No Brasil que envelhece, sobreviventes da hiperinflação movimentam R$ 409 bi em investimentos

Nos anos 1980, o economista D'Orto Neto, hoje com 67 anos, corria contra o relógio para estocar alimentos e caixas de leite antes que a hiperinflação destruísse o orçamento da casa. Ele tinha três filhos pequenos para sustentar. "Sobreviver com uma família naquela época era uma aventura muito grande", relembra. Mais de três décadas após o Plano Real estabilizar a moeda, a corrida de D'Orto é outra. A movimentação dos investimentos.
D'Orto é a face visível de um fenômeno que redesenha o mercado brasileiro, composto por um grupo restrito de pessoas da economia prateada que, embora represente uma fração minoritária em número de contas, detém um total de R$ 408,9 bilhões em investimentos alocados entre a B3 e o Tesouro Direto. Eles são os sobreviventes da inflação que, hoje, financiam o Estado e as maiores empresas do país.
O raio-x das cifras prateadas
Os dados oficiais da B3 revelam que o volume sob custódia pertencente a investidores com 60 anos ou mais atingiu o topo histórico de R$ 322 bilhões em abril. Esse montante, distribuído por um universo de 587.724 CPFs, mostra que poucos investidores seniores concentram grandes somas. Os homens lideram com R$ 254,4 bilhões e as mulheres detêm R$ 67,5 bilhões.
No Tesouro Direto, o descompasso demográfico é ainda mais visível. Do total de investidores ativos no programa do governo federal, os poupadores com 55 anos ou mais representam apenas 15% dos clientes. Contudo, eles detém 37% de todo o estoque de títulos públicos em custódia, somando R$ 86,9 bilhões, com R$ 44,5 bilhões na faixa de 55 a 64 anos e R$ 42,4 bilhões na de 65+.
Longe de repetir o estereótipo do idoso financeiramente passivo, esse público dita tendências pela sofisticação. D'Orto mantém uma divisão de 70% do portfólio em renda fixa e 30% em renda variável, geridos por ele mesmo. Na renda fixa, ele tem uma cartela de fundos e também títulos de acordo com a oportunidade.
Na parcela de risco, ele monta uma carteira focada em dividendos, fundos imobiliários e até uma pequena fatia de 5% em criptomoedas para "experimentar e ver como funciona".
"Na renda variável, já fiz, em um dado momento, quando teve muita variação do dólar, fundos que estão aplicando em câmbio e tinha uma parcela em ouro também. Agora eu já saí, já não estou fazendo mais, mas eu giro sempre da medida que eu enxergo o cenário", acrescenta.
D'Orto Neto: investidor tem 67 anos. (ARQUIVO PESSOAL)
Prateados investem com previsibilidade
Esse cenário de busca por fluxo de caixa constante reflete com precisão as estatísticas de mercado da B3. Historicamente, os dados da plataforma mostram que o público sênior lidera a busca por grandes bancos e empresas consolidadas, além de fundos de tijolo com contratos de locação previsíveis, priorizando a liquidez correlacionada à geração de renda.
"O que acontece também é que chega nesse momento da vida, as pessoas já adquiriram patrimônio, elas já têm mais tempo disponível também para entender as alternativas de investimento, então elas se sentem mais confortáveis em passar a experimentar outras alternativas", detalha a superintendente de negócios para pessoa física da bolsa, Christianne Bariquelli.
Bariquelli vê também que houve um processo de disseminação das plataformas de investimento e de avanço da educação financeira, alcançando diferentes perfis de investidores de forma transversal. Antes muitas pessoas tinham apenas conta em banco, enquanto hoje é comer se cliente de diferentes instituições financeiras, incluindo corretoras.
Mudança estrutural sob a velhice
O próprio Tesouro Nacional mapeou essa mudança estrutural e passou a encarar o investidor sênior como estratégico. "Esse público tende a prezar pela segurança e prazo de resgate na escolha pelos investimentos. Ao mesmo tempo, é um público que está chegando ou já está na fase de aposentadoria e que precisará, de imediato ou em poucos anos, de uma renda mensal", diz Bariquelli.
Essa percepção de necessidade de fluxo futuro foi a semente para o desenvolvimento de títulos estruturados como o Tesouro RendA+, voltado para a previdência complementar. Ele já atrai uma base de poupadores mais jovens que tentam antecipar o planejamento da velhice. No balanço de abril de 2026, o estoque alocado no RendA+ atingiu R$ 13,4 bilhões.
Expectativa de vida alta é avanço
Para o superintendente de educação da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Marcelo Billi, essa movimentação em produtos fora do tradicional reflete a necessidade de repensar as teorias financeiras diante do aumento da expectativa de vida, que é um avanço civilizatório.
Esse avanço esbarra, porém, na desigualdade de renda histórica do Brasil. Billi destaca que uma parte importante da população "não se preparou porque simplesmente não conseguia. Temos um pedaço grande, principalmente das classes C, D e E, vivendo historicamente em situação de vulnerabilidade social, com muita volatilidade de renda e pouco acesso ao mercado financeiro até os anos 1990."
"A universalização do acesso ao mercado financeiro e da bancarização aconteceu neste século", acrescenta o superintendente, fazendo com que o contraste com as classes A e B seja violento. É esse grupo restrito, que sempre teve capacidade de planejamento e blindagem patrimonial, que dita o volume de R$ 322 bilhões sob custódia na B3 e preenche as estatísticas de sofisticação financeira.
