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16/06/2026
8 min

Não é só o Brasil: emergentes perdem dinheiro gringo, mas fim da guerra abre janela

Não é só o Brasil: emergentes perdem dinheiro gringo, mas fim da guerra abre janela

Quem olhava para o Ibovespa no fim de abril via uma bolsa que acumulava ganhos de dois dígitos em 2026. Mas poucas semanas depois, a fotografia mudou. Em maio, o principal índice acionário da B3 fechou em queda de 7%, a pior desde fevereiro de 2023, e, nos primeiros 14 dias de junho, manteve o movimento de correção, acumulando seis sessões de perdas. A princípio, o recuo pode parecer resultado de fatores domésticos. Mas os números mostram que o Brasil não está sozinho.

De México a Peru, passando por Chile e Índia, diversas bolsas emergentes perderam tração nos últimos meses, levantando dúvidas sobre a continuidade da realocação global de recursos que favoreceu esses mercados no início do ano.

Levantamento da Elos Ayta indica que, após um janeiro de forte valorização — quando Brasil (+12,56%), Colômbia (+19,67%) e Peru (+21,78%)lideraram os ganhos entre os emergentes —, os mercados passaram a enfrentar maior volatilidade a partir de abril.

Em maio, enquanto o Brasil teve o pior desempenho em três anos, o índice Ftse China 50 teve uma queda de 3,47%, e o Hang Seng Index, também chinês, recuou 2,31%. O Ipsa, do Chile, também apresentou queda de 1,10%.

Nos dez primeiros dias de junho, o desempenho negativo é generalizado, com México acumulando queda de 5,49%, o Peru recuando 3,91%, o Brasil perdendo 2,97% e o Chile caindo 3,13%. A Colômbia aparecia como uma das poucas exceções positivas.

A mudança de direção levanta uma dúvida importante para os investidores: a realocação global que vinha favorecendo mercados emergentes e setores ligados à economia tradicional, como commodities, petróleo e mineração, chegou ao fim ou apenas entrou em uma pausa?

Para Luis Castro da Fonseca, sócio-fundador da Nest Asset Management, ainda é cedo para decretar o fim desse movimento. "Os emergentes tiveram performance melhor nos últimos 18 meses, e o Brasil se beneficiou desse movimento. Ainda é muito cedo para dizer se estamos diante do início de um novo ciclo de vários anos ou apenas de uma pausa no movimento anterior", afirma.

Segundo o gestor, a acomodação observada nos últimos meses não é necessariamente um sinal de reversão estrutural.

"Em 2025, os emergentes tiveram desempenho superior aos desenvolvidos no primeiro trimestre e depois passaram a andar em linha com o S&P 500. Em 2026 aconteceu exatamente a mesma coisa. Esse tipo de pausa é normal, mesmo quando a direção principal do movimento continua a mesma", diz.

Fonseca avalia que a desaceleração dos fluxos internacionais é consequência natural da perda de desempenho relativo dos emergentes.

"O fluxo de investimentos costuma acompanhar a performance dos mercados. É natural que apresente uma acomodação quando a performance piora. Da mesma forma que ainda é cedo para dizer que o movimento de valorização dos emergentes acabou, também é cedo para afirmar que os fluxos se reverteram", afirma.

A leitura é semelhante à do JP Morgan. Segundo relatório recente do maior banco estadunidense, os mercados emergentes registraram saídas de aproximadamente US$ 215 bilhões após o agravamento das tensões no Oriente Médio, volume comparável ao observado durante o chamado "Dia da Libertação", no ano passado, quando as tarifas anunciadas pelo presidente Donald Trump provocaram forte turbulência global.

As retiradas ficaram concentradas principalmente em mercados como Índia e Brasil. Ainda assim, o JP Morgan avalia que não houve um choque sistêmico para o universo emergente e acredita que os fluxos podem voltar a apresentar entradas líquidas caso a percepção de risco global diminua.

A instituição alerta, porém, que juros elevados nos Estados Unidos e um dólar mais forte continuam sendo obstáculos para uma recuperação mais consistente.

Tecnologia volta ao centro das atenções

Mas os fatores macros não são o único obstáculo para as bolsas de países emergentes. Se no início do ano o mercado parecia premiar ativos ligados à economia real, commodities e empresas consideradas mais baratas, a partir de abril oprotagonismo voltou a migrar para o setor de tecnologia.

Na avaliação de Fonseca, isso ajuda a explicar por que alguns mercados emergentes têm se mostrado mais resilientes que outros. "Sem dúvida nenhuma, mercados mais expostos à tecnologia, como Coreia do Sul e Taiwan, tendem a se beneficiar desse movimento de rotação de volta em direção às empresas de tecnologia", afirma.

A avaliação é compartilhada por Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil Wealth Management. Segundo Carlier, tratar os emergentes como uma única classe de ativos pode esconder diferenças importantes. "Hoje é uma simplificação excessiva falar de emergentes como uma categoria única. É preciso olhar a composição das bolsas. Há países mais expostos ao petróleo e outros muito mais ligados à tecnologia", afirma.

