Nestlé eleva produção de suplementos em 30% para surfar onda das canetas emagrecedoras
A alta é da produção de Nutren Control, enquanto a Nestlé amplia estratégias para atender usuários de medicamentos GLP-1

Na fábrica da Nestlé em Araçatuba, no interior de São Paulo, uma das maiores unidades da companhia no Brasil, a produção de Nutren Control, sua linha de suplemento alimentar para pessoas com restrições a açúcares e lactose, aumentou 30%. A alta não é um movimento isolado de fábrica. Ela faz parte da resposta da gigante multinacional suíça de alimentos e bebidas ao crescimento dos medicamentos análogos de GLP-1, popularizados como "canetas emagrecedoras", que reduziram o apetite de milhões de consumidores e abriram uma nova frente de negócios para a indústria de nutrição.
A Nestlé identificou nesse público uma oportunidade para vender produtos voltados a uma necessidade específica de manter a ingestão de proteínas, fibras, vitaminas e minerais mesmo quando o consumidor passa a comer menos.
A estratégia para isso inclui aumento da produção, mudança na comunicação dos produtos, aproximação com profissionais de saúde e a preparação de novos itens para esse mercado.
"Isso responde ao avanço do mercado de GLP-1, porque somos líderes em nutrição, então precisamos sempre estar à frente com as melhores tecnologias, melhor portfólio e em como levamos isso melhor para o consumidor", afirma Mariana Lemos, head de Marketing de Nutrição e Saúde da Nestlé Brasil em entrevista à EXAME.
O movimento dá uma dimensão concreta ao chamado "efeito Ozempic" sobre o varejo. O avanço das canetas emagrecedoras não mexe apenas com farmacêuticas e farmácias, os canais diretamente ligados aos medicamentos. Ao alterar o apetite e a quantidade de alimentos consumidos, os GLP-1 também criam uma nova ocasião de consumo para empresas que vendem produtos de nutrição.
No ano passado, o mercado global de medicamentos para perda de peso movimentou US$ 66,4 bilhões. Até 2033, a previsão de instituições financeiras é de que esse mercado chegue a US$ 185,3 bilhões. No Brasil, projeções do Itaú BBA, por exemplo, estimam que o segmento possa sair dos atuais R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões até o fim da década.
Esses medicamentos, como liraglutida, semaglutida e tirzepatida, foram desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes e passaram a ser indicados também para obesidade.
Ao aumentar a sensação de saciedade e reduzir o apetite, eles alteraram a rotina alimentar dos usuários. Segundo a NielsenIQ, aproximadamente 90% deles mudaram seus hábitos alimentares. Seis em cada dez reduziram os gastos com bares, restaurantes e lazer para bancar o tratamento que pode variar de R$ 300 a quase três salários mínimos por mês, a depender de qual produto o usuário opte. E essa mudança vem mexendo com a indústria de alimentos e nutrição.
Na fábrica de Araçatuba, a Nestlé produz cerca de 180 produtos e emprega aproximadamente 800 pessoas. A unidade funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, e é responsável por cerca de 85% da produção brasileira da divisão de Nutrição e Saúde da companhia. O volume fabricado passou de 144 mil toneladas em 2023 para 145 mil toneladas em 2024. Neste ano, a previsão é chegar a 153 mil toneladas — número que, segundo a empresa, está no ritmo para ser alcançado.
A unidade também está no centro de um ciclo de investimentos. A Nestlé prevê aplicar R$ 540 milhões na fábrica entre 2025 e 2028.
O aumento de 30% se refere especificamente à linha Nutren Control, desenvolvida para pessoas que precisam fazer dietas com restrição de açúcares (sacarose, frutose e glicose) e lactose, e que passou a ser posicionada pela companhia como uma solução para consumidores em tratamento com medicamentos GLP-1.
Nesta quarta-feira, 16, a Nestlé também anunciou que linha será identificada com o selo "Apoio Nutricional à Jornada GLP-1".A estratégia começou a ser construída antes da atual explosão de popularidade das "canetinhas". Segundo a head de Marketing de Nutrição e Saúde, a Nestlé vem investindo nesse mercado há cerca de três anos. O avanço dos medicamentos, porém, mudou a velocidade e o foco da estratégia.
