'Nações Desunidas': por que o próximo líder da ONU herdará entidade fragmentada
Em meio à perda de influência, conflitos internos e crises de relevância, a ONU vive o que pode ser seu pior momento desde a Guerra Fria

A ONU enfrenta uma de suas mais profundas crises de relevância desde o fim da Guerra Fria, aponta o jornal britânico Financial Times (FT). Portanto, a sucessão do secretário-geral António Guterres, que serviu dois mandatos à frente da organização, ocorre em meio a impasses políticos, cortes de financiamento e perda de influência nas principais guerras do mundo.
O próximo líder da organização assumirá em 1º de janeiro de 2027. O desafio não será apenas administrar a instituição, mas também preservar sua capacidade de atuar como fórum global para a segurança, o clima, o desenvolvimento e os direitos humanos.
A principal favorita na corrida sucessória — repleta de mulheres — é a costa-riquenha Rebeca Grynspan. Ela liderou a primeira votação informal do Conselho de Segurança e pode se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de secretária-geral.
Também aparecem entre os candidatos a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett e o argentino Rafael Grossi. Outros nomes incluem Michelle Bachelet, María Fernanda Espinosa, Macky Sall e Olara Otunnu.
O processo de escolha é controlado, na prática, pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Dessa forma, um único voto negativo dosEstados Unidos, da China, da Rússia, do Reino Unido ou da França pode inviabilizar qualquer candidatura.
O Conselho, por sua vez, permanece paralisado desde a invasão russa da Ucrânia em 2022: o bloqueio se soma a anos de confrontos entre as grandes potências com assentos permanentes na entidade, reduzindo a produção de resoluções e enfraquecendo a autoridade do direito internacional.
Rússia, Estados Unidos e China têm sido frequentemente apontados como fatores centrais da crise, segundo o FT. Moscou usa o veto para barrar iniciativas ocidentais, Washington contorna o Conselho quando considera necessário e Pequim frequentemente se alinha à Rússia em votações estratégicas.
(Des)organização das Nações Unidas
Reunião do Conselho de Segurança da ONU (UN Photo/Mark Garten) (UN Photo/Mark Garten/Divulgação)
A ONU encontra-se repleta de crises, conflitos internos e redundâncias. A influência da entidade nas guerras da Ucrânia, de Gaza e do Irã tornou-se limitada, com diplomatas e até ex-dirigentes afirmando que a organização foi praticamente marginalizada nos esforços de mediação desses conflitos.
Além da crise política, a ONU também enfrenta um grave problema financeiro: os Estados Unidos e outros países reduziram suas contribuições, o que provocou cortes orçamentários, demissões e pressão por uma ampla reforma administrativa.
Além disso, autoridades da própria organização reconhecem que várias agências exercem funções sobrepostas. O debate interno, portanto, deixou de ser apenas sobre expansão de programas e passou a incluir a eliminação de estruturas consideradas ineficientes.
O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, afirmou que a ONU não corre risco de desaparecer de imediato. Segundo ele, o perigo é uma “morte lenta”, marcada pela perda gradual de relevância nas crises internacionais.
Diplomatas avaliam que a América Latina tem vantagem nesta rodada de sucessão, já que há uma expectativa informal de rotação regional, o que colocaria a região na frente da fila.
De qualquer forma, a relação com os Estados Unidos será decisiva para o próximo secretário-geral, O governo de Donald Trump reduziu o apoio a diversas agências da ONU e defende concentrar recursos apenas em áreas consideradas estratégicas, como crises humanitárias específicas.
Apesar dos cortes, houve alguma cooperação no campo da ajuda humanitária. O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários recebeu financiamento dos Estados Unidos, embora acompanhado de condições mais rigorosas. Ex-dirigentes da organização argumentam que o novo líder deve priorizar mediação de conflitos, e não reformas burocráticas.
A avaliação é que mudanças administrativas podem consumir capital político sem recuperar a influência internacional da ONU.
A reforma do Conselho de Segurança continua sendo vista como improvável no médio prazo. Os próprios membros permanentes teriam de aprovar alterações que reduzissem seu poder, enquanto candidatos a novos assentos competem entre si.
O debate atual opõe duas visões sobre a ONU. Uma defende uma organização ampla, voltada para o clima, a pobreza e os direitos humanos; outra sustenta que a prioridade deve ser atuar como mediadora pragmática de conflitos entre Estados.
Especialistas afirmam que a organização já passou por períodos de forte paralisia, inclusive durante a Guerra Fria. A diferença agora é a combinação simultânea de um impasse geopolítico, de uma crise financeira e da competição com outros fóruns internacionais, como o G20.
Mesmo diante do cenário adverso, diplomatas evitam decretar o fim da ONU. O consenso é que sua capacidade de recuperação dependerá menos de reformas estruturais e mais da habilidade do próximo secretário-geral de reconstruir confiança entre as grandes potências e devolver à organização algum protagonismo nas crises internacionais.