O codiretor da Azimut observa que o desempenho recente da Coreia do Sul ilustra bem essa diferença. "Se tecnologia vai bem, a Coreia tende a capturar mais esse movimento. O Brasil foi beneficiado no início do conflito porque é exportador líquido de petróleo. Já a Coreia é importadora. Dependendo do cenário predominante, os ganhadores relativos mudam."

Carlier diz que a força das empresas ligadas à inteligência artificial continua sendo um dos principais fatores globais de atração de capital. "O tema tecnologia é estrutural. Estamos vivendo o maior ciclo de investimentos da história em inteligência artificial e infraestrutura digital. Isso tem impacto direto na alocação global de recursos", afirma.

A busca por commodities acabou?

Por outro lado, os dados dos mercados não sugerem um abandono completo dos ativos ligados à economia tradicional, embora indiquem uma perda de intensidade da rotação observada no começo do ano.

Para Fonseca, o movimento ainda não se tornou mais seletivo. "Em nossa visão, ele não afetou alguns emergentes mais do que outros. O movimento atingiu todos os países emergentes da mesma maneira. Aqueles que tiveram melhor desempenho foram beneficiados principalmente por fatores locais, políticos ou estruturais", afirma.

Entre os países que demonstraram maior resiliência após o primeiro trimestre, o gestor da Nest cita Coreia do Sul, Argentina, Colômbia e Israel.

O que muda com o acordo entre EUA e Irã

A principal novidade para os mercados nesta semana é oacordo firmado entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio. O entendimento foi anunciado neste domingo, 14, e nesta segunda, 15, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seu vice-presidente, JD Vance, e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, negociador do Irã, assinaram eletronicamente um acordo para pôr fim à guerra.

O anúncio ocorre justamente quando a escalada geopolítica vinha sendo apontada como um dos principais fatores por trás da interrupção do fluxo para mercados emergentes. Para Carlier, o choque provocado pela guerra iniciada em 28 de fevereiro passou primeiro pelo petróleo e depois contaminou expectativas de inflação e juros.

"A guerra gerou um choque de oferta no petróleo. Com o petróleo mais alto, pioraram as expectativas de inflação e o mercado passou a reduzir as apostas de corte de juros. Esse foi um dos fatores que interromperam o cenário positivo para os emergentes", afirma.

Segundo o codiretor da Azimut, a redução das tensões pode recolocar em funcionamento a sequência que favorecia países como o Brasil no início do ano.

"No curtíssimo prazo, um alívio geopolítico ajuda o petróleo a recuar. Isso melhora a percepção para a inflação e abre espaço para a retomada dos ciclos de corte de juros, principalmente lá fora. Se essa trajetória se confirmar, voltamos para um cenário que beneficiava mais os ativos emergentes", diz.

O impacto, porém, não deve ser imediato. Mesmo com o acordo, gestores destacam que os investidores continuarão observando a trajetória dos juros americanos, do dólar e do crescimento global antes de ampliar posições em mercados emergentes.

O que será dos emergentes daqui para frente

Para os gestores, o próximo capítulo da história dependerá menos da guerra em si e mais da combinação entre tecnologia, juros americanos e dólar. Fonseca acredita que a principal variável para uma nova onda de investimentos em emergentes pode ser justamente uma mudança de percepção sobre o setor de inteligência artificial nos Estados Unidos.

"Boa parte do fluxo em direção aos emergentes veio do reconhecimento de que as empresas de tecnologia negociam a múltiplos muito elevados. Entre os fatores listados, a desconfiança com os investimentos em IA nos EUA seria o principal catalisador para uma nova migração de capital", afirma o gestor da Nest Asset.

Já Carlier avalia que um eventual enfraquecimento do dólar também teria potencial para favorecer uma retomada mais ampla.

"Se tivermos um tema macro dominante, como a desvalorização do dólar, o fluxo tende a voltar para os emergentes de forma mais generalizada. Depois disso, os investidores passam a escolher quais países estão melhor posicionados, seja por petróleo, tecnologia ou outros fatores locais."

No caso do Brasil, o codiretor da Azimut aponta que os desafios não são apenas externos. Mesmo em um ambiente global mais favorável, o país enfrenta obstáculos domésticos que podem limitar a recuperação da bolsa.

"Há nesse momento também uma discussão de pressão fiscal e uma discussão de cenário eleitoral. A pressão de gastos é grande e eu acredito que o tempo não colabora na parte fiscal e no eleitoral para o Brasil", diz. Além disso, Carlier chama atenção para riscos adicionais, como o El Niño.

"Se ele vier com intensidade alta, pode afetar energia e alimentos de forma relevante. Já passamos por um choque de oferta com a guerra, que tende a se dissipar, mas pode surgir um novo choque de oferta vindo do clima. Esse tipo de evento é mais imprevisível, porque um choque climático é muito difícil de antecipar em termos de timing e intensidade", afirmou.

AutorClara Assunção
FonteExame
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