'Não adianta liderar a produção de algodão e pagar para produzir', diz Abrapa
Em entrevista à EXAME, Marcio Portocarrero, diretor-executivo da entidade, projeta a nova safra e analisa os efeitos da “taxa das blusinhas” sobre o algodão brasileiro

O Brasil deve renovar o recorde na produção e exportação de algodão na safra 2026/27, mas o bom momento vem acompanhado de um alerta aos produtores: crescer exige cautela. “O que a gente orienta ao produtor é basicamente não se empolgar demais e dobrar a área”, diz Márcio Portocarrero, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), entidade que representa o setor no país.
A preocupação passa pelo risco de uma oferta maior do que o avanço da demanda. Enquanto a produção brasileira ganha espaço, o consumo mundial de algodão segue pressionado pela concorrência das fibras sintéticas — cenário que, no mercado doméstico, também esbarra no avanço das roupas importadas e nas discussões em torno da chamada“taxa das blusinhas”.
Em entrevista à EXAME, Portocarrero fala sobre as perspectivas para a próxima safra, os desafios para ampliar o consumo e as exportações e o que pode definir opróximo ciclo do algodão brasileiro.
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O último relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostrou uma estimativa de queda na produção global de algodão, enquanto o Brasil aparece bem posicionado nesta safra. Como vocês enxergam a possibilidade de o país mais uma vez superar os EUA?
Essa instabilidade climática que afetou soja e milho atingiu os mesmos produtores que plantam algodão, mas não causou prejuízo para a cultura. A janela do algodão não foi prejudicada. Tanto que reduzimos a área nesta safra, que está terminando a colheita, em 9,5%, e a previsão é de que devemos produzir entre 4,1 a 4,2 milhões de toneladas, superando a safra passada em quantidade. Agora, há a questão da qualidade, que é o item mais importante. Temos acompanhado isso diariamente. Na Bahia, a safra está muito boa em relação à qualidade. Em Mato Grosso, somente uma região teve instabilidade de chuvas no final, o que pode ter prejudicado uma parcela muito pequena. No caso dos concorrentes, os EUA enfrentaram problemas muito sérios de clima, e a Austrália é limitada pela regulação da água, porque o governo estabelece cotas. Então, o único lugar que pode atender à demanda atual e futura de forma imediata é o Brasil. Paquistão, Índia e a própria China também produzem algodão, mas não têm capacidade de crescer na mesma velocidade que nós.
Do outro lado dessa equação está o consumo. A produção brasileira aumenta, mas o consumo doméstico não cresce na mesma proporção. O que tem sido feito para ampliar o consumo?
O consumo mundial está estabilizado há cerca de 12 anos por causa da entrada dos sintéticos, da facilidade que a indústria têxtil encontra no uso desses produtos e do preço final. É preciso cruzar diversas variáveis. O produto de fibras naturais — e aí não é apenas o algodão — passa por um processo mais demorado, com investimentos, e normalmente chega à indústria têxtil com um custo maior. Em períodos de conflitos ou dificuldades econômicas, o consumidor vai buscar o que é mais barato para atender à necessidade imediata. Estou falando de cerca de 40% da população mundial, que não tem poder de escolha. Os outros 60% podem decidir na hora de comprar levando em consideração diversos requisitos. É aí que estamos trabalhando, não só nós, produtores brasileiros de matéria-prima, mas também americanos e australianos. Estamos levantando os requisitos básicos e as vantagens de consumir algodão para que a pessoa, quando chegar à loja, possa considerar isso antes de comprar.
Mas tem a questão de sustentabilidade também, certo?
Há uma campanha muito forte na Europa em relação ao lixo e à decomposição das matérias-primas. O algodão tem capacidade de voltar para a prateleira por meio da reciclagem, enquanto o sintético enfrenta uma dificuldade muito maior dentro da economia circular. Também entra a questão da saúde e do meio ambiente, com a discussão sobre os microplásticos. Ainda são necessários muitos estudos para dizer efetivamente quais doenças isso pode causar. Mas sabemos que produtos sintéticos, durante a lavagem, liberam partículas. Há pesquisas encontrando microplásticos no organismo humano, e é preciso avaliar até que ponto isso pode interferir na qualidade de vida. Lógico que existe o interesse de que as pessoas consumam mais fibras naturais, mas queremos contribuir também para a discussão sobre saúde e meio ambiente.
Quanto a fibra natural é mais cara do que a sintética? E como a 'Taxa das Blusinhas' pode mexer com o consumo de algodão no Brasil?
Fomos críticos em relação a essa medida do governo e tornamos pública nossa preocupação. Entendemos que ela representou uma perda de competitividade para a indústria nacional, que é nosso grande cliente. A maior parte daqueles pacotes que chegam da Ásia contém produtos sintéticos. Há muito pouca coisa de algodão. Então, temos uma perda de competitividade para a indústria nacional. O parque têxtil brasileiro é muito relevante mundialmente e, quando você cria dentro do país uma política que incentiva a importação de produtos têxteis acabados, essas empresas perdem ainda mais espaço para competir. Nós lutamos para que o governo adotasse alguma forma de compensação tributária para a indústria nacional. Isso não aconteceu, mas vamos continuar nessa discussão. A indústria brasileira já sentiu o impacto. São milhares de produtos que chegam diariamente e que poderiam estar sendo fabricados aqui no Brasil. Também não adianta simplesmente falar em uma campanha para conscientizar a população a comprar produtos feitos no Brasil. O consumidor está no conforto de casa, entra nos aplicativos, compra uma roupa mais barata e ela chega cada vez mais rápido. Acho injusto o governo fazer uma política que, ao mesmo tempo em que dá uma vantagem para a população, tira competitividade das nossas indústrias e dos produtores de matéria-prima, que são geradores de emprego e impostos.
