Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
04/11/2026
6 min

'Não somos imunes', diz CEO do Itaú sobre piora da economia em 2027

Banco vê 2027 com menos crescimento, mais desemprego e juros altos, diz Milton Maluhy Filho

'Não somos imunes', diz CEO do Itaú sobre piora da economia em 2027
  • Milton Maluhy, CEO do Itaú, vê 2027 com menos crescimento, mais desemprego e juros altos por mais tempo
  • Banco aposta em provisões rápidas e numa carteira concentrada em clientes mais resilientes e com garantias
  • Demanda por crédito já cai em todos os segmentos, e grandes empresas adiam investimentos
  • Itaú lucrou R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre, com ROE de 23,6%

O CEO do Itaú Unibanco (ITUB4), Milton Maluhy, afirmou nesta quarta-feira, 4, que o banco enxerga um cenário econômico mais difícil em 2027, com menos crescimento, aumento do desemprego e juros em patamar restritivo por um período mais longo. "Não somos imunes, naturalmente", disse o executivo em entrevista coletiva sobre os resultados do terceiro trimestre.

Maluhy descreveu um quadro de deterioração para o ano que vem. "Olhando para frente, as condições econômicas são piores quando a gente olha o cenário de 2027", afirmou. "Os economistas estão todos revisando suas projeções de PIB para o ano que vem, então, possivelmente, teremos menos crescimento e, possivelmente, aumento do desemprego."

Segundo o CEO, o problema é que famílias e empresas já chegam pressionadas a esse cenário. "A gente imagina juros num patamar restritivo por um prazo mais prolongado. Tudo isso, aliado a uma economia em que as famílias já estão com comprometimento de renda mais alto e as empresas precisando se refinanciar numa taxa de juros mais elevada. É claro que desperta preocupações em relação ao cenário que vem para 2027", disse.

A estratégia do Itaú para atravessar 2027

Mesmo com o diagnóstico negativo, Maluhy repetiu a mensagem que, segundo ele, tem levado a todas as teleconferências de resultados. "Eu acho que a gente nunca esteve tão preparado para enfrentar qualquer que seja o cenário", afirmou.

O executivo apontou dois pilares para isso. O primeiro é um balanço com provisões adequadas em todos os segmentos. "Tão importante quanto os indicadores de atraso são as provisões que a gente tem no balanço", disse. O segundo é a rapidez em reconhecer perdas. "Se a gente percebe uma deterioração, num caso específico de grandes empresas, ou pelos modelos do varejo, a velocidade de provisionamento do banco é muito grande, é muito rápida."

Maluhy também destacou a composição da carteira de crédito, de R$ 1,5 trilhão, sendo R$ 1,3 trilhão no Brasil. Segundo ele, o portfólio está concentrado nos clientes mais resilientes, com produtos de maior garantia no varejo e, no atacado, com garantias onde é necessário, como no agronegócio. "Não estamos imunes, nunca fomos imunes, mas acho que o banco tem entregado resultados consistentes", disse.

O CEO afirmou que os resultados atuais são fruto de uma estratégia definida anos atrás, de crescer com disciplina e evitar o que chamou de movimentos pendulares, "em que você cresce muito rápido, depois desacelera muito rápido". Ele disse ainda que, para clientes com comprometimento de renda muito alto, muitas vezes o melhor é oferecer uma solução, e não mais um produto.

Inadimplência do Itaú é metade da do mercado

Os números do trimestre mostram uma inadimplência ainda controlada, mas com sinais de pressão. O índice de atrasos acima de 90 dias subiu 0,1 ponto percentual no trimestre, para 2,0% no consolidado. No Brasil, ficou em 2,1%. Entre pessoas físicas, a taxa foi de 3,7%, estável há quase dois anos.

Em micro, pequenas e médias empresas, os atrasos acima de 90 dias chegaram a 2,1%, alta de 0,1 ponto no trimestre. O banco atribui o movimento ao fim das carências dos programas governamentais de crédito, efeito que, segundo o Itaú, já vinha sendo sinalizado.

Na coletiva, o banco apresentou uma comparação inédita com o restante do sistema, a partir de dados do Banco Central. Em setembro, o atraso acima de 15 dias da carteira de pessoas físicas do Itaú era de 6,7%, ante 13,1% do mercado sem o Itaú. Em dezembro de 2019, os números eram de 7,9% e 10%, respectivamente. Em pessoas jurídicas, a relação é parecida, com 2,9% no Itaú e 5,8% no restante do mercado.

O Itaú também mostrou que provisiona as perdas mais cedo do que exige a regra. Na carteira de pessoas físicas, sem o crédito imobiliário, o banco reserva 58% do saldo de um empréstimo com 31 a 60 dias de atraso. Pelos pisos mínimos do Banco Central para os maiores bancos, uma provisão de 60% só é obrigatória a partir de 181 dias de atraso.

O custo do crédito, que reúne as despesas com perdas esperadas, somou R$ 10,4 bilhões no trimestre, alta de 10,2% em relação ao mesmo período de 2025.

"Nem conservador, nem agressivo"

Questionado pela EXAME sobre o quanto o banco, líder em rentabilidade entre os grandes, estaria disposto a abrir mão de retorno diante de um cenário mais adverso, Maluhy disse que a gestão do Itaú é orientada pela criação de valor, ou seja, pela diferença entre o retorno e o custo de capital.

Segundo ele, esse custo subiu recentemente, por causa da dinâmica e da volatilidade do mercado. O executivo afirmou que o crédito vem operando ligeiramente acima do custo de capital, e que o restante da rentabilidade do banco vem de serviços, seguros e venda cruzada de produtos.

O CEO disse que o banco já observa uma redução importante da demanda por crédito em todos os segmentos. "Em grandes empresas, quanto mais incerteza, mais a demanda se reduz. Os empresários acabam encurtando muito o prazo dos seus créditos, olhando para operações de capital de giro, acabam postergando investimentos até ter mais definições", afirmou.

"Eu acho que o nosso papel não é nem ser conservador, nem agressivo, é ser realista", disse Maluhy. "Conservador na gestão sempre. Ter um balanço sólido é o primeiro mandamento."

Corte de custos ganha peso com crescimento menor

Com menos espaço para expandir a carteira, a eficiência deve ganhar ainda mais importância. "Quando você olha para frente e vê um cenário mais desafiador, especialmente do ponto de vista de atividade, de crescimento de carteira, o exercício que só depende da gente fica do lado do custo", afirmou o CEO.

Maluhy disse que o banco vai continuar perseguindo essa disciplina, sem deixar de investir. "Não tem bala de prata em custo. É uma falsa ilusão de que tem uma alavanca que resolve", afirmou. Segundo ele, o programa de eficiência do banco passa por priorização, renúncias e tecnologia, incluindo o uso de inteligência artificial.

O índice de eficiência, que mede quanto das receitas é consumido pelas despesas, ficou em 37,5% no consolidado, o melhor para um terceiro trimestre, segundo o banco. Na operação brasileira, foi de 35,7%.

Lucro de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre

O Itaú registrou lucro recorrente gerencial de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre de 2026, alta de 2,5% sobre o trimestre anterior e de 6,7% em um ano, desconsiderando o efeito da venda da operação de varejo na Colômbia. O retorno sobre o patrimônio (ROE) foi de 23,6% no consolidado e de 24,5% no Brasil.

A carteira de crédito chegou a R$ 1,544 trilhão, com crescimento de 10,2% em 12 meses. O banco manteve as projeções para 2026, com exceção da alíquota efetiva de imposto, revisada de uma faixa entre 29,5% e 32,5% para entre 28% e 29%.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
Distribuído por