"Houve, sim, uma mudança. O foco do time aumentou não apenas na frente científica, mas também no diálogo com os endocrinologistas, levando mais informação e disseminando conhecimento. Isso faz parte do nosso objetivo de atender esse consumidor que está buscando soluções inovadoras para essa necessidade", afirma.
A companhia encontrou uma oportunidade em um consumidor que, paradoxalmente, passa a comprar menos comida, mas pode precisar de produtos mais concentrados em determinados nutrientes.
A aposta vai além da proteína
Uma pesquisa inédita realizada pela Nestlé com 320 pessoas de 18 a 50 anos, em todas as regiões do país, indica que 25% dos adultos das classes A, B e C que mantêm algum cuidado com alimentação e corpo utilizammedicamentos análogos de GLP-1. Outros 18% afirmam já ter recorrido a esse tipo de tratamento, indicando que 43% dos participantes têm ou já tiveram contato com a categoria.
Entre os usuários, 95% dizem buscar uma alimentação mais saudável, 64% monitoram indicadores de saúde, 59% têm acompanhamento nutricional e 54% utilizam aplicativos para acompanhar a alimentação e a rotina. Segundo a pesquisa, o tratamento dura, em média, de três a seis meses.
E a proteína, que vem protagonizando essas mudanças na alimentação, é apenas uma parte do portfólio da Nestlé. A companhia trabalha também com fibras, vitaminas e minerais, além de educação nutricional para consumidores e profissionais de saúde.
"Não é tudo sobre proteína e não é só sobre proteína", afirma Lemos. "Esse boom de proteína veio nesse momento em que as pessoas estão buscando hábitos mais saudáveis, de uma alimentação mais equilibrada, mas é muito mais do que isso".
Segundo a executiva, a estratégia da empresa é entender quais necessidades aparecem quando a ingestão de alimentos cai. "Além de investirmos em soluções, em pesquisar o que realmente faz sentido para esse perfil de consumidor, que não é só proteína, apresentação de massa muscular, endereçar a fadiga, ter realmente os nutrientes, fibra, tudo que ele precisa", afirma.
A head de Marketing afirma que a ingestão alimentar pode cair 50% ou mais entre esses consumidores. É justamente nesse cenário que a companhia tenta posicionar seus produtos e o Nutren Control é apenas uma parte desse portfólio. ANestlé também aposta no FiberMais, voltado à ingestão de fibras e à saúde intestinal, e no Nutren Multi A-Z, para suplementação de vitaminas e minerais. A companhia também reúne produtos da Puravida em sua divisão de Nutrição e Saúde.
"Quando esse paciente reduz a ingestão alimentar, ele também reduz, de forma geral, o consumo de fibras", afirma Lemos. "A recomendação diária é de 25 a 35 gramas, o que representa uma quantidade significativa de fibras".
A companhia já trabalha com a ideia de que a fibra pode ocupar um espaço semelhante ao que a proteína ganhou no mercado nos últimos anos. "Muitos têm falado que a fibra é a nova proteína", diz. A nossa aposta nesse sentido é FiberMais. Ele entra como um excelente produto que tá há mais de 10 anos no mercado, ele endereça essa necessidade".
Nestlé prepara novos produtos para a jornada GLP-1
A estratégia, contudo, não termina nos produtos que já estão nas prateleiras. A suíça multinacional pretende lançar no ano que vem um produto específico para essa jornada. O desenvolvimento ainda está no estágio de pesquisa, e a companhia pretende reunir comprovação científica antes de avançar na comunicação.
O movimento acontece enquanto a Nestlé amplia globalmente o peso da área de Nutrição. No primeiro semestre, a divisão registrou vendas globais de 8,339 bilhões de francos suíços, ante 9,082 bilhões de francos suíços no mesmo período de 2025. O crescimento orgânico ficou negativo em 1,2%, mas o segundo trimestre mostrou recuperação, com alta de 1,7%, puxada pela aceleração da nutrição adulta e pelo forte desempenho da nutrição médica.
No Brasil, a Nestlé registrou vendas de 2,154 bilhões de francos suíços no primeiro semestre, alta de 6,8% sobre o mesmo período de 2025. Na América Latina, o crescimento orgânico chegou a 5,8% no segundo trimestre, com avanço de 4,2% no volume. E o Brasil, ao lado do México, foi um dos principais responsáveis pela aceleração do crescimento interno real na região, segundo a companhia.
