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Sacre Investimentos
Inteligência ArtificialBDR
02/10/2026
6 min

Nem na Terra, nem no mar: por que o Google quer levar o processamento de IA ao espaço?

Satélite lançado pela SpaceX testa quatro chips TPU em órbita; projeto Suncatcher aposta na energia solar, mas enfrenta gargalos de refrigeração, custo e comunicação laser

Nem na Terra, nem no mar: por que o Google quer levar o processamento de IA ao espaço?
RESUMO +

O Google iniciou um teste de chips de IA em órbita. Seu projeto de data centers espaciais aposta na energia solar, mas enfrenta obstáculos de refrigeração, comunicação e custo, enquanto cresce a demanda terrestre de eletricidade.

Quatro chips de inteligência artificial (IA) foram enviados ao espaço na quinta-feira, 1º. Um satélite experimental do Google, lançado pela SpaceX a partir da Califórnia, iniciou uma missão de um ano para verificar se os processadores da empresa conseguem sobreviver em órbita.

O protótipo foi desenvolvido com a Planet e transporta unidades de processamento tensorial, conhecidas pela sigla TPU, usadas em tarefas de IA. É uma etapa do Suncatcher, projeto apresentado em novembro de 2025 para investigar data centers no espaço.

A aposta é conectar satélites com capacidade de processamento e alimentação solar. Para entender por que uma empresa considera colocar essa infraestrutura em órbita, é preciso olhar primeiro para a dificuldade de expandi-la no chão.

Por que os data centers pressionam a Terra?

Data centers reúnem computadores que armazenam e processam informações. A expansão da IA aumenta a necessidade dessa infraestrutura, que também atende serviços digitais convencionais. Em 2025, essas instalações consumiram 485 terawatts-hora (TWh) de eletricidade no mundo, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). Um TWh equivale a um bilhão de quilowatts-hora.

Na projeção central atualizada neste ano, a agência estima que o consumo alcance 950 TWh em 2030, aproximadamente 3% da demanda mundial de eletricidade — quase o dobro do nível de 2025. Dentro desse total, o consumo das instalações voltadas à IA deve triplicar no período.

A pressão também depende de onde os projetos se concentram. No relatório de 2025, a IEA estimou que cerca de 20% dos data centers planejados poderiam sofrer atrasos se os entraves das redes elétricas não fossem resolvidos. Construir novas linhas de transmissão pode levar de quatro a oito anos em economias avançadas.

O Goldman Sachs identifica a mesma direção de crescimento, com outra base de comparação: em análise publicada em dezembro de 2025, o banco projetou alta de 175% no consumo de eletricidade dos data centers até 2030, em relação a 2023. A estimativa abrange o setor inteiro, não apenas a IA.

Há ainda a questão da água. Um estudo do Lawrence Berkeley National Laboratory, publicado em 2024, estimou que os data centers dos Estados Unidos consumiram diretamente 66 bilhões de litros em 2023. O dado é americano e inclui instalações de diferentes tipos. Refere-se ao consumo no próprio empreendimento, separado da água utilizada para gerar a eletricidade que ele compra.

Os efeitos sobre as contas de luz não são automáticos. A IEA explica que dependem da disponibilidade de energia e das decisões de investimento: em sistemas apertados, a chegada de grandes consumidores pode exigir novas obras; onde existe oferta excedente, pode melhorar o aproveitamento da infraestrutura.

O principal atrativo do Suncatcher é a energia solar. Segundo o estudo do Google, um painel na órbita adequada pode ser até oito vezes mais produtivo do que na Terra, com exposição quase contínua ao Sol. A comparação trata da energia produzida, não de uma luz solar oito vezes mais intensa.

O frio do espaço não resolve o calor dos chips

Um computador aquece quando trabalha. Na Terra, sistemas de refrigeração transferem esse calor para o ambiente. Em órbita, não há ar para cumprir essa função: o vácuo elimina a convecção, processo pelo qual um fluido em movimento transporta calor, conforme a documentação técnica da Nasa.

Dentro de uma espaçonave, o calor pode passar de um componente para outro por condução. Para sair do equipamento em direção ao espaço, precisa ser emitido como radiação térmica. Radiadores oferecem superfícies para essa transferência. Por isso, colocar chips no espaço exige um sistema de controle térmico próprio.

O Google informou que testa tubos de transferência de calor e radiadores, avaliados previamente em uma câmara que simula o ambiente espacial.

A radiação também pode provocar erros nos componentes eletrônicos. A equipe realizou testes com feixes de prótons na Universidade da Califórnia em Davis, mas reconheceu que há condições que precisam ser avaliadas no espaço.

O próximo teste do Googl

Depois de verificar o comportamento do hardware, o Google pretende testar a comunicação entre dois satélites em 2027. Eles usarão lasers para trocar dados. A conexão exige precisão porque os equipamentos estarão em movimento e precisarão manter os feixes alinhados.

Essa ligação é central para a proposta. Grandes tarefas de IA distribuem trabalho entre muitos processadores. No desenho publicado pelo Google, alcançar desempenho comparável ao de data centers terrestres exige conexões entre satélites capazes de transportar dezenas de terabits por segundo.

A conta econômica também depende de uma condição futura. O estudo considera que os preços de lançamento possam cair para menos de US$ 200 por quilo em meados da década de 2030. Nesse cenário, lançar e operar a infraestrutura poderia ter custo comparável ao gasto de energia de uma instalação terrestre equivalente. A comparação não demonstra igualdade no custo total dos dois modelos.

Quem mais disputa essa corrida

O Google não é o único a testar computação em órbita. A Starcloud lançou, em novembro de 2025, um satélite com um processador H100 da Nvidia, segundo a documentação da empresa.

A Kepler anunciou em março de 2026 uma infraestrutura de processamento distribuída por dez satélites, com 40 módulos Nvidia Jetson Orin e conexões ópticas. A proposta permite processar dados no espaço e reduzir a necessidade de enviá-los à Terra.

A Axiom Space informou o lançamento de dois módulos de data center orbital em janeiro de 2026, junto à rede de retransmissão óptica da Kepler. São iniciativas com equipamentos já enviados ao espaço, embora isso não as torne equivalentes a grandes instalações terrestres.

As propostas de constelações chegam a outra escala. A SpaceX apresentou um pedido para até um milhão de satélites. A Blue Origin propôs até 51.600 no projeto Sunrise. Os números descrevem a escala solicitada aos reguladores americanos, não constelações construídas.

A órbita também tem limites

A Sociedade Astronômica Americana pediu que os reguladores rejeitassem a proposta da Blue Origin em sua forma apresentada. A entidade apontou possíveis impactos sobre observações ópticas, infravermelhas e de rádio, além de preocupações com o ambiente orbital.

A Secure World Foundation, que analisa sustentabilidade espacial, cobrou avaliações dos riscos acumulados de colisão, descarte de equipamentos e interferência. Em manifestações sobre as propostas, defendeu autorizações por etapas, com demonstrações e critérios de desempenho antes da expansão.

Os documentos do Suncatcher consultados não estabelecem uma data para uma operação comercial em grande escala.


AutorTamires Vitorio
FonteExame
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