‘Não vai funcionar aumentar carga tributária, é preciso controlar gasto’, diz Mansueto
Apesar dos desafios fiscais que ainda pressionam a economia, o Brasil de hoje apresenta uma série de avanços em setores estratégicos que o colocam em uma posição muito diferente da observada há uma década

O Brasil não é mais o mesmo de 2015 e 2016, quando vivia uma “crise quase perfeita”, aponta Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual (mesmo grupo controlador da EXAME). Mas há um problema. “O cenário de Brasil hoje é muito melhor, mas há a questão fiscal”, disse durante o evento TRX Day, nesta quinta-feira, 20.
Para ele, aumentar o resultado primário através do aumento da carga tributária “não vai funcionar”. "O desafio do Brasil é controlar o crescimento de gasto e, ao controlar o crescimento do gasto, nós poderemos ter taxas de juros razoáveis como nós tínhamos há poucos anos. Não vai funcionar aumentar carga tributária, é preciso controlar gasto”, explicou.
Os juros, que estão em patamares elevados, a 14%, devem terminar 2026 em 13,75% pelas expectativas do mercado, o que é extremamente elevado. “O Brasil tem hoje a maior taxa de juros do mundo e, independentemente de quem seja o presidente da República, nós teremos mais uma vez o juro acima de 10% no ano que vem”, comentou.
Mas, com o controle dos gastos, essas taxas de juros poderão ser reduzidas e chegar num patamar razoável. “E com um juro baixo, a gente vai ter uma recuperação no mercado de capitais, o aumento do valor das empresas, uma valorização das cotas dos fundos imobiliários, um cenário muito mais positivo.”
O resultado disso é que o juro alto machuca a economia. “2027 será o pior ano de crescimento do Brasil desde a pandemia. Pós-pandemia, de 2021 a 2025, o Brasil teve um crescimento médio do PIB de 3,3%. Próximo ano, um cenário otimista é o Brasil crescer 1%”, complementou Mansueto.
O Brasil que melhorou
Apesar dos desafios fiscais que ainda pressionam a economia, o Brasil de hoje apresenta uma série de avanços em setores estratégicos que o colocam em uma posição muito diferente da observada há uma década. É essa avaliação que faz Mansueto, ao destacar a evolução da produção de petróleo, da agricultura e dos investimentos em infraestrutura.
Na indústria de petróleo, a produção brasileira cresceu 25% nos últimos dois anos. O país deve encerrar este ano com saldo comercial de US$ 85 bilhões, dos quais US$ 45 bilhões vêm do setor de petróleo. Há 12 anos, o Brasil era importador líquido da commodity. Hoje, mais da metade do saldo comercial é gerado pelo setor.
A perspectiva também é de continuidade desse avanço. Segundo Mansueto, a produção e as exportações de petróleo devem continuar crescendo entre 2027 e 2032, mesmo sem a necessidade de perfurar um único poço novo.
Na agricultura, a transformação também foi expressiva. Há 20 anos, a produção agrícola brasileira era de aproximadamente 100 milhões de toneladas por ano. Hoje, está em torno de 320 milhões de toneladas, o que representa uma triplicação no período.
O avanço é ainda mais evidente quando se olha para o Mato Grosso. O estado, sozinho, produz atualmente mais de 100 milhões de toneladas de grãos — volume equivalente a toda a produção agrícola brasileira de duas décadas atrás.
Para Mansueto, grande parte dessa expansão veio do ganho de produtividade. Cerca de 70% do crescimento da agricultura brasileira nos últimos 40 anos veio desse fator. O setor mantém um crescimento consistente de produtividade, de pouco mais de 3% ao ano.
Mesmo em um ano considerado ruim, marcado pelo aumento das recuperações judiciais, a safra agrícola deve ficar próxima do recorde registrado no ano passado, segundo o economista. Uma eventual queda no próximo ano, em razão do El Niño, seria pontual, com retomada do crescimento na sequência.
A combinação desses fatores ganha importância em um cenário internacional marcado por conflitos geopolíticos. Na avaliação de Mansueto, o Brasil reúne três ativos estratégicos: segurança energética, commodities agrícolas e minerais de terras raras.
Infraestrutura também avançou
Além da força do agronegócio e do petróleo, Mansueto destaca as mudanças regulatórias ocorridas nos últimos dez anos, que ajudaram a ampliar o mercado de capitais e os investimentos em infraestrutura.
