Muro de Trump ameaça pinturas rupestres de até 5 mil anos na fronteira dos EUA

No oeste do Texas, pinturas rupestres com milhares de anos estão no caminho da expansão da barreira na fronteira entre os Estados Unidos e o México promovida pelo governo de Donald Trump.

Segundo o jornal britânico The Guardian, arqueólogos disseram que as obras consideradas entre as mais antigas expressões artísticas da América do Norte podem ser danificadas ou destruídas.

A arqueóloga Carolyn Boyd, da Texas State University, estuda os murais da região há 35 anos. Segundo ela, algumas pinturas podem ter até 4 mil anos e exigiram técnicas sofisticadas, grandes quantidades de pigmentos minerais e trabalho coletivo para serem produzidas.

Os antigos caçadores-coletores que viviam no vale do oeste texano precisavam pulverizar minerais como gipsita, hematita, limonita e manganês para produzir as tintas, apuram os especialistas ouvidos pela plataforma. Também utilizavam fibras de plantas, como o sotol, para construir estruturas que permitissem aos artistas alcançar paredes de até 9 metros de altura.

Boyd afirma que a precisão das pinturas revela um nível de planejamento e habilidade que, durante décadas, foi subestimado pela arqueologia. Para ela, os murais não são simples desenhos em cavernas, mas registros de sociedades antigas que ainda podem guardar histórias e significados desconhecidos.

Ameaças do mundo moderno

Escavadeiras da Caterpillar

A construção da proposta de Trump pode danificar de maneira irreparável dezenas de sítios arqueológicos - apenas a vibração do maquinário pesado já pode causar danos (Luke Sharrett/Bloomberg)

A ameaça aumentou após o Congresso dos Estados Unidos destinar US$ 46,5 bilhões à expansão da barreira fronteiriça no pacote de gastos defendido por Trump. No oeste doTexas fica uma das maiores áreas ainda sem muro na fronteira americana, incluindo regiões próximas ao Big Bend National Park e ao Seminole Canyon State Park.

Desde fevereiro, a Customs and Border Protection (CBP) sinaliza que pretende usar os recursos para ampliar a chamada “barreira inteligente”, combinando estruturas de aço, obstáculos para veículos e sistemas de vigilância tecnológica. O projeto prevê cerca de 266 quilômetros de barreiras e estradas de patrulhamento.

A construção atravessaria o Seminole Canyon State Park, onde há pelo menos 27 conjuntos de pinturas rupestres, incluindo o Fate Bell Shelter. A rota planejada também passa próxima a propriedades privadas que abrigam outros sítios arqueológicos, alguns deles ainda pouco estudados.

O risco não se limita ao contato direto entre a barreira e as pinturas. Explosões, escavações e o trânsito de máquinas pesadas podem provocar vibrações capazes de acelerar um processo natural de deterioração das paredes de calcário conhecido como spalling, no qual fragmentos da superfície se desprendem.

No Fate Bell Shelter, algumas áreas da rocha já apresentam sinais desse processo, com pequenos fragmentos soltando-se ao longo do tempo.

Segundo Boyd, a intensificação das vibrações poderia agravar o problema e, em um cenário extremo, provocar o desabamento de painéis inteiros que ainda não foram completamente documentados.

Outro problema é que a nova barreira poderia deixar dezenas de murais no lado mexicano da fronteira. Isso dificultaria o acesso de arqueólogos e pesquisadores, bem como de comunidades indígenas que consideram os locais parte de suas tradições e de suas histórias de origem.

A ameaça provocou resistência entre moradores, proprietários rurais, empresários e políticos locais. No caso da propriedade da família Zuberbueler, por exemplo, o traçado previsto passa próximo ao chamado Painted Shelter, um mural produzido em diferentes períodos ao longo de cerca de 5 mil anos.

A família recebeu uma oferta de US$ 5 mil para ceder parte da propriedade à construção, mas recusou. A empresa Fisher Sand and Gravel, contratada por US$ 2,7 bilhões para construir a barreira, também solicitou acesso a grandes volumes de água para as obras, enquanto os proprietários preveem o uso de explosivos devido à natureza rochosa do terreno.

Outro proprietário, Raymond Skiles, afirma ao Guardian ter recebido propostas semelhantes e questiona a necessidade de construir em uma área de difícil acesso. Segundo ele, em décadas na propriedade, presenciou apenas oito pessoas atravessarem ilegalmente a região, todas a pé, e algumas delas aparentemente queriam ser encontradas pelas autoridades.

Para Boyd, preservar os murais também significa proteger uma oportunidade científica e cultural. Um dos exemplos é o White Shaman, um painel de aproximadamente 30 metros localizado em uma caverna sobre o rio Pecos, cuja composição e orientação em relação ao Sol sugerem uma complexa dimensão simbólica.

A arqueóloga espera que pesquisadores e comunidades indígenas possam, no futuro, interpretar essas imagens com profundidade semelhante à alcançada na compreensão dos hieróglifos egípcios e das pinturas maias.

“Os ancestrais ainda estão aqui”, afirmou Boyd ao visitar um dos sítios, defendendo que esses lugares sejam tratados como patrimônio vivo, e não apenas como obstáculos no caminho de uma nova barreira.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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