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10/07/2026
9 min

Não basta a Selic cair: Bradesco BBI revela o que falta para os IPOs de brasileiras engatarem de vez — e quando a janela deve reabrir

Não basta a Selic cair: Bradesco BBI revela o que falta para os IPOs de brasileiras engatarem de vez — e quando a janela deve reabrir

Depois de anos sem uma janela favorável para uma nova leva de IPOs, o mercado brasileiro começa a enxergar os primeiros sinais de retomada — mas não em 2026.

Na visão do Bradesco BBI, as aberturas de capital de empresas brasileiras só devem voltar a ganhar tração a partir do ano que vem, e isso dependerá de muito mais do que uma simples queda da Selic.

Em conversa com jornalistas, André Moor, chefe do banco de investimentos, defende que o ponto nevrálgico é a queda dos juros de longo prazo, que são definidos pelo mercado. Hoje, as taxas reais próximas de 9% tornam extremamente caro captar recursos via bolsa.

Uma queda só aconteceria a partir de uma sinalização crível de que o próximo governo, seja qual for, irá colocar o fiscal em ordem.

Para ele, basta que o mercado volte a acreditar no compromisso do governo com a responsabilidade fiscal. Nem sequer é necessário que a inflação recue de forma significativa.

"Se o governo fizer uma reforma administrativa ou uma sinalização fiscal que o mercado considere crível, ele aceita conviver com uma inflação elevada por algum tempo. O problema não é só a inflação, é a confiança de que a dívida pública vai entrar em uma trajetória sustentável. Quando essa confiança aparece, o juro longo cai", afirmou Moor.

Para o banco, existe um consenso de que algum tipo de ajuste fiscal precisará acontecer a partir de 2027. A dúvida do mercado não é se haverá ajuste, mas qual candidato conseguirá apresentar um plano mais convincente.

Os IPOs devem voltar por etapas

A partir disso, quando a retomada acontecer, virão diferentes ondas de IPOs, segundo o time do Bradesco BBI. A primeira leva deve reunir empresas com fluxo de caixa previsível, crescimento moderado e atuação em setores mais defensivos, como infraestrutura, energia e serviços financeiros.

A Compass (PASS3), plataforma de gás do grupo Cosan que abriu capital em maio, é um exemplo de empresa dessa primeira onda.

Além disso, o banco avalia que as ofertas precisarão ter porte relevante — entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão a R$ 2,7 bilhões, no câmbio atual) — para garantir liquidez suficiente e despertar o interesse do investidor.

Hoje, o banco estima que existem entre cinco e dez empresas brasileiras que já reúnem essas características e poderiam acessar o mercado assim que o ambiente macroeconômico permitir.

Nesse cenário, o time não considera somente aberturas na B3, mas também em Wall Street. No entanto, apenas empresas capazes de levantar cerca de US$ 1 bilhão conseguiriam atingir a liquidez mínima exigida hoje pelos investidores em Nova York, o que torna essa alternativa viável para um grupo bastante restrito de candidatos.

"Agora a barra está muito mais alta e tamanho gera liquidez. As empresas precisam dar perspectiva de negociar entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões por dia. Para chegar nisso, estamos falando de uma oferta de cerca de US$ 1 bilhão", diz George Costa e Silva, head de ECM do banco de investimentos.

No entanto, na visão do BBI, negócios essencialmente domésticos podem capturar mais valor permanecendo na B3, onde têm maiores chances de integrar índices relevantes e, consequentemente, receber o fluxo automático de recursos de ETFs e fundos passivos.

Essa dinâmica contribui para ampliar a liquidez das ações, um dos principais critérios observados pelos investidores institucionais.

Sem escala suficiente, o risco de uma listagem em Wall Street é justamente o oposto: a empresa pode ficar fora dos principais índices, negociar volumes reduzidos e acabar praticamente invisível para o mercado, comprometendo um dos principais objetivos de um IPO.

Em uma segunda leva de IPOs, a expectativa é que a melhora do mercado alcance empresas menores, companhias investidas por fundos de private equity e negócios com perfil mais voltado ao crescimento.

Mas essa etapa exigirá um ambiente de maior apetite por risco, com os juros futuros já projetando taxas de um dígito. Até lá, dificilmente essas operações sairão do papel.

Enquanto isso, follow-ons dominam o mercado

Na ausência de IPOs, quem ocupa espaço são as ofertas subsequentes de ações. Na avaliação do Bradesco BBI, essas operações vêm funcionando como uma espécie de "ponte" até que o ambiente macroeconômico permita uma retomada mais ampla das aberturas de capital.

Até o momento, o mercado já contabiliza seis follow-ons concluídos e outros dois em andamento, desempenho considerado significativamente melhor do que o observado em 2024 e 2025.

O perfil dessas operações, no entanto, mudou. Se em ciclos anteriores havia espaço para ofertas mais voltadas ao crescimento, hoje predominam transações consideradas oportunísticas e cuidadosamente estruturadas, concentradas em companhias com histórico comprovado, setores resilientes e demanda previamente mapeada.

Empresas de infraestrutura, energia e utilities aparecem entre as principais candidatas, aproveitando momentos favoráveis de valorização para reforçar o caixa, financiar novos investimentos ou permitir a venda parcial de participações relevantes.

