“Não se ganha dinheiro comprando o que é popular”: onde a Inter Asset está vendo pechinchas na bolsa brasileira
Em entrevista ao Seu Dinheiro, Daniel Castro e Rafael Maciel contam como a gestora está se posicionando em meio aos juros altos e à eleição no radar

“A mola está muito comprimida. Não se ganha dinheiro comprando o que é popular.” É assim que Daniel Castro, CEO da Inter Asset, descreve o momento da bolsa brasileira.
Com juros elevados, incertezas fiscais e a eleição de 2026 no radar, a renda variável perdeu espaço nas carteiras — e, para a gestora, justamente por isso começaram a aparecer ações negociadas abaixo do que seus fundamentos sugerem.
Segundo Castro, a exposição de fundos de pensão à bolsa está em torno de 6%, entre os menores níveis dos últimos 25 anos. Enquanto o dinheiro migrou para renda fixa e crédito, beneficiados pelos juros altos, algumas ações ficaram praticamente esquecidas.
“Na renda variável ocorre o oposto: há ativos largados com preços irracionais”, afirmou o executivo, em entrevista ao Seu Dinheiro.
É nesse terreno que Rafael Maciel, gestor de renda variável da Inter Asset, procura oportunidades. Em vez de tentar adivinhar o próximo movimento do Ibovespa, a estratégia é olhar empresa por empresa — e separar as que apenas ficaram baratas daquelas que realmente perderam valor.
“Nosso trabalho é de detetive ou garimpo, estudando os negócios, os empresários e seus planos para entender para onde as empresas estão caminhando, se estão melhorando ou piorando, e se o macro vai pesar muito”, afirmou.
A lógica é aproveitar o desconforto do mercado sem transformar a carteira em uma aposta no próximo ciclo.
“Em momentos difíceis, a tendência é se retrair e, com juros em patamares muito altos, vemos uma alocação em ações muito baixa. Consequentemente, é um mercado bom para compradores de longo prazo”, disse Maciel.
Onde a Inter Asset está garimpando na bolsa
A Inter Asset administra cerca de R$ 24 bilhões em ativos sob gestão e pretende crescer entre 25% e 30% ao ano, segundo Castro.
A estratégia é distribuir o negócio entre renda fixa, crédito, real estate, FIDCs e renda variável, para não depender de um único cenário de mercado.
Na bolsa, duas estratégias concentram o trabalho de Maciel: os fundos Inter Dividendos e Inter Valor.
O primeiro reúne dez empresas com capacidade de devolver capital aos acionistas por meio de dividendos, juros sobre capital próprio ou recompras.
O fundo completa cinco anos em fevereiro e, segundo o gestor, acumulou valorização de cerca de 150% nos últimos 12 meses. Já a capacidade de alocação estimada pela gestora supera R$ 3 bilhões.
Enquanto isso, o Inter Valor tem 23 ações na carteira e busca empresas negociadas abaixo do que a gestora considera seu valor justo. A diferença entre preço e valor é o ponto de partida — mas com uma condição.
“Nosso foco primário é não perder dinheiro”, afirmou Maciel.
As apostas da gestora em ações
Entre as posições citadas estão Petrobras (PETR4), Vibra (VBBR3) e Allos (ALOS3), presentes em uma ou nas duas estratégias.
Na Vibra, a tese passa pela dinâmica do mercado de combustíveis. Segundo Maciel, a menor importação de diesel pela Petrobras pode limitar a oferta e favorecer distribuidoras como a empresa.
“A oferta de combustível fica limitada no país porque a Petrobras não tem acompanhado a paridade internacional, reduzindo a importação de diesel. As distribuidoras locais ganham com isso e estamos investidos na Vibra”, afirmou.
Na Allos, o argumento é outro: uma diferença entre o valor dos ativos de shopping centers e o preço atribuído à companhia na bolsa.
Maciel cita negociações no mercado privado em que participações em shoppings chegaram a ser avaliadas por cerca do dobro do valor implícito na cotação da empresa.
“Ou estão vendendo muito caro no privado para players especialistas do setor... ou está muito barato na bolsa, que é o que entendemos”, disse.
No varejo, C&A (CEAB3) e Grupo Mateus (GMAT3) também aparecem entre as escolhas, mas a gestora não vê uma oportunidade generalizada no setor. A regra é não confundir queda de preço com barganha.
“Não estamos em negócios que não entendemos ou onde a gestão não é confiável. Evitamos risco de perda permanente de capital”, afirmou Maciel.
Eleição deve mexer com a bolsa brasileira, mas não dita as compras
A eleição entra naturalmente no radar de quem investe em Brasil, mas a Inter Asset diz não querer transformar a carteira em uma aposta binária sobre o resultado.
Para Maciel, o ponto mais importante é o caminho fiscal que vier depois. “O ponto central é a questão fiscal. Falta uma discussão séria de propostas”, afirmou.
Castro é mais cauteloso sobre o cenário. “A preocupação é sobre o próprio país que teremos. Estamos próximos do precipício e os preços refletem isso.”
Na avaliação do CEO, uma piora da percepção sobre as contas públicas poderia provocar uma reação dos investidores estrangeiros, pressionando câmbio e juros.
“Se o Brasil caminhar para o lado errado, o investidor global pode não ser complacente.”
Nesse caso, a gestora diz que tende a aumentar a defesa das carteiras e priorizar empresas consideradas mais resilientes.
Ainda assim, o ambiente difícil não é necessariamente um problema para a estratégia de stock picking da casa — pode ser justamente o que cria as distorções que ela procura.
“Não ficou [mais difícil fazer stock picking], porque com o mercado largado encontramos muita coisa barata. É o mercado de que gostamos”, disse Maciel. “O momento difícil é na euforia, quando tudo está caro e precisamos nos amarrar ao mastro para manter nossa filosofia.”