O avanço dos GLP-1 aparece em um momento em que a Nestlé procura ampliar as oportunidades dentro de Nutrição e Saúde, e a empresa não trata essa transformação apenas como uma mudança de portfólio. Há também uma tentativa de disputar o espaço de orientação que se abriu em torno desses medicamentos.
A companhia mantém uma plataforma educacional voltada a profissionais de saúde, a Academia de Obesidade, que reúne mais de 3 mil profissionais em um curso online gratuito. A empresa também trabalha com plataformas digitais destinadas ao consumidor e busca levar informações sobre a jornada de quem utiliza os medicamentos até mesmo para balconistas de farmácias.
Emagrecer é só parte do tratamento
A justificativa para essa estratégia está na própria característica do tratamento. Os medicamentos podem reduzir a fome, mas não ensinam o paciente a reorganizar sua alimentação. De acordo com a médica intensivista e nutróloga, Valéria Rosenfeld, gerente médica de Nutrição e Saúde da Nestlé Brasil, essa é uma das principais questões que surgiram com a nova geração de tratamentos contra a obesidade.
"Hoje, reconhecemos que a obesidade abriu uma verdadeira caixa de Pandora no tratamento da doença, especialmente do ponto de vista dos profissionais de saúde", afirma. Para a especialista, o avanço dos medicamentos representa um marco no tratamento de uma doença que historicamente foi negligenciada.
Mas, Rosenfeld destaca que o foco não pode ficar apenas na balança. "A perda de peso é importante, mas é preciso compreender qual é o grau dessa perda, como ela ocorre e qual é o impacto na qualidade de vida do paciente. O objetivo não deve ser apenas a redução do peso, mas também a manutenção da saúde e a preservação da massa muscular", afirma.
A executiva explica que a preocupação da área de Nutrição e Saúde da Nestlé é acompanhar o paciente durante toda a jornada, da fase de maior perda de peso até a manutenção do resultado.
A questão ganha relevância porque uma redução rápida do peso pode vir acompanhada de perda de massa muscular. Rosenfeld é uma das autoras do estudo "Multimodal strategy to protect lean mass in people using semaglutide for obesity - case report", que mostra que a massa magra pode representar 39% do peso perdido com semaglutida, 33% com retatrutida e 25% com tirzepatida — e cerca de metade da massa magra perdida corresponde a tecido muscular.
A pesquisa concluí que sem acompanhamento adequado, essa perda pode contribuir para um quadro de obesidade sarcopênica, caracterizado pela combinação de excesso de gordura e baixa massa muscular.
A questão ganha relevância porque uma redução rápida do peso pode vir acompanhada de perda de massa muscular. Por isso, segundo Valéria, o acompanhamento da composição corporal deveria fazer parte do tratamento desde o início.
"Hoje, já entendemos a importância de avaliar a composição corporal desde o início, acompanhar as alterações nutricionais desses pacientes e, principalmente, garantir a continuidade do tratamento", afirma a gerente médica da Nestlé.
O médico nutrólogo Guilherme Giorelli, professor de Nutrologia, Medicina do Exercício e Esporte e Endocrinologia, destaca que a estimativa que apontava para 1 bilhão de pessoas com obesidade em 2030 foi alcançada já em 2024. Para Giorelli, isso mostra o quanto a doença avançou enquanto foi tratada como uma questão de comportamento individual.
"Sempre que se falava em obesidade, alguém tinha uma resposta simples, que era falar: 'Vamos comer menos, vamos se exercitar mais'", afirma. "Se pergunta difícil tivesse resposta fácil, já tinhamos resolvido o problema".
De acordo com o médico, o organismo reage à redução da ingestão de alimentos e ao aumento do exercício por meio do que chama de adaptação metabólica. Hormônios como leptina, GLP-1, amilina e insulina participam dessa resposta. "Não é só foco, força e fé", afirma, acrescentando que tratar a obesidade exige compreender a fisiopatologia da doença e combinar diferentes ferramentas.
"Não é alimentação contra exercício, contra remédio, contra cirurgia. Quando vamos unindo os tratamentos, temos resultados cada vez melhores", diz.
