No arco do desmatamento, floresta da Vivo sai do papel um ano após o anúncio

Trinta anos é um prazo incomum para um compromisso corporativo, sobretudo quando o ativo em questão é uma floresta que uma empresa não precisa para operar. Porém, é a conta que a Vivo decidiu carregar ao lançar a Floresta Futuro Vivo, em agosto do ano passado.
Agora, quase um ano depois, a iniciativa saiu do papel com o plantio simbólico de mudas de castanheira, sumaúma e andiroba feito por Christian Gebara, CEO da operadora e Thiago Picolo, CEO da re.green ao lado do cacique e de integrantes do povo Tembé, na zona rural de Paragominas (PA).
O intervalo entre o anúncio e a primeira muda diz mais sobre o projeto do que a cerimônia. Nesses meses correram o mapeamento da paisagem, a definição das espécies, os levantamentos socioeconômicos e o início do diálogo com as comunidades do entorno.
Além da espera pelo calendário que de fato mandaria na operação: no cronograma estabelecido, o plantio em escala, de cerca de 900 mil árvores de 30 espécies nativas, só começa em janeiro de 2027, com as chuvas.
O compromisso da Vivo prevê restaurar, proteger e reconectar mais de 800 hectares de floresta amazônica. Contudo, o que chama atenção na aposta da companhia não é o volume de árvores. É o movimento que ela representa: a migração de capital corporativo sem qualquer passivo florestal para a conta da restauração.
O plantio simbólico da Floresta Vivo, na Fazenda São Pio, em Paragominas (PA): primeira muda de um compromisso de 30 anos e mais de 800 hectares de floresta amazônica. (Fabio Audi)
A virada e o que sobrou
Paragominas fica no arco do desmatamento, a faixa em meia-lua que acompanha as bordas sul e leste da Amazônia, do Maranhão a Rondônia, onde a fronteira agropecuária encosta na floresta.
O município já foi vitrine de uma virada ambiental. Entender o que aconteceu ali nas últimas duas décadas ajuda a explicar por que a Vivo, com apoio e recomendação da re.green, escolheu justamente esse pedaço de terra.
No fim de 2007, o Ministério do Meio Ambiente incluiu a cidade na lista das regiões prioritárias para combate ao desmatamento na Amazônia, o que significou fiscalização reforçada, embargos a propriedades irregulares e restrição de crédito rural.
Na época, uma operação da Polícia Federal chamada de Arco de Fogo fechou dezenas de madeireiras e carvoarias, e a economia local, sustentada havia décadas pela extração de madeira, entrou em colapso.
A reação veio em março de 2008, sob o comando do então prefeito Adnan Demachki, que reuniu mais de 30 entidades civis, entre produtores de grãos, madeira e gado, em um pacto contra o desmatamento, com apoio técnico das ONGs Imazon e The Nature Conservancy.
A partir daí, em um ano a devastação caiu 90% e o cadastro das propriedades rurais alcançou 80%, antecipando o que viraria o CAR nacional. Assim, em 2010 Paragominas se tornou a primeira das 36 localidades da lista prioritária a deixá-la.
A experiência ainda deu origem ao Programa Municípios Verdes, lançado pelo governo do Pará em 2011. Quase duas décadas depois, o retrato que se vê é de um município de porte médio consolidado.
O Censo 2022 registrou 105.550 habitantes distribuídos por um território de 19,3 mil km², e o PIB per capita está na casa dos R$ 50,3 mil no dado municipal mais recente do IBGE, referente a 2021, acima da média paraense, sustentado por grãos, pecuária de corte e leiteira, piscicultura e mineração de bauxita.
Uma conta anterior, porém, segue aberta. À época do pacto liderado por Demachki, o corte raso já alcançava 748 mil hectares, o equivalente a 38,7% do território, além de 130 mil hectares de floresta altamente degradada, segundo o Imazon.
A mata densa que sobreviveu está fragmentada na chamada Área de Endemismo Belém, um dos últimos blocos contínuos da Amazônia oriental e hábitat do macaco-caiarara, primata que já registrou 80% de declínio populacional.
Frear a derrubada preservou esses fragmentos, mas nenhuma política municipal se propôs a recompor o que já havia sido aberto. Há indícios de que a prosperidade também não se distribuiu por igual. O IDHM municipal disponível, de 2010, é de 0,645, abaixo da média nacional daquele ano.
