Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosBDR
02/10/2026
4 min

Nike: lucro em queda coloca em xeque 24 anos seguidos de aumento nos dividendos

Vendas mais fracas no trimestre encerrado em agosto e projeção anual abaixo do esperado decepcionaram investidores

Nike: lucro em queda coloca em xeque 24 anos seguidos de aumento nos dividendos

O lucro esperado pela Nike no atual ano fiscal é menor do que o que a empresa paga em dividendos. A companhia projetou nesta quinta-feira, 1º, lucro por ação ajustado entre US$ 1,15 e US$ 1,35 para o ano fiscal de 2027, que termina em maio do ano que vem. Hoje, o dividendo trimestral de US$ 0,41 soma US$ 1,64 por ação em 12 meses.

A projeção anual, divulgada junto com o balanço trimestral, ficou bem abaixo do consenso de US$ 1,66 por ação. A empresa também prevê queda de receita na casa de um dígito alto no ano. As ações caíram mais de 5% no after-market em Nova York.

A Nike aumenta o dividendo todos os anos desde 2002. A companhia está a um reajuste de completar 25 anos seguidos de aumento nos proventos, marca que a colocaria no grupo dos chamados "aristocratas de dividendos" do S&P 500. O reajuste costuma ser anunciado em novembro, mês em que a Nike faz seu encontro anual com investidores. O mais recente, levou o provento trimestral de US$ 0,40 para US$ 0,41, alta de 2,5%.

Até março, os comunicados de resultado da empresa destacavam a sequência, que então somava 24 anos. Desde o balanço de junho, porém, o texto passou a mencionar apenas um "sólido histórico" de retorno aos acionistas.

Levando em conta a projeção de lucro divulgada agora, a Nike vai pagar mais em dividendos do que espera ganhar. O provento anual soma cerca de US$ 2,4 bilhões, enquanto o lucro ajustado projetado fica entre US$ 1,7 bilhão e US$ 2 bilhões. No ano fiscal de 2026, os dividendos declarados equivaleram a 78% do lucro.

A Nike pagou US$ 2,4 bilhões em dividendos no último ano fiscal e reduziu as recompras de ações a US$ 123 milhões. No primeiro trimestre, distribuiu cerca de US$ 610 milhões aos acionistas, o equivalente a 86% do lucro do período.

O dinheiro que a Nike gera com as operações já não cobre sozinho os dividendos e os investimentos. Segundo a própria empresa, foi assim no ano fiscal de 2026 e de novo nos 12 meses encerrados em agosto, e a diferença saiu do caixa. A companhia ainda tem reserva para atravessar um ano fraco. Caixa e aplicações de curto prazo somavam US$ 8,4 bilhões ao fim de agosto, o equivalente a cerca de três anos e meio de proventos no ritmo atual. Mas a Nike também tem US$ 2 bilhões em dívidas com vencimento nos próximos 12 meses.

O trimestre em números

O lucro do primeiro trimestre fiscal, encerrado em agosto, veio acima do esperado. O lucro por ação diluído foi de US$ 0,48, contra consenso de US$ 0,44. O lucro líquido caiu 2%, para US$ 712 milhões.

A receita somou US$ 11,21 bilhões, queda de 4% na comparação anual e abaixo da faixa de US$ 11,3 bilhões a US$ 11,4 bilhões projetada pelos analistas.

A queda da receita veio principalmente da China. As vendas na região caíram 22%, ou 26% sem efeito cambial, para US$ 1,18 bilhão, e o lucro operacional local recuou 34%. O país, que se tornou o maior problema da Nike, hoje fatura menos que a região que reúne Ásia-Pacífico e América Latina.

A América do Norte foi a única grande região em alta, com avanço de 2%, para US$ 5,13 bilhões. As vendas para varejistas cresceram 9% na região, enquanto as vendas diretas caíram 6%. O movimento reflete a reaproximação com os lojistas, depois de anos priorizando os canais próprios, estratégia que afastou a marca de parceiros tradicionais e abriu espaço para concorrentes. Globalmente, a receita digital da Nike recuou 13%.

A Converse teve o pior desempenho do grupo, com queda de 28% na receita, para US$ 263 milhões. Na Europa, Oriente Médio e África, as vendas caíram 5%. Um ano antes, a Nike havia faturado US$ 11,7 bilhões no mesmo trimestre.

A margem bruta subiu 0,6 ponto percentual no trimestre, para 42,8%, com custos menores de armazenagem e logística. Os estoques caíram 3%, para US$ 7,8 bilhões, e as despesas de vendas e administrativas recuaram 3%.

A empresa também anunciou o Pace, programa de transformação do modelo operacional que amplia o corte de custos iniciado em março. A meta é economizar cerca de US$ 2,5 bilhões acumulados até o ano fiscal de 2031, com encargos de aproximadamente US$ 1 bilhão no período. O plano inclui a modernização da cadeia de suprimentos, um novo campus na Índia e a reorganização das operações em três regiões geográficas.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
Distribuído por