Na cidade onde nasceu a Vale, ele construiu um negócio de R$ 1,8 bilhão bem longe do minério
Enquanto 82% da economia local vive da mineração, fintech fincou raízes no interior de MG e já movimenta fortunas comprando dívidas que o governo demora anos para pagar

RESUMO +
Desde 2019, a fintech de precatórios Precato, fundada por Bruno Guerra em Itabira, movimentou cerca de R$ 1,8 bilhão em ativos e criou mais de 200 empregos na cidade. Com 90% da equipe no município, a empresa cresce, em média, 50% ao ano, segundo Guerra, mas enfrenta escassez de profissionais e mudanças nas regras de dívidas públicas.
Em Itabira, quase tudo leva ao minério.
A cidade mineira onde nasceu a Vale construiu sua economia em torno da extração de ferro, e cerca de 82% da atividade econômica local ainda depende direta ou indiretamente da mineração.
Durante décadas, trabalhar longe dessa cadeia foi quase nadar contra a corrente.
Bruno Guerra fez isso. Nascido em Itabira, ele fundou na cidade a Precato, fintech especializada na compra de precatórios, dívidas que governos foram condenados pela Justiça a pagar, e de RPVs, requisições de pequeno valor ligadas a decisões judiciais.
Desde 2019, a empresa já movimentou cerca de 1,8 bilhão de reais em ativos. Hoje tem aproximadamente 230 funcionários. Mais de 200 trabalham em Itabira, que discute como será sua economia à medida que a mineração perder espaço.
A Precato cresceu justamente em uma atividade que não depende de escavadeira, barragem ou preço do minério de ferro. E fez isso sem transferir o grosso da operação para Belo Horizonte ou São Paulo: cerca de 90% da equipe continua na cidade.
“A gente sabe que, quando acaba o minério, a empresa vai embora e a cidade que se vira”, afirma Guerra.
Para ele, uma única companhia está longe de resolver o problema da diversificação econômica de Itabira. Mas uma empresa de tecnologia e serviços financeiros que emprega mais de 200 pessoas na cidade começa a colocar outro tipo de atividade no mapa local.
Agora vem a parte mais difícil.
Guerra afirma que a Precato cresce, em média, 50% ao ano desde a fundação e vê espaço para avançar em um mercado de centenas de bilhões de reais.
Para sustentar esse ritmo a partir de Itabira, porém, a empresa precisa formar profissionais na mesma velocidade em que contrata, ao mesmo tempo em que lida com um negócio diretamente afetado por mudanças nas regras de pagamento das dívidas públicas.
Qual é a história da Precato
A Precato nasceu em 2019, mas a sociedade por trás dela começou 14 anos antes.
Guerra e André, seu sócio e cofundador, começaram a empreender juntos em 2005. Guerra tinha 23 anos.
Os dois abriram em Itabira uma operação de crédito consignado praticamente sem capital e passaram a atuar como correspondentes bancários.
Em cinco anos, segundo Guerra, a empresa se tornou o maior correspondente do Banco Bonsucesso no segmento. No auge da relação, os dois eram responsáveis por cerca de 30% do volume feito pelo banco nessa área. Eles deixaram o negócio por volta de 2015.
Mas uma parte daquela experiência continuou na cabeça dos fundadores.
Desde 2013, eles também investiam em precatórios. E começaram a notar um comportamento que, para Guerra, parecia pouco racional: aposentados e pensionistas que tinham dinheiro a receber do governo recorriam ao crédito consignado, comprometendo uma parcela da renda mensal, em vez de antecipar um valor que já lhes pertencia.
A partir daí surgiu a tese que daria origem à Precato.
“Não tinha sentido alguém ter um crédito a receber e optar por não vender esse crédito e, ao mesmo tempo, fazer um outro crédito que ocupa até 40% da renda dela”, afirma Guerra.
Como a Precato ganha dinheiro
O modelo parte de uma operação relativamente simples de entender.