E foi só neste mês de julho que a prefeitura anunciou a expansão do atendimento de saúde especializada nas comunidades rurais. Os dados são defasados e não permitem afirmar que a zona rural ficou à margem da virada ambiental, mas apontam concentração de renda e de serviços na sede.
Menos corte, mais fogo
O desmatamento no Brasil recuou. Segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Inpe, a taxa estimada na Amazônia foi de 5.796 km² no ciclo de agosto de 2024 a julho de 2025, divulgada em outubro do ano passado - uma queda de 11,08% sobre o período anterior e o menor índice em onze anos.
Na comparação com 2022, a redução acumulada chega a 50%. O avanço, no entanto, esconde uma concentração persistente.
Pará, Mato Grosso e Amazonas respondem por cerca de 81% do total estimado, e é no arco do desmatamento, faixa que corta o sul e o leste do bioma (e onde a Vivo assumiu sua floresta), que a pressão se mantém.
Os números do fogo vão na direção oposta. O Relatório Anual do Fogo do MapBiomas, divulgado em 2025 com dados de 2024, mostrou que a Amazônia teve naquele ano a maior área queimada de sua série histórica, cerca de 15,6 milhões de hectares. E, pela primeira vez, o bioma queimou mais floresta do que pastagem.
No país como um todo, a Formação Florestal foi a cobertura mais atingida pelas chamas, 287% acima da média histórica. O Pará liderou os estados, com 7,1 milhões de hectares queimados, 173% acima da própria média.
As duas séries contam a mesma história. A curva da derrubada cai, mas o que restou de floresta segue se degradando.
Conter a motosserra é uma agenda que avança, sustentada por comando, controle e orçamento público. Recompor o que já foi perdido é outra, muito mais atrasada, e é nela que o capital privado começa a ser chamado a entrar.
A meta brasileira de recuperar 12 milhões de hectares até 2030 não se cumpre com dinheiro de governo, e o mercado voluntário de carbono ainda patina em credibilidade. É esse vão que iniciativas como a da Vivo pretendem ocupar.
Dois anos até o CEO
Dentro da Vivo, o projeto levou dois anos para amadurecer, conduzido pela diretora de sustentabilidade, Joanes Ribas.
Começou pelo instrumento menos vistoso do repertório ESG: um diagnóstico de impactos e dependências da operação sobre a natureza, seguindo as recomendações da Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD).
"Foram dois anos de estudo, e esse foi o projeto que se mostrou o mais consistente e aderente ao nosso objetivo, de gerar impacto positivo para a natureza", diz Joanes.
O percurso interno seguiu a ordem que uma decisão desse porte, sem receita à vista, impõe. Primeiro, o convencimento da área financeira; em paralelo, a definição do parceiro técnico e o desenho do projeto; por fim, a apresentação a Gebara.
Como executora, a re.green apoiou a companhia na escolha e no desenho da área, do potencial de captura de carbono à seleção das espécies. A startup brasileira foi reconhecida pelo Earthshot Prize, da Royal Foundation britânica, na categoria dedicada a proteger e recuperar a natureza.
O arranjo fundiário endereça o risco clássico desse tipo de iniciativa, o de a floresta não durar depois de pronta. As fazendas São Pio, onde ocorreu o plantio simbólico, e Descanso são arrendadas de proprietários rurais, com mecanismos de servidão que garantem a manutenção da mata recuperada.
Já os créditos de carbono, previstos a partir de 2031, seguirão os Core Carbon Principles (CCP), o padrão de integridade definido pelo ICVCM, conselho internacional criado para separar créditos confiáveis dos que não correspondem a carbono efetivamente removido.
A novidade está no destino dos créditos. Tanto esforço não mira o próprio inventário. A Vivo opera com energia 100% renovável, cortou 91% das emissões próprias desde 2015 e antecipou o net zero para 2035.
"Antes de tudo, é uma questão de sobrevivência para as pessoas e para as empresas", diz Joanes. O caminho é incomum. Em vez de usar os créditos na própria conta, a Vivo pretende repassá-los aos clientes, para compensação das emissões deles, num modelo que deve ser detalhado no futuro.
A régua do vendedor
A re.green não vende para qualquer um. "Se uma empresa que não tem práticas sustentáveis chega e fala 'deixa eu comprar um projeto teu para dizer que estou fazendo alguma coisa', não vamos querer vender", diz Picolo. "Assim como passamos por diligência, fazemos diligência nos clientes."