E quanto à diferença de preço entre a fibra natural e a sintética?
Em tempos normais, com o petróleo em baixa, o poliéster chega a ser até 30% mais barato do que o fio de algodão. Em momentos como o atual, com conflitos e petróleo mais caro, a fibra natural fica mais competitiva. Ganhamos de um lado e perdemos do outro, porque, com o preço do petróleo alto, adubo, transporte e energia também ficam mais caros. Então pagamos mais, mas nosso produto também é mais valorizado.A indústria faz a conta na ponta do lápis. Ela precisa de fio e, se for mais barato comprar fibra natural para cumprir suas metas, vem buscar imediatamente. A próxima safra já tem contratos firmados antecipadamente para mais de 50% da produção. Isso é uma tradição, não ocorre apenas por causa dos conflitos atuais. O caso do Brasil é especial porque o mundo depende de quem produz algodão para manter essa indústria funcionando. Existe a segurança de que o Brasil vai produzir algodão todos os anos e de que nosso algodão tem qualidade. Isso faz com que os compradores venham buscar o produto até antes de plantarmos.
Por que o algodão brasileiro conseguiu atravessar os problemas climáticos com impacto relativamente pequeno?
Há dois fatores. Primeiro, o algodão é uma planta que precisa de acha regularmente. Precisamos de chuvas nos primeiros 60 dias, mas de chuvas regulares, não intensas. Foi o que aconteceu. Segundo, a área cultivada com algodão no Brasil normalmente é uma parcela da propriedade. Se o produtor planta mil hectares de soja, por exemplo, pode plantar 300 hectares de algodão. Ele não planta toda a área de soja com algodão porque coloca a cultura nas áreas mais estáveis em termos de fertilidade e nos melhores solos. Isso ajuda nos períodos de estiagem. A raiz do algodão pode descer dois ou três metros, e isso garantiu o desenvolvimento mesmo com chuvas escassas, mas suficientes. Chegamos ao final com uma safra até melhor do que imaginávamos. A janela de plantio do Brasil se ajustou.
O programa Sou de Algodão completa dez anos e se tornou uma vitrine do setor. Quais resultados vocês perceberam ao longo desse período?
Quando discutimos lançar um programa para falar de algodão no mercado nacional, avaliamos o potencial que o Brasil tem, com mais de 200 milhões de consumidores, e percebemos que havia uma perda de mercado muito grande para os sintéticos.Hoje posso dizer que quebramos muitos paradigmas. O produtor de algodão chegou às vitrines das lojas e aos grandes shoppings por meio do Sou de Algodão. Outro fator essencial foi nossa aproximação com o universo da moda e com os formadores de opinião. Era um mundo no qual praticamente não estávamos presentes. Havia pessoas com muitos preconceitos em relação à forma de produzir algodão, às questões ambientais, ao uso de químicos e ao tratamento das pessoas que trabalham com a cultura, muitas vezes baseados em histórias do passado. Outro ponto são as universidades de moda. Trabalhamos há dez anos dentro dessas universidades, levando estilistas conhecidos para realizar minicursos e falando sobre consumo de algodão, moda brasileira, brasilidade e sustentabilidade. A marca é muito forte porque carrega junto uma mensagem de sustentabilidade e foi entrando no cotidiano das pessoas. Esse era o objetivo.
O Brasil entra em mais uma safra com expectativa elevada e possibilidade de renovar o recorde de exportações. Quais são os principais desafios para o produtor nesse novo ciclo?
O que orientamos ao produtor é, basicamente, que não se empolgue demais e dobre a área. A superoferta de qualquer produto pode desequilibrar a lei da oferta e da procura, e nós, produtores de matéria-prima, podemos ficar em desvantagem. Mantenha a área. Se tiver que reduzir, reduza, desde que tenha outra alternativa. Não adianta achar que vamos dobrar a produção e também dobrar o consumo, porque isso não vai acontecer imediatamente. Dentro da fazenda, o grande desafio do produtor é a gestão. Essa equação é complicada. O produtor de algodão já entende isso e não pode desperdiçar nenhum centavo, porque a margem é muito estreita. O investimento é muito alto. É uma das lavouras mais caras para produzir, inclusive em máquinas e equipamentos exclusivos para o algodão. Se o produtor não cuidar da gestão do negócio, com gente especializada e capacitada, pode não fechar a conta no final. Não adianta ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais e pagar para produzir. Ele precisa receber remuneração.
A União Europeia deve estabelecer em dezembro a Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). O setor brasileiro de algodão está preparado para atender a essas regras?
O algodão brasileiro está acima das exigências das novas regras. não teremos dificuldade para atender imediatamente às demandas que vierem de lá. Inclusive, grandes redes mundiais que já compram algodão do Brasil exigem comprovações que oferecemos há muito tempo em rastreabilidade. O que temos hoje em termos de cadeia de custódia, rastreabilidade e garantia não é um negócio novo para nós. Viemos construindo isso desde 2012, e nosso programa de rastreabilidade começou ainda antes. É uma preocupação porque a régua dos países europeus, principalmente dos consumidores, está subindo muito em relação a desmatamento, químicos e à parte social, como o relacionamento com as comunidades. Mas entendemos que produzimos uma matéria-prima para o consumidor. Se não fizermos o que ele está pedindo, alguém vai fazer. É preciso entender o que esse cliente está exigindo.
