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Sacre Investimentos
EmpresasACS
25/06/2026
6 min

Não é só o Pão de Açúcar: em crise, rede premium St Marche pede recuperação judicial; o que acontece com o setor?

Não é só o Pão de Açúcar: em crise, rede premium St Marche pede recuperação judicial; o que acontece com o setor?

Depois de crescer de forma acelerada durante a pandemia, época em que os juros estavam em patamares historicamente baixos, essa companhia passou a sentir dificuldades financeiras com o aumento da Selic, atrasou pagamentos e, para impedir que sua operação quebre, entrou com um pedido de recuperação judicial.

Essa poderia ser a histórica de diversas empresas brasileiras, que apresentaram a mesma argumentação nos últimos meses, mas neste caso trata-se do grupo dono da rede St Marche, de supermercados premium.

Ao mesmo tempo em que anunciou sua aquisição pelo grupo chileno Cencosud, por meio de uma subsidiária brasileira, a rede apresentou o seu pedido de recuperação judicial à Justiça. As dívidas são de R$ 574,3 milhões.

A urgência do pedido de recuperação judicial

A companhia já passou por uma recuperação extrajudicial no ano passado, que acabou sendo cancelado pela Justiça. No entanto, disse em documento que o processo foi exitoso, "possibilitando a obtenção de recursos para pagamento de fornecedores e, consequentemente, o retorno do fluxo de clientes às lojas".

No entanto, ela ainda não tinha recursos o suficiente para continuar cumprindo todas as suas organizações financeiras e estava em atraso em alguns pagamentos.

Por isso, a RJ, além da suspensão da execução das dívidas, é "urgente e necessário", diz a rede. Na petição, o Hortus relata que enfrenta diversas ações de cobrança, execuções judiciais e bloqueios sobre recebíveis de cartões de crédito, situação que, segundo a companhia, ameaça seu fluxo de caixa e pode comprometer a continuidade das operações.

Ela afirma que a aquisição seria a única forma viável. Depois de um processo competitivo privado, a empresa diz que a Cencosud Brasil Comercial, subsidiária brasileira de uma das maiores redes de varejo alimentar da América Latina, apresentou a proposta mais viável.

A aquisição da rede brasileira pelo grupo chileno foi divulgada ontem. Com a operação, a empresa receberá cerca de R$ 25 milhões para pagamento dos interessados.

Além da Hortus Comércio de Alimentos, o pedido de recuperação abrange outras subordinadas:

  • Alimentum Esm Restaurante Ltda.
  • Astrum Comércio de Alimentos Ltda.
  • Fides Comércio de Alimentos Ltda.
  • Fortis Comércio de Alimentos Ltda.
  • Santa Maria Empório Ltda.
  • Sanctus Comércio de Alimentos Ltda.
  • Via Comércio de Alimentos Ltda.
  • Virtus Comércio de Alimentos Ltda.
  • Brandco Administração e Licenciamento de Marcas Ltda.

Um trunfo para a Cencosud

A aquisição pode fortalecer o posicionamento da Cencosud no Brasil, mas tem uma boa dose de desafios.

A St. Marche atua em um nicho urbano de alta renda em São Paulo, com foco em um sortimento diferenciado, categorias frescas e varejo experiencial, "atributos que estão alinhados a um segmento crescente de consumidores brasileiros de alta renda que buscam qualidade, conveniência e uma experiência de compra com maior curadoria", diz o BTG Pactual em relatório.

Do ponto de vista estratégico, a operação se encaixa na proposta de valor mais ampla da Cencosud de operar portfólios de varejo multiformato. Além disso, o grupo chileno já tem experiência no formato premium com outras marcas.

"Ao incorporar a St Marche, a empresa adiciona uma bandeira premium que complementa seus formatos já existentes de supermercados e atacarejo", que pode trazer margens mais altas, reforçar a percepção de marca e ampliar a presença nas áreas mais ricas de São Paulo, diz o banco.

O desafio para o mercado

Outras companhias do mesmo segmento passam por dificuldades.

A rede Natural da Terra, da Americanas, está em processo de venda. Em maio, a varejista vendeu 10 lojas deficitárias da rede Hortifruti Natural da Terra (HNT) localizadas no estado de São Paulo para o grupo Oba Hortifruti a R$ 69,3 milhões. No total, são 16 unidades no estado, de um total de mais de 60 lojas na região sudeste do país.

Já em maio, o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), que também opera supermercados mais premium, pediu recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 4,568 bilhões.

A história do Grupo Hortus, dono do St Marche

O Grupo Hortus, dono da rede St Marche, iniciou suas operações há mais de 20 anos, com a inauguração da primeira loja St. Marche no bairro do Morumbi, em São Paulo.

Em 2007, deu um passo importante em sua expansão ao adquirir o Empório Santa Maria, tradicional mercado gourmet fundado em 1993 pela família Piva Albuquerque.

Nos anos seguintes, a companhia acelerou o crescimento. Entre julho de 2021 e agosto de 2023, em meio ao forte desempenho do varejo alimentar durante a pandemia e com juros básicos ao redor dos 2%, ampliou sua rede de 21 para 33 lojas St. Marche, com investimentos superiores a R$ 120 milhões.

A expansão impulsionou o faturamento do grupo, que passou de cerca de R$ 100 milhões em 2010 para R$ 724 milhões em 2019 e alcançou aproximadamente R$ 1 bilhão em 2025.

Atualmente, o Grupo Hortus reúne 32 lojas St. Marche, uma unidade do Empório Santa Maria, um centro de distribuição e um escritório central, empregando cerca de 2,1 mil pessoas.

Em 2024, o grupo também promoveu uma reorganização societária ao criar a empresa Empório Santa Maria, que passou a concentrar os ativos ligados à rede gourmet, como a marca e imóveis, em um CNPJ próprio. Segundo a companhia, a medida buscava preservar a possibilidade de uma eventual venda da operação no futuro.

O pedido de recuperação judicial

No pedido de recuperação judicial, o Grupo Hortus atribui a deterioração financeira principalmente ao ciclo de alta dos juros. Isso coincidiu com o período de maturação das novas lojas abertas nos últimos anos, que levam de quatro a cinco anos para chegar à maturidade.

No fim de 2023, o grupo interrompeu o plano de expansão e cancelou novas inaugurações. A decisão, porém, gerou despesas adicionais, como multas contratuais e custos de manutenção de imóveis alugados que deixaram de receber lojas.

A companhia também cita o aumento dos custos de alimentos e combustíveis, a perda de poder de compra dos consumidores e a redução das vendas em supermercados de vizinhança como fatores que agravaram sua situação financeira.

O grupo afirma ainda que tentou reequilibrar suas finanças por meio de um plano de recuperação extrajudicial, que possibilitou a obtenção de financiamento DIP e o pagamento de fornecedores. No entanto, segundo a empresa, a medida não foi suficiente para solucionar obrigações que ficaram fora daquele acordo.

AutorKarin Salomão
FonteSeu Dinheiro
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