Natura admite que esperava trimestre melhor: 'Faltaram produtos', diz CEO
Receita foi pressionada por vendas no Brasil que, por sua vez, foi reflexo de um problema de falta de produtos

A Natura (NATU3) esperava um segundo trimestre melhor. O resultado, porém, ficou aquém das expectativas da companhia — e, segundo o próprio CEO, João Paulo Ferreira, a principal explicação não está apenas no consumidor brasileiro mais fraco. Parte relevante da frustração veio de dentro de casa.
“O resultado frustrou nossas expectativas”, afirmou Ferreira durante coletiva sobre os resultados do segundo trimestre de 2026. Segundo o executivo, embora o mercado tenha apresentado “um consumo muito fraco”, a essência da frustração da companhia veio de “desafios internos” e problemas de execução.
O reflexo mais visível foi a falta de produtos no Brasil, que prejudicou as vendas das consultoras e contribuiu para uma queda da receita brasileira no trimestre. A parada operacional para implementação do SAP pressionou a cadeia de abastecimento e expôs falhas nos parâmetros de um sistema de planejamento implementado anteriormente, segundo o CEO.
“Isso gerou falta de produtos que, por sua vez, afetou muito a atividade das nossas consultoras na venda direta. Todas as consultoras foram afetadas. Os problemas foram internos, não foi um tipo de ruptura na cadeia de abastecimento, os fornecedores não tiveram problemas, foi interno”, afirmou o executivo ao reconhecer erros na empresa.
Franquias também passaram por mudanças
Mas a cadeia de abastecimento não foi o único fator interno que afetou o resultado. A Natura também concluiu a substituição dos contratos de franquia por um novo modelo baseado no chamado sell-out — as vendas efetivamente realizadas pelas lojas aos consumidores. A mudança buscou corrigir uma distorção herdada do período em que algumas consultoras de venda direta passaram a atuar como varejistas, segundo Ferreira.
Com os novos contratos, os franqueados passaram temporariamente a reduzir suas compras. “Isso fez com que os franqueados deixassem de comprar por um tempo para poder adequar os seus estoques ao mix ideal de vendas”, explicou Ferreira.
A crise de abastecimento afetou todas as marcas no Brasil, com a receita no mercado brasileiro recuando 14,8% na comparação anual, para R$ 3,07 bilhões. Marca Natura caiu 14,5%, enquanto a receita da Avon recuou 22,5% no país. Entretanto, os mercados hispânicos impediram uma queda mais acentuada. A receita da região ficou em R$ 2,1 bilhões, alta de 0,7% em reais na comparação anual e de 7,2% em moeda constante. Natura e Avon cresceram, nos mercados hispânicos, respectivamente, 5% e 1,4%.
Mais investimentos
Depois de alguns anos de subinvestimento, a Natura voltou a acelerar os investimentos no fim de 2024, em um movimento para preparar a companhia para um novo ciclo de crescimento. Entretanto, isso se refletiu nos números. “Voltamos a investir em muitas iniciativas complexas ao mesmo tempo. Isso, de alguma maneira, aumentou o perfil de risco de execução da empresa e se manifestou agora no Q2”, pontuou o CEO.
Mas, mesmo diante dos problemas registrados no trimestre, a Natura não pretende pisar no freio nos investimentos considerados importantes para o crescimento. “Para sustentar a nossa ambição anterior, nós teríamos que abrir mão de muitos investimentos que constroem o futuro. E estrategicamente a nossa decisão foi não abrir mão de todos esses investimentos”, afirmou Silvia Vilas Boas, CFO.
Com isso, a companhia passou a projetar crescimento em relação a 2025 considerando a margem reportada. Para compensar o impacto dos investimentos e da menor alavancagem operacional, a Natura pretende manter uma forte disciplina sobre despesas no segundo semestre. A empresa também espera continuar capturando os ganhos do novo modelo operacional implementado neste ano.
Para Ferreira, portanto, o resultado abaixo do esperado não muda a estratégia da companhia. A avaliação interna é de que os problemas são principalmente de execução e estão ligados a uma série de transformações que já estão próximas do fim. “Estamos terminando a reforma das fundações da empresa, pavimentando o novo ciclo de crescimento. Queremos continuar investindo na nossa marca”, afirmou.
A decisão de preservar os investimentos também ajuda a explicar por que a Natura adotou uma postura mais cautelosa para os próximos períodos. Em vez de buscar uma recuperação de margem no curto prazo a qualquer custo, a companhia prefere manter os projetos que considera necessários para crescimento, inovação e fortalecimento das marcas.
No caso da Avon, por exemplo, a companhia está reformulando o portfólio para acompanhar o novo posicionamento da marca, que passou a mirar uma imagem mais contemporânea e um público mais jovem. A linha de home style também deverá ser utilizada para reforçar esse posicionamento, com produtos e coleções alinhados à nova identidade da Avon.
Entretanto, no curto prazo, a Natura vê um cenário de consumo ainda fraco pela frente. Segundo Ferreira, a combinação de juros elevados, inflação, endividamento e incertezas econômicas tem comprimido a renda disponível das famílias e limitado a demanda por produtos de beleza.
Para o executivo, o mercado de beleza tem apresentado estabilidade nos volumes vendidos, enquanto o crescimento de 4% a 6% em valor tem sido sustentado principalmente pelos reajustes de preços. A avaliação é de que uma melhora mais estrutural dependerá também de avanços no equilíbrio fiscal e de uma eventual redução dos juros no país, tema que deve ganhar espaço no debate eleitoral.
Balanço do segundo trimestre
O lucro líquido da Natura recuou 82% no segundo trimestre de 2026, saindo de R$ 196 milhões no mesmo período do ano passado para R$ 35 milhões entre abril e junho deste ano. A companhia registrou receita líquida de R$ 5,17 bilhões, queda de 9,1% em relação ao mesmo período de 2025, quando registrou R$ 5,68 bilhões.
Todos três principais segmentos registraram queda na receita: Natura (-8,2%), Avon (-11%) e Casa & Estilo (-27,6%). “Outros” apresentaram alta de 79,3%.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) foi de R$ 620 milhões, queda de 5,9% ante abril e junho de 2025, quando registrou R$ 658 milhões, com margem de 12% (recuo de 40 pontos-base). Mesmo assim, a empresa registrou geração de caixa positiva de R$ 342 milhões, e a alavancagem ficou em 2,06x, ligeira redução com relação ao trimestre anterior.
