‘Não era para termos esse nível de endividamento no Brasil’, diz CEO do Assaí

Os juros elevados não são os únicos vilões do consumo brasileiro, na visão de Belmiro Gomes, CEO do Assaí. Para o executivo, que lidera a companhia desde 2011, a combinação entre crédito caro, desigualdade social e a popularização das apostas esportivas tem criado uma pressão inédita sobre o orçamento das famílias.
"Não era para termos esse nível de endividamento no Brasil", afirma o executivo em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME.
Na avaliação de Belmiro, os atuais níveis de inadimplência e comprometimento da renda não são compatíveis com um cenário de mercado de trabalho aquecido e programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola.
"Não era para termos 80% da população endividada. Parte disso tem a ver com o hábito das apostas", diz.
Juros altos ampliam desigualdade
Para o executivo, a Selic em patamares elevados acaba aprofundando as diferenças entre quem possui patrimônio financeiro e quem depende de crédito.
"Talvez hoje o Brasil esteja, tirando a Rússia que está em guerra, com a maior taxa de juro real do mundo", afirma.
Segundo Gomes, embora os juros elevados tenham impacto sobre as empresas, o maior custo é social.
"O impacto dos juros altos para as companhias existe, mas talvez o custo maior seja para a sociedade. O juro alto por muito tempo aumenta a desigualdade social", diz. "Quem tem patrimônio financeiro se beneficia dos juros altos. Quem depende de crédito paga essa conta."
Na visão do CEO do Assaí, o fenômeno já pode ser observado no comportamento do consumo.
"Os formatos que atendem a alta renda cresceram 4%. Os formatos voltados para baixa renda caíram 9%. Há um delta de 13%, algo que não víamos há muitos anos", afirma.
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Bets se tornaram concorrentes do varejo
Belmiro acredita que as apostas esportivas passaram a disputar diretamente a renda disponível dos brasileiros.
"Na medida em que o juro aperta, a pessoa cria uma expectativa com a aposta. Isso tem levado ao aumento do endividamento", afirma.
O Brasil, na visão do executivo, se tornou um dos maiores mercados do mundo para as plataformas de apostas.
"O Brasil é o país que tem mais acesso a sites de apostas no mundo, mais do que Estados Unidos, Inglaterra e Turquia juntos", afirma.
Para ele, o impacto das bets vai além da economia.
"Além do estrago que isso tem feito na população, é um setor que hoje tem uma capacidade de investimento em mídia praticamente impossível de ser acompanhada pela maioria das empresas", diz.
Assaí atende principalmente as classes de renda média e baixa e cerca de 1 milhão de pequenos empreendedores (Germano Lüders/Exame)
O consumidor mais pressionado
A preocupação de Gomes ganha peso porque o Assaí atende principalmente as classes de renda média e baixa e cerca de 1 milhão de pequenos empreendedores. Tanto que o sobrenome “Atacadista” está sendo deixado de lado aos poucos para que clientes B2C procurem mais pelo atacarejo.
Hoje, a companhia recebe aproximadamente 40 milhões de consumidores por mês em suas mais de 300 lojas. Apesar do ambiente mais desafiador, o executivo acredita que o país continuará encontrando caminhos para crescer. No caso do Assaí, a saída é continuar inovação neste setor competitivo. Para este ano, a companhia irá lançar mais de 200 farmácias, sistema financeiro e até postos de combustíveis.
Diante da dívida bilionária por conta da compra de 66 pontos do Extra, o Assaí fará uma expansão mais controlada. Ao invés de abrir 15 lojas neste ano, conforme previsto no plano, serão abertas 5 unidades do Assaí em São Paulo.
O comportamento das famílias, segundo Gomes, se transformou em um termômetro da economia brasileira. Diante do cenário, ele alerta que o desafio para o país não é apenas voltar a crescer, mas garantir que esse crescimento seja acompanhado por uma população menos endividada e com maior capacidade de consumo.
"O consumidor continua comprando, mas ele está mais pressionado. O cenário exige atenção", afirma.