Um exemplo é o saneamento. Há 15 anos, os investimentos no setor dependiam majoritariamente de empresas estatais. “Se o Estado, dono da empresa estatal, na área de saneamento, não tivesse as finanças em ordem, a empresa não conseguia se endividar para fazer investimento de saneamento”, disse.
Com a mudança do marco regulatório do saneamento, há cinco anos, os investimentos no setor passaram a crescer ano após ano.
O mesmo movimento ocorreu nas rodovias. O país está terminando o atual governo com 30 concessões de rodovias federais, um recorde histórico, segundo Mansueto. Desde meados dos anos 1990, a média era de oito a 10 novas concessões em períodos de quatro anos.
Além das novas concessões, contratos antigos que geravam prejuízos às concessionárias foram renegociados, o que levou as empresas a voltarem a participar dos leilões de rodovias federais. Nos últimos anos, o processo também avançou em outros setores de infraestrutura nos estados, com novas concessões e a privatização de companhias estaduais importantes.
Diante desse conjunto de transformações, a avaliação de Mansueto é que o país está em uma posição muito mais favorável do que estava em 2015 e 2016.
O problema da questão fiscal
Mas, segundo ele, a questão fiscal voltou e pesa muito forte hoje em dia. “O motivo? Nós gastamos muito”, destacou durante o evento. Segundo ele, ao olhar o crescimento real do gasto público federal de 2014 a 2022, oito anos de Dilma, Temer e Bolsonaro, foi 9%. Nesses últimos quatro anos, esse número saltou para 21%.
Em 2023, com a aprovação da regra fiscal, o país estava em uma situação um pouco melhor. Mas, a partir de 2024, o cenário se deteriorou com a falta de credibilidade do arcabouço fiscal.
“Não quero culpar ninguém, mas o fato é, se a gente olha o juro real da NTN-B, a gente estima que mais ou menos 40% a 60% do crescimento dessa abertura da taxa decorreu de escolhas nossas que nos levou a um crescimento muito forte no gasto.”
De acordo com Mansueto, a a pergunta que tem que ser feita é: qual o momento a dívida pública do Brasil vai parar de crescer e entra numa trajetória de queda? “Com as regras que nós temos hoje, a gente não consegue responder essa pergunta. Isso dificulta o fechamento da curva de juros”, disse.
Por isso, o grande desafio para o próximo governo para mudar esse cenário não é simplesmente gerar superávit primário. “Esse governo teve um enorme sucesso em reduzir o déficit primário. No primeiro ano de Lula, o déficit primário foi 2,4% do PIB. A gente vai terminar esse ano com o déficit primário em torno de 0,5% do PIB. É uma melhora substancial de praticamente dois pontos do PIB.”
O problema é que a despesa cresceu 21% e o governo só conseguiu melhorar as contas aumentando a arrecadação. “Só que todo esse aumento de carga tributária e a arrecadação para melhorar o resultado primário, o governo perdeu integralmente no serviço da dívida pública”, pontuou.
O serviço da dívida pública do Brasil em 2023 foi cerca de 6% do PIB. O serviço da dívida pública neste ano será em torno de 8,5% do PIB. Já o déficit nominal médio do Brasil é cerca de 9% do PIB, 50% acima dos países que têm problema fiscal. “Isso leva a uma situação insustentável. Mas dá para consertar rapidamente? Dá”, ressalta o executivo.
Para Mansueto, o caminho é, novamente, o controle dos gastos. “Não é nem cortar despesa, é controlar o crescimento dos gastos”, apontou. Com isso acontecendo, pode haver um forte crescimento da Bolsa de valores e do valuation das empresas.
“Eu tenho plena confiança que, quem quer que seja o governo, nós avançaremos nessa agenda fiscal. Mas Talvez a gente avance mais ou menos, a depender da convicção da equipe econômica do presidente”, comentou.
Ele continua: “Se início do próximo governo, com um novo plano fiscal, o mercado conseguir enxergar que a dívida continuará crescendo, mas eventualmente, no final do próximo governo, não é nem no início, no final, a dívida para de crescer e começa a cair, imediatamente o juro cai.”
Por outro lado, pode haver uma piora se, após a eleição, não ficar claro qual será o plano fiscal.