Nem na crise de 2016 o Bradesco (BBDC4) ficou tão barato: o que o Morgan Stanley está vendo após o tombo de quase 40% desde as eleições
Analistas veem distância entre o preço das ações e a rentabilidade do banco após o tombo provocado pelo cenário eleitoral

Uma queda de 37% em poucos dias: foi esse o tamanho do tombo das ações do Bradesco (BBDC4) após o segundo turno das eleições — um baque que fez o banco perder ainda mais espaço na bolsa em relação aos concorrentes. A queda foi mais intensa do que a do Ibovespa em dólares, que recuou 24%, e a do Itaú (ITUB4), que caiu 26%. Mas, para o Morgan Stanley, o mercado pode ter exagerado na dose.
Os analistas veem um descompasso entre o preço dos papéis e a capacidade de geração de resultados do banco.
Por isso, mantiveram a recomendação overweight — equivalente à compra — para as ações, embora tenham reduzido o preço-alvo dos ADRs, negociados nos Estados Unidos, de US$ 5,50 para US$ 4,75. A cifra implica um potencial de valorização de 92% em relação ao último fechamento.
Na avaliação do Morgan Stanley, a desvalorização levou o Bradesco a um valuation próximo das mínimas de uma década, sem que seus fundamentos tenham se deteriorado na mesma proporção.
Bradesco ficou barato demais para a rentabilidade que entrega?
O primeiro argumento do Morgan Stanley está na relação entre o preço da ação e a capacidade do banco de gerar retorno.
Mesmo com um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 16,6%, o banco negocia a um múltiplo de apenas 0,7 vez seu valor patrimonial (P/PV). É essa distância entre rentabilidade e preço que sustenta a tese do banco de investimentos.
Historicamente, instituições com retorno nessa faixa costumaram negociar a múltiplos mais elevados.
Segundo os analistas, a relação entre ROE e P/PV) indicaria um valor próximo de 1,3 vez para o Bradesco, considerando também o diferencial entre a rentabilidade do banco e a Selic.
Na prática, o Morgan Stanley vê uma distância relevante entre o que o banco entrega em rentabilidade e o preço que o mercado está disposto a pagar por suas ações.
Desconto para o Itaú é o maior em dez anos
A diferença também aparece na comparação com o principal concorrente privado, o Itaú (ITUB4).
O Bradesco negocia a 0,7 vez o valor patrimonial, enquanto o rival está em 2 vezes — um desconto de 62%, o maior da última década, segundo o Morgan Stanley.
É verdade que o Itaú apresenta rentabilidade superior: seu ROE é de 25,5%, ante 16,6% do Bradesco.
Ainda assim, a distância entre os dois indicadores está relativamente próxima da média histórica.
Para os analistas, portanto, a diferença de rentabilidade não parece suficiente para explicar o tamanho do desconto aplicado às ações do Bradesco.
Nem na crise de 2016 o desconto foi tão grande
O paralelo com o passado reforça a dimensão do desconto. Para isso, o Morgan Stanley relembra da época de janeiro de 2016, quando o Brasil atravessava uma das crises econômicas e políticas mais severas de sua história recente.
O PIB havia encolhido 3,5% em 2015, o desemprego avançava — de 5,3% em janeiro de 2015 para 8,6% um ano depois — e a Selic chegou a 14,2%. Naquele período, o Bradesco tinha ROE de 18,8%, e suas ações chegaram a ser negociadas a cerca de 1 vez o valor patrimonial.
Agora, com a Selic em 13,7%, a economia em crescimento e o ROE em 16,6%, o múltiplo está em apenas 0,7 vez — cerca de 30% abaixo daquele piso.
A comparação não elimina os desafios atuais do banco, mas mostra por que os analistas consideram o desconto especialmente elevado: mesmo em um cenário macroeconômico mais adverso, o Bradesco não havia sido negociado a um múltiplo tão baixo.
Onde o Bradesco ainda pode ganhar eficiência?
A tese do Morgan Stanley, porém, não depende apenas de uma eventual correção do valuation.
Os analistas também enxergam espaço para o Bradesco melhorar a eficiência operacional e proteger a rentabilidade caso a economia perca fôlego.
A transformação digital já reduziu em aproximadamente um terço a rede de agências nos últimos dois anos. O quadro de funcionários, por outro lado, encolheu apenas 8% no mesmo intervalo.
Para o Morgan Stanley, essa diferença indica que parte dos ganhos de eficiência ainda pode aparecer nos próximos 12 a 24 meses, conforme a estrutura de pessoal acompanhe a redução da rede física.
Os primeiros sinais já aparecem nas despesas. Nos nove primeiros meses de 2026, os gastos totais cresceram 3% em relação ao mesmo período do ano anterior, abaixo da inflação de 5% e do avanço de 11% das receitas.
A carteira de crédito também entra nessa conta. O Bradesco manteve um ritmo moderado de expansão, com crescimento anual composto de 8% nos dois anos encerrados em setembro de 2026.
Ao mesmo tempo, os empréstimos com garantia — como consignado, financiamento de veículos e crédito imobiliário — passaram a representar 64% da carteira de varejo, ante 62% dois anos antes.
Mesmo nas modalidades sem garantia, como cartão e empréstimo pessoal, o banco tem priorizado clientes de menor risco.
Na avaliação dos analistas, essa composição mais conservadora, combinada a uma estrutura de custos mais enxuta, pode ajudar a amortecer os efeitos de uma eventual desaceleração econômica sobre o lucro.
