Nada de 'techs': veja setores da bolsa americana que ganham se os juros dos EUA subirem
Mercado vê 75% de chance de alta dos juros até dezembro e já busca os possíveis vencedores

O mercado já começa a se preparar para um cenário que parecia menos provável meses atrás, com a expectativa de uma nova rodada de alta de juros nos Estados Unidos. Os contratos futuros agora apontam 75% de chance de o Federal Reserve (Fed) elevar os juros de curto prazo até dezembro.
Investidores começam a buscar setores que historicamente se saem melhor nesse ambiente.
Uma sinalização mais clara sobre o momento da decisão pode vir do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, durante seu discurso em Jackson Hole na sexta-feira, 28, segundo informações da revista americana Barron's.
Dados da Barclays mostram que, desde meados dos anos 1990, energia, materiais e tecnologia estão entre os setores que melhor resistem durante ciclos de alta de juros.
Energia e commodities no radar
O setor de energia aparece como um dos principais beneficiados. O fundo de índice (ETF, em inglês) State Street Energy Select Sector SPDR acumula alta superior a 40% em 2026, impulsionado por empresas como ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips.
"O setor de energia tem sido o mais resiliente a se beneficiar do cenário de fim de ciclo", de acordo com estrategistas da Barclays.
O setor de materiais também ganhou força. A mineradora de cobre Freeport-McMoRan acumula alta superior a 50% no ano e negocia em nível recorde.
Para o chefe de análise técnica da Roth, JC O'Hara, ouvido pela revista, o setor de materiais começou a apresentar novo impulso de alta. Ele vê que metais, agricultura e recursos naturais continuam em um mercado de alta.
O analista da Yardeni Research, Ed Yardeni, também está otimista com materiais, citando a força dos preços do ouro e do cobre.
Tecnologia pode ter espaço para recuperação
Yardeni também recomenda ações de tecnologia. Na sua visão, o mercado exagerou nas preocupações macroeconômicas e nos temores sobre a valorização de empresas de chips como Micron, Marvell Technology e SK Hynix.
O setor de semicondutores negocia atualmente a um múltiplo preço/lucro inferior ao do S&P 500. Já o setor de tecnologia, de forma mais ampla, está avaliado em cerca de 21 vezes os lucros projetados, mesmo com expectativa de crescimento de 42%.
Chefe de boutiques de ações da Wellington Management, Kim Gailun também enxerga espaço para a tecnologia. O bom desempenho do setor, mesmo com empresas das "Sete Magníficas" ficando para trás, indica um mercado mais seletivo, disse.
Quais setores podem sofrer
Na outra ponta, a alta dos juros tende a pressionar setores mais sensíveis às taxas, como bancos e consumo discricionário. Também entram na lista os chamados "bond proxies", empresas de consumo básico, utilities e do setor imobiliário.Como são conhecidas por pagar dividendos elevados, seus rendimentos ficam relativamente menos atraentes quando os juros dos títulos públicos sobem.
"O setor financeiro e os setores tradicionalmente defensivos enfrentaram a maior pressão, à medida que condições financeiras mais restritivas e taxas de desconto mais altas pesam sobre as expectativas de lucros e os valuations", conforme a Barclays.
Saúde divide opiniões
O setor de saúde é o ponto de maior divergência entre os analistas. A Barclays vê risco de correção para o segmento, que acumula alta de cerca de 13% no ano.
E, como ele é defensivo e voltado ao pagamento de dividendos, pode perder atratividade se o Fed entender que a atividade econômica e a demanda estão fortes o suficiente para justificar uma alta de juros.
Yardeni, porém, mantém uma visão positiva. O setor negocia a cerca de 19 vezes os lucros projetados, enquanto lucros e margens devem melhorar.
Resultados favoráveis de testes de uma vacina contra o câncer desenvolvida por Moderna e Merck também deram impulso às ações das duas empresas. A mudança pode fazer com que farmacêuticas deixem de ser apenas uma posição defensiva.
Se o setor continuar mostrando crescimento, saúde pode se juntar a energia, materiais e tecnologia entre os segmentos mais interessantes para um ambiente de juros mais altos, indicam as fontes ouvidas pela Barron's.