É o que ele chama de integridade da demanda: recusar quem procura a floresta só para melhorar a própria imagem - uma exigência que blindou o negócio, por exemplo, de uma reviravolta regulatória quando a CVM derrubou a obrigatoriedade do padrão IFRS de relatos de sustentabilidade.
A Vivo já fazia isso independentemente de qualquer exigência. A companhia reduziu 91% das próprias emissões desde 2015, mantém nota máxima "A" no Carbon Disclosure Project (CDP) há seis anos e, desde 2019, amarra parte da remuneração variável dos executivos ao cumprimento de metas ambientais.
A Floresta Futuro Vivo é o capítulo mais recente dessa trajetória.
O trabalho de Nice
Toda essa engenharia, financeira, fundiária e comercial, pode ser copiada por outra empresa. O vínculo com quem vive ao redor da floresta, não.
A área da Floresta Futuro Vivo fica no entorno das Terras Indígenas Alto Turiaçu e Alto Rio Guamá, dos povos Ka'apor, Awá-Guajá, Tembé Tenetehara e Guajajara, e é o terreno mais delicado do projeto e também o mais decisivo, na conta da re.green.
Para que essas comunidades fossem ouvidas como parte do projeto da Vivo e não como espectadoras, foi fundamental o trabalho de Nice Tupinambá, jornalista e comunicadora indígena com histórico de articulação de políticas públicas junto aos povos da região.
Nos dias que antecederam a chegada de Gebara e sua equipe para o plantio das primeiras mudas, coube a ela conversar com as lideranças locais.
CEO da Vivo, Christian Gebara, ao lado de Nice Tupinambá e Thiago Picolo, da re.green: a relação com os povos do entorno é o elo mais lento, e mais decisivo, do projeto. (Fábio Audi)
"É a primeira vez que faço uma ponte assim entre o povo e uma grande empresa. Não é algo simples. O diálogo em geral já é complicado, imagina numa situação como essa, um povo muito sofrido, muito traumatizado, muito desconfiado", explica.
Antes de aceitar a missão, Nice diz ter feito algumas perguntas cruciais para a re.green. Satisfeita com as respostas, seguiu. "Entendo que carrego uma responsabilidade muito grande. Estou aqui com um povo que confia muito em mim, em tudo que já trouxe de trabalho e de políticas sociais com eles."
O diagnóstico socioeconômico da região ainda está em curso, e a escuta formal das aldeias apenas começou. A partir dela, as atividades do ciclo de engajamento da re.green serão definidas com as próprias comunidades.
Nice, porém, não idealiza o percurso. "Não é um mar de romantismo, pelo contrário. A decisão da Vivo e da re.green foi trilhar pelo caminho que não está aberto, que ninguém quis ainda seguir", analisa.
"Ainda que todo mundo saiba que sem regenerar, recuperar e parar de desmatar, não vamos conseguir salvar esse planeta, a maioria das pessoas segue de braços cruzados", avalia.
O teste vem depois
Concluído o plantio em 2027, a equipe da re.green passa a monitorar de forma contínua a fauna e a vegetação da área. Mais de 25 espécies ameaçadas poderão se beneficiar da restauração, que deve contribuir também para a recarga hídrica da bacia do rio Gurupi.
Contudo, o que se põe à prova ali vai além dos 800 hectares. É um compromisso longo, cujo retorno não cabe em nenhum ciclo de mandato ou de balanço.
Paragominas já mostrou, entre 2008 e 2010, que sabe conter a derrubada com fiscalização e crédito. O que se testa agora é a segunda metade da equação: se a recomposição privada em larga escala funciona onde o comando e controle já funcionou.
A Vivo não revela quanto custa o projeto, coerente com quem trata o gasto como legado, não como investimento a ser recuperado.
"Nem eu nem meus netos vamos ver essas árvores adultas, e é exatamente por isso que elas precisam ser plantadas agora", diz Gebara.
Se funcionar, o efeito maior não estará na área plantada, mas no exemplo. Vivo e re.green esperam que uma empresa sem nenhuma obrigação de restaurar floresta, ao assumir esse compromisso, torne mais difícil para as próximas seguirem inertes. É o incômodo que Nice deseja, transformado em método.
*A jornalista viajou a Paragominas a convite da Vivo
