No BR Partners, carteira cheia ainda não significa negócio fechado
Banco tem a maior carteira de potenciais operações de M&A de sua história, mas vê dificuldades para fechar negócios e aumento na demanda por reestruturação de dívidas

RESUMO +
O banco de investimento BR Partners prepara, a partir do fim de 2026, um ajuste de custos concentrado na remuneração diante da expectativa de um mercado mais fraco em 2027. Segundo Ricardo Lacerda, CEO e sócio-fundador, poderá haver mais profissionais do que negócios no setor. O banco pretende preservar empregos e vê oportunidades na reestruturação de dívidas.
O BR Partners já faz as contas para um 2027 mais difícil. O banco prepara um ajuste de custos a partir do fim deste ano, concentrado na remuneração, diante da expectativa de um mercado mais fraco para bancos de investimento. Na avaliação de Ricardo Lacerda, CEO e sócio-fundador da instituição, poderá haver mais gente no setor do que negócios para executar.
A preocupação apareceu em reunião com analistas, na qual Lacerda descreveu uma situação que ajuda a explicar o momento do banco: a carteira de potenciais fusões e aquisições é a mais forte de sua história, mas fechar as operações continua difícil. Há empresas de qualidade e diversidade de negócios na mesa. O que tem frustrado as expectativas é a passagem da negociação para o contrato assinado.
A expectativa no BR Partners é que o fim da incerteza eleitoral ajude a destravar parte dessas conversas. A queda das ações brasileiras, porém, trouxe uma dificuldade adicional. Com avaliações mais baixas, empresários podem desistir de vender ou resistir aos preços oferecidos pelos compradores. Na leitura de Lacerda, o mercado vinha se preparando para a vitória de um governo de direita, acompanhada de um ajuste fiscal. O resultado da eleição obrigou os investidores a refazer essas contas.
O executivo, contudo, ainda vê espaço para uma surpresa favorável ao longo do próximo mandato de Lula. Não descarta uma agenda econômica melhor que a atual, eventualmente com uma equipe mais próxima do mercado e maior disposição para ajustes fiscais. Para o planejamento do banco, a hipótese não elimina a necessidade de se preparar para um ano difícil.
Previsão: tempestade
O ajuste de despesas terá de preservar o principal ativo do BR Partners: os profissionais que trazem e executam os negócios. Por isso, a intenção é concentrar a redução na remuneração, em vez de cortes de pessoal. A relação entre despesas com remuneração e receitas deve terminar 2026 em cerca de 30%.
A conta exige cuidado também com os sócios. Na conversa com analistas, Lacerda ressaltou que o modelo de sociedade é central para o banco e que a remuneração precisa continuar atraente para reter talentos. Sua avaliação é que instituições estrangeiras poderão fazer cortes de pessoal maiores que os bancos locais, abrindo espaço para o BR Partners ganhar posição durante a desaceleração.
Outra frente já começa a trazer mais demanda: a reestruturação de dívidas. O banco tem recebido mais pedidos de assessoria para lidar com passivos entre R$ 400 milhões e R$ 1 bilhão. Operações com empresas ou ativos em dificuldades e fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDCs, estão entre as oportunidades identificadas pela administração.
Lacerda ainda não vê uma interrupção generalizada do crédito. Os grandes bancos continuam emprestando, mas a confiança será decisiva para os próximos meses. Se houver uma deterioração adicional das expectativas, as instituições poderão apertar as condições de financiamento e ampliar a pressão sobre as empresas.
Nas emissões de dívida, a perspectiva imediata é mais difícil. Além da mudança nas condições de mercado, pesam as preocupações com a saúde financeira das companhias e as incertezas sobre os instrumentos com incentivo tributário.