O crédito e mais desigualdade
Se por um lado esse Brasil "prateado" esbanja liquidez e financia boa parte dos estoques do mercado, por outro esbarra em barreiras invisíveis erguidas pelo sistema tradicional quando o assunto é o acesso ao crédito produtivo ou a expansão de negócios.
A reportagem solicitou à Federação Brasileira de Bancos (Febraban) dados sobre o volume e taxas de crédito para o público prateado, incluindo recortes por idade, gênero e estados, além de uma série histórica e entrevista sobre regras de concessão e potencial de crédito para idosos. A entidade informou que verificou o pedido, mas não dispõe das informações solicitadas no momento.
O economista, professor universitário e conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Brasil (Apimec Brasil), Ricardo Coimbra, destaca a necessidade de inovação na engenharia financeira de concessão de crédito.
"Há um descompasso claro entre a análise de risco de balcão e a realidade patrimonial da longevidade. O mercado precisa desenvolver mecanismos de garantias baseados no estoque de ativos desses indivíduos, como a própria custódia bilionária que possuem na B3, em vez de barrar o crédito unicamente por restrições de idade cronológica", cita Coimbra.
Para a cofundadora da Data8 e especialista em economia prateada, Layla Vallias, também fica claro o contraste entre o acesso ao crédito e o mercado de consumo 50+, o qual já é considerado um gigante que movimenta cerca de R$ 2 trilhões no país, com projeção de alcançar R$ 3,8 trilhões em 20 anos, passando a representar 35% de todo o consumo domiciliar privado nacional até 2044.
Vallias pontua que grande parte do mercado financeiro está olhando para os mais jovens devido ao etarismo, enquanto o outro lado olha para os maduros pelo recorte de renda. "É um erro mercadológico, porque, principalmente em países como o Brasil, que é tão desigual, a nossa massa de população consumidora não é de alta renda."
Ela também faz um alerta de que "o Brasil ainda não está preparado" para envelhecer com renda, crédito ou qualidade de vida. "A gente está envelhecendo antes de enriquecer, que é uma realidade do Brasil, da América Latina e do Caribe, dos países em desenvolvimento. Esse é um grande problema"."E, quando a gente olha para o Brasil comparado com outros países, temos um ritmo de envelhecimento semelhante ao do Canadá, que já é um país desenvolvido. Então, sim, temos realmente um grande desafio pela frente. Um desafio de não aumentar ainda mais o gap social da desigualdade", complementa.
E como ficam os juros?
O aumento acelerado da expectativa de vida vem redesenhando as contas da macroeconomia. O envelhecimento da população funciona como uma espécie de força de pressão sobre o risco fiscal brasileiro, ao ampliar as despesas previdenciárias e contribuir para a manutenção de juros reais mais altos.
Ainda assim, esse movimento não se traduz automaticamente em alta dos juros longos, avalia o estrategista de investimentos do Santander, Arley Matos da Silva Júnior. Ele explica que, por outro lado, "o envelhecimento também pode aumentar a demanda por ativos de renda previsível e proteção inflacionária, como o Tesouro IPCA+, especialmente em carteiras de aposentadoria."
"Portanto, há dois efeitos: maior demanda estrutural por títulos longos indexados à inflação, mas também maior prêmio de risco se o envelhecimento não vier acompanhado de algumas medidas de reformas", detalha Silva Júnior.
Brasil em encruzilhada
Já o doutor em demografia, José Eustáquio Diniz Alves, vê que o país vive uma encruzilhada temporal. "Você tinha em torno de quase 5% só de idosos na população, idosos de 60 anos ou mais. Hoje você já tem quase 20% de idosos e, no final do século, vamos ter 40% de idosos. Então isso é uma mudança na pirâmide etária completa."
"Ele não gera necessariamente estagnação, pobreza, como muita gente fala. Pode gerar. Isto é, se você não fizer nada, o envelhecimento populacional vai gerar pobreza." A solução está em mudar a ótica do mercado de trabalho e do mercado financeiro, diz Eustáquio.
"Quando eu falo em fazer, é aproveitar o segundo bônus demográfico, aproveitar o terceiro bônus demográfico. E aí o Brasil pode continuar crescendo", reforça.
Dignidade monetária no horizonte
Já no caso de quem investe com o relógio a favor, D'Orto enxerga uma mudança de portfólio natural. "Conforme a minha idade vai avançando, eu vou me tornando menos disponível para subir riscos. Hoje eu estou mais disponível a subir riscos. Daqui a 20 anos dificilmente eu vou ter a mesma disposição."
Ele não deixa de lembrar que o acúmulo de capital serve para financiar a fase da sua vida que realmente importa. "Agora eu gostaria de usar um pouco do crédito de taxa de juros, ou seja, as taxas de juros que estão sendo remuneradas, também para um pouco mais de alegria e satisfação da minha vida."
"Então eu procuro ter um certo equilíbrio entre a capacidade que eu tenho de poupança e a necessidade que eu tenho de ter um certo entretenimento para que eu possa ter uma vida mais feliz. Porque no final da história, a gente aplica o dinheiro, a gente trabalha para também ser feliz", destaca o investidor.
