Navios cruzam o Estreito de Ormuz 'às escuras' sob coordenação dos EUA

As negociações de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã foram suspensas nesta segunda-feira, 1º. As informações são da mídia iraniana. Em meio ao impasse diplomático, o exército americano tem passado as últimas semanas coordenando a saída de diversos navios do Estreito de Ormuz, de acordo com o New York Times.
O Comando Central americano (Centcom) orientou aproximadamente 70 embarcações comerciais pelo estreito nas últimas três semanas, uma média de três por dia, segundo um oficial americano que falou em anonimato ao jornal.
A maioria dos navios navegou com os transponders (equipamentos de comunicação utilizados em embarcações) desligados para evitar detecção, prática conhecida como passagem "dark" ("às escuras", em tradução livre), o que impede analistas independentes de confirmar os números com precisão.
O volume é ainda muito inferior ao registrado antes dos ataques americanos e israelenses ao Irã em fevereiro. Na época, mais de 100 navios cruzavam o estreito diariamente.
Ainda assim, a operação sugere que alguns armadores estão dispostos a assumir o risco de transitar pela região para liberar embarcações que estão paradas no Golfo Pérsico há semanas, com prejuízos financeiros e tripulações em condições difíceis.
'Forças americanas não estão escoltando', afirma Centcom
O Centcom deixou claro que a operação não equivale a umaescolta naval. "Embora as forças americanas não estejam escoltando, continuamos a nos comunicar e coordenar com navios comerciais que buscam transitar livremente e com segurança pelo Estreito de Ormuz, um corredor internacional crítico para as economias regional e global", disse o capitão Tim Hawkins, porta-voz do Centcom, em nota ao NYT.
As rotas seguidas pelos navios orientados pelos EUA parecemevitar a costa iraniana, seguindo caminhos mais próximos de Omã.
De acordo com autoridades americanas, navios que passam perto do Irã sem autorização prévia de Teerã enfrentam risco quase certo de ataque por drones ou mísseis iranianos.
Há precedentes para o temor: em maio, um navio-contêiner foi atacado mesmo durante a vigência do chamado Projeto Liberdade, iniciativa anunciada por Trump no início do mês para garantir passagem pelo estreito, mas rapidamente encerrada após objeções da Arábia Saudita.
Bloqueio do Golfo de Omã
Paralelamente, desde 17 de abril,os EUA mantêm um bloqueio no Golfo de Omã contra navios que tentam abastecer portos iranianos. Até agora, o bloqueio redirecionou 116 embarcações e interceptou seis que tentaram furar o cerco.
No sábado, o Centcom anunciou que disparou um míssil na sala de máquinas do cargueiro Lian Star, de Gâmbia, depois de ele ignorar mais de 20 advertências ao tentar entrar num porto iraniano. A embarcação ficou à deriva no Golfo de Omã.
O impasse que suspendeu as negociações
As negociações para reabertura do estreito foram suspensas nesta segunda-feira, 1º. O Irã alegou que ataques israelenses ao subúrbio de Dahieh, em Beirute — reduto do Hezbollah, grupo aliado de Teerã —, violaram o cessar-fogo na região, em vigor desde 7 de abril.
Na sexta-feira, 29, o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que as tropas do país já ocupam uma faixa de 30km no Líbano, em meio a negociações de cessar-fogo entre os países.
Trump, questionado sobre a suspensão, disse não ter recebido confirmação direta do Irã e afirmou que "ficar em silêncio seria muito bom". "Acho que temos falado demais, para falar a verdade", disse o presidente em entrevista à NBC.
O chefe de Estado americano também manteve que tem vantagem nas negociações. "Acho que posso esperar o tempo que eles quiserem", afirmou, acrescentando que o bloqueio continuará em vigor. "O bloqueio é uma peça de aço."
No domingo, fontes americanas informaram à CNN que Trump havia endurecido os termos de um acordo em negociação, exigindo linguagem mais firme sobre os compromissos nucleares iranianos e a reabertura do estreito, o que contribuiu para o impasse atual.
Nova ameça ao comércio global no Mar Vermelho
O Estreito de Ormuz é responsável pelo trânsito de um quinto do petróleo mundial e de parcela significativa do gás natural global. Desde o fechamento efetivo da rota pelo Irã, após os ataques de fevereiro, os efeitos já se fazem sentir na economia, com menor o fornecimento de energia aos mercados internacionais.
A crise pode se agravar. O Irã e seus aliados estão considerando a "ativação de outras frentes" em resposta aos ataques israelenses no Líbano, segundo mídia iraniana. Entre elas, o Estreito de Bab al-Mandeb, no extremo sul do Mar Vermelho próximo ao Yemen.
Com apenas 29 quilômetros de largura no ponto mais estreito, ele é um corredor vital que conecta a Europa e a Ásia pelo Canal de Suez. Cerca de 15% do comércio marítimo global passa por ali. A ameaça já fez os preços do petróleo dispararem nesta segunda-feira.