Uma pessoa ganha na Justiça o direito de receber dinheiro de um ente público. Em vez de esperar o pagamento, que pode levar anos, ela consegue vender esse crédito antes por um valor menor.
A Precato compra o direito, assume a espera e recebe o pagamento integral quando o governo quita a dívida.
A diferença entre o preço pago pelo crédito e o valor recebido no futuro compõe o retorno da operação.
A fintech tenta controlar várias etapas desse processo. Segundo Guerra, a empresa trabalha desde a identificação e tratamento dos dados dos credores até o contato com essas pessoas, análise do ativo, compra e acompanhamento do crédito até o pagamento.
Os ativos ficam em um FIDC, fundo de investimento em direitos creditórios.
A estrutura também recebe capital de investidores, até agora majoritariamente institucionais, para financiar novas compras. A própria Precato investe em uma parcela subordinada do fundo, que absorve primeiro eventuais perdas da carteira.
Em 2025, a empresa comprou pouco mais de 500 milhões de reais em ativos, segundo Guerra. Desde o início da operação, o total chegou a aproximadamente 1,8 bilhão de reais.
Uma faculdade de engenharia virou fonte de talentos
Manter uma operação financeira e de tecnologia no interior trouxe uma dificuldade óbvia: onde encontrar gente para fazê-la crescer?
Parte da resposta apareceu a poucos quilômetros da empresa.
Itabira abriga um campus da Universidade Federal de Itajubá, a Unifei. Segundo Guerra, a instalação recebeu investimentos da Vale e do município e amadureceu justamente nos anos anteriores à criação da Precato.
A universidade é concentrada em cursos de engenharia. Quando a fintech começou a contratar, estudantes passaram a chegar como estagiários. Alguns ficaram.
Hoje, dos cerca de 30 sócios minoritários da Precato, 14 vieram da Unifei e começaram na companhia como estagiários, segundo Guerra.
É também aí que a história da fintech volta a se cruzar com a mineração.
A Vale nasceu em Itabira e manteve por décadas uma relação direta com a formação da economia local. Agora, um investimento feito para preparar a cidade para outras atividades ajuda a fornecer profissionais para uma empresa que não depende da extração mineral.
A escala ainda é pequena diante do tamanho da mineração no município. Mas a lógica é formar profissionais em Itabira, criar carreiras que antes exigiriam uma mudança para grandes centros e tentar manter parte dessa mão de obra na cidade.
Quais são os desafios
Para crescer, a empresa enfrenta um problema curioso: há muito dinheiro em precatórios, mas relativamente pouca gente disposta a vendê-los.
Segundo Guerra, o estoque de precatórios no Brasil chega a cerca de 300 bilhões de reais, com aproximadamente 75 bilhões de reais em novos ativos gerados por ano. O volume de cessões, porém, ficaria entre 2 bilhões e 3 bilhões de reais.
“O mercado ainda é muito imaturo. O detentor do crédito ainda não avalia ele como opção em relação a outras opções que ele toma”, afirma Guerra.
Outro desafio é que a Precato compra hoje um ativo cujo pagamento depende de governos. E regras para essas dívidas podem mudar por decisões do Congresso, dos tribunais ou dos próprios entes públicos.
“Todos os anos tem alguma coisa acontecendo, alguma emenda constitucional sendo votada que afeta diretamente o ativo que a gente está carregando, alguma discussão no Judiciário sobre o produto”, afirma Guerra.
O último desafio está dentro de casa.
Quanto mais rápido a empresa cresce, mais profissionais precisa contratar. E a decisão de manter a maior parte da operação numa cidade de pouco mais de 100.000 habitantes torna essa busca mais difícil do que seria em São Paulo ou Belo Horizonte.
A saída tem sido formar parte da mão de obra internamente.
“O desafio é conseguir contratar e desenvolver pessoas no nível que a gente precisa para operar uma máquina que cresce da forma como a gente cresce”, afirma Guerra. “Como a gente está aqui no município de Itabira e prioriza fazer isso, às vezes é preciso até criar o profissional, desenvolver internamente.”
