Na comemoração dos 250 anos, EUA enfrentam desafio de preservar sua história

Às vésperas das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos, museus, parques e instituições culturais se tornaram palco de um debate sobre a forma como a história do país deve ser apresentada ao público.
Segundo a agência Reuters, a discussão ganhou força após mudanças promovidas pelo governo do presidente Donald Trump em exposições e programas voltados à memória nacional — em janeiro, o Serviço Nacional de Parques retirou painéis relacionados à escravidão após uma ordem executiva de Trump que determinou a revisão de programas considerados promotores de "ideologias divisivas".
Na cidade de Filadélfia, central para a história da independência americana, um dos principais focos da controvérsia é a antiga Casa do Presidente, residência onde moraram George Washington e John Adams, o primeiro presidente dos EUA e o segundo, respectivamente. O local abrigava uma exposição sobre a relação entre escravidão e liberdade nos primeiros anos da república, incluindo a história de Oney Judge, mulher escravizada pelos Washington que conseguiu fugir em 1796 e permanecer livre.
A decisão de Trump chegou a desencadear uma disputa judicial sobre essa exposição. Embora um juiz federal tenha determinado a restauração dos painéis, uma corte de apelações autorizou posteriormente o governo a remover e substituir o conteúdo dos painéis.Revisionismo histórico?
Proposta de "passaporte patriota" de Donald Trump em comemoração aos 250 anos da independência americana. O novo passaporte só poderá ser obtido em pessoa (Reprodução/redes sociais)
O episódio ilustra uma disputa mais ampla sobre a memória histórica nos Estados Unidos, aponta a Reuters.
De um lado, integrantes do governo afirmam que as mudanças buscam reequilibrar as narrativas históricas e dar maior destaque aos ideais fundadores do país, como liberdade religiosa e de expressão. De outro lado, historiadores, acadêmicos e gestores culturais argumentam que as medidas reduzem o espaço dedicado a temas mais matizados como escravidão, discriminação racial, imigração, exclusão social e a luta de grupos marginalizados por direitos civis.
A discussão também tem repercussões financeiras. Instituições voltadas à preservação de histórias de minorias relatam dificuldades para obter recursos em um ambiente político mais polarizado. O Stonewall National Museum Archives and Library, na Flórida, estima perder entre US$ 70 mil e US$ 90 mil em verbas públicas até o fim do ano, o que pode comprometer projetos de preservação de acervos.
Apesar das disputas políticas, museus dedicados a narrativas mais amplas da história americana continuam atraindo grande público. O National Museum of African American History and Culture recebeu 1,4 milhão de visitantes em 2025, enquanto o National Museum of the American Indian registrou mais de 620 mil visitas.
Para muitos especialistas, o debate em curso não se resume à celebração do aniversário da independência, mas reflete uma disputa sobre quais episódios e personagens devem ocupar espaço na narrativa nacional.
Em um momento deforte polarização política, a preparação para o jubileu de 250 anos transformou museus e locais históricos em centros de uma discussão mais ampla sobre identidade, memória e o papel das instituições culturais na interpretação do passado americano.