Casos como Isa Energia (ISAE4), que avalia uma oferta de R$ 650 milhões, Copasa (CSMG3) e Equatorial (EQTL3) ilustram esse movimento: operações que só chegam ao mercado quando há elevada convicção de execução, muitas delas já ancoradas por investidores antes mesmo do lançamento.

E a epidemia de OPAs?

Outro movimento que vem ganhando força em meio aos valuations deprimidos da bolsa é o aumento das discussões em torno das Ofertas Públicas de Aquisição (OPAs). Na visão de Moor, o cenário atual abriu espaço para investidores estratégicos e controladores avaliarem o fechamento de capital de companhias negociadas a múltiplos considerados excessivamente descontados.

O banco identifica duas frentes principais. A primeira envolve grupos estrangeiros, que se beneficiam de um custo de capital inferior ao brasileiro para adquirir empresas locais, com o é o caso da Advent, com a Natura (NATU3).

A segunda diz respeito aos próprios controladores de companhias listadas, que enxergam uma oportunidade de recomprar ativos quando o mercado atribui um valor considerado injustificadamente baixo às empresas.

"Quando a empresa está muito descontada na bolsa e continua gerando caixa, o fechamento de capital passa a entrar no radar. A discussão deixa de ser apenas o preço da ação e passa a ser se a recompra cria valor para o controlador e se há financiamento disponível para executar a operação", diz Moor.

Apesar das oportunidades, o banco ressalta que o ambiente ainda impõe uma limitação importante. O mesmo patamar elevado de juros que derruba os preços das ações também encarece o financiamento necessário para uma OPA, tornando muitas transações economicamente inviáveis.

"O paradoxo é que a oportunidade aparece justamente quando a bolsa está barata. Mas é também quando o custo do dinheiro torna a conta muito mais difícil de fechar", resumiu Moor.

Os M&A's

No mercado de fusões e aquisições (M&A), o diagnóstico do Bradesco BBI é de um cenário dividido entre dois extremos. De um lado, ativos considerados de alta qualidade continuam atraindo capital, sobretudo de investidores estrangeiros.

Do outro, empresas mais alavancadas recorrem à venda de ativos, fusões ou reestruturações para enfrentar um ambiente de juros elevados.

Segundo o banco, infraestrutura concentra hoje as operações mais robustas do mercado. Portos, transmissoras de energia, data centers e outros ativos com receitas previsíveis seguem despertando o interesse de investidores estratégicos e fundos internacionais, impulsionando transações frequentemente bilionárias.

Fora desse universo, a lógica é diferente. O mercado passou a operar como um verdadeiro "buyer's market", em que há mais vendedores do que compradores dispostos a fechar negócios.

Com o custo do capital elevado, empresas endividadas passaram a buscar alternativas para reforçar o caixa, enquanto compradores ganharam maior poder de negociação.

"O dinheiro está valendo muito. Quem precisa vender acaba sendo mais pragmático e aceitando descontos que talvez não aceitasse em outro ciclo", afirmou Costa e Silva.

Essa mudança também alterou a forma como as empresas estruturam aquisições. Em ciclos anteriores, era comum financiar uma compra com empréstimos de curto prazo apostando na realização de um IPO ou follow-on logo em seguida. Hoje, essa estratégia praticamente desapareceu.

"Ninguém está mais contando com a sorte. As empresas fazem aquisições que conseguem financiar sem depender da abertura de uma janela de mercado", disse Costa e Silva.

Na avaliação do banco, setores como varejo e educação estão entre os mais pressionados, negociando próximos dos menores valuations de sua história e convivendo com expectativas recorrentes de consolidação.

Para os próximos meses, porém, a expectativa é de que o mercado continue altamente seletivo. A combinação entre juros elevados, incertezas fiscais no Brasil e o calendário eleitoral nos Estados Unidos deve manter elevada a volatilidade e exigir ainda mais disciplina financeira tanto de compradores quanto de vendedores.

O interesse gringo no Brasil vai voltar?

Outro fator decisivo para a reabertura do mercado de capitais é o retorno do investidor estrangeiro. Na avaliação do Bradesco BBI, o interesse pelo Brasil nunca desapareceu, mas foi ofuscado pelo forte fluxo de recursos direcionado às empresas americanas ligadas à inteligência artificial, como a SpaceX.

Nos primeiros quatro meses do ano, a bolsa brasileira recebeu cerca de R$ 70 bilhões em capital estrangeiro. Embora parte desse movimento tenha sido revertida, o banco avalia que o Brasil continua ocupando um papel estratégico na alocação global de portfólios.

Em um cenário de elevada concentração dos investimentos em tecnologia, o mercado brasileiro oferece uma combinação rara de diversificação setorial, exposição a commodities, infraestrutura, sistema financeiro e empresas voltadas ao consumo doméstico.

"O Brasil continua sendo uma peça importante na composição de portfólio do investidor global. É um mercado multissetorial, que ajuda a diversificar uma carteira hoje muito concentrada em tecnologia", diz Costa e Silva.

Outro fator que mantém o país no radar é o preço dos ativos. Segundo o banco, a bolsa brasileira negocia perto de oito vezes o lucro das empresas, um desconto relevante em relação à média histórica e até mesmo a períodos marcados por crises políticas e institucionais.

AutorBia Azevedo
FonteSeu Dinheiro
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