No meio do caminho da Minerva, o gado ficou mais caro e a dívida virou prioridade
BTG estima liberação de R$ 1,3 bilhão em capital de giro; frigorífico mira alavancagem de 1,7 vez Ebitda

A menor disponibilidade de gado no Brasil pode se tornar um obstáculo para a Minerva justamente quando a companhia tenta reduzir seu endividamento. Depois de duas décadas marcadas por aquisições e expansão, o frigorífico colocou a desalavancagem no centro da estratégia e pretende levar a relação entre dívida e Ebitda para cerca de 1,7 vez antes de acelerar o pagamento de dividendos extraordinários.
No caminho, a companhia pode contar com um reforço de caixa. O BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) estima que a normalização dos estoques poderá liberar R$ 1,3 bilhão em capital de giro no 2º semestre de 2026.
O banco acredita que a Minerva conseguirá reduzir o endividamento, mas vê riscos para a velocidade desse processo. A tese é dos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, após participarem do encontro anual da companhia com o mercado financeiro, em Barretos, no interior de São Paulo.
O banco mantém recomendação neutra para a ação do frigorífico, apesar de estabelecer preço-alvo de R$ 7 para a ação. O valor representa potencial de valorização de 76,3% sobre os R$ 3,97 considerados no relatório.
A cautela dos analistas está ligada ao desafio de reduzir a dívida em um momento no qual a menor oferta de gado pode pressionar as margens da companhia.
A Minerva está exposta a duas forças que caminham juntas. De um lado, o BTG vê uma crescente escassez global de carne bovina, cenário que pode ajudar a sustentar a rentabilidade da indústria mesmo diante de uma eventual redução das importações chinesas.
O banco cita como exemplo a cota adicional de 300 mil toneladas para importações de carne bovina sem tarifa anunciada pelos Estados Unidos. Brasil e Paraguai estão entre os principais beneficiários e, no caso brasileiro, a oportunidade pode compensar parte dos efeitos das restrições impostas pela China neste ano.
Do outro lado está o preço do animal. O aumento da escassez de carne também reflete uma disponibilidade menor de gado, o que tende a valorizar a principal matéria-prima dos frigoríficos.
Para Duarte e Guttilla, margens menores e uma oferta mais restrita de animais no Brasil podem desacelerar a desalavancagem da Minerva nos próximos 12 meses. Parte do valor gerado pela escassez mundial de carne bovina, segundo os analistas, acaba sendo transferida para o preço do gado.
É essa dinâmica que ajuda a explicar por que uma visão positiva para o mercado de carne bovina não significa necessariamente uma visão igualmente positiva para as ações dos frigoríficos.
A dívida da Minerva
A preocupação com o balanço aparece depois de umlongo ciclo de crescimento. Durante o encontro, o CEO da Minerva, Fernando de Queiroz, lembrou que a companhia realizou 20 aquisições em 20 anos. Nesse período, saiu de aproximadamente 1 milhão de cabeças de gado processadas para quase 6 milhões nos últimos 12 meses.
A expansão permaneceu concentrada principalmente em carne bovina e na América do Sul, onde a empresa encontra oferta de animais e custos de produção competitivos.
Segundo os analistas, a administração demonstrou otimismo com a integração dos ativos adquiridos e a captura de sinergias. A mensagem agora também passa pela necessidade de transformar a escala construída ao longo dos anos em geração de valor para os acionistas.
Um dos sinais dessa mudança está na destinação do caixa. Segundo o BTG, a Minerva não pretende acelerar o pagamento de dividendos extraordinários enquanto a cobertura de juros não atingir o equivalente a 35% do Ebitda.
“No fim das contas, isso significa reduzir a dívida líquida quase pela metade antes que dividendos extras sejam considerados”, afirmam os analistas.
Segundo Duarte e Gutilla, citando o Edison Ticle, CFO da empresa, esse patamar seria alcançado quando a alavancagem chegasse a aproximadamente 1,7 vez o Ebitda, ante cerca de 3 vezes ao fim do segundo trimestre de 2026.
Nas contas do BTG, isso exigiria reduzir a dívida líquida praticamente pela metade antes de considerar pagamentos extraordinários aos acionistas.
O custo da dívida torna essa escolha mais relevante. Segundo o banco, as despesas financeiras consomem uma parcela elevada do fluxo de caixa operacional da Minerva, o que reduz a atratividade de direcionar recursos para dividendos neste momento.
A redução dos estoques pode ajudar a companhia nessa tarefa. O BTG estima uma liberação de aproximadamente R$ 1,3 bilhão em capital de giro no segundo semestre de 2026.
A Minerva vinha carregando estoques de carne acima dos níveis habituais em alguns mercados, especialmente nos Estados Unidos. No segundo trimestre, eles correspondiam a cerca de 37 dias do custo dos produtos vendidos, segundo estimativa do BTG, ante uma média de 30 dias nos últimos cinco anos.
A normalização desses volumes tende a liberar recursos que estavam imobilizados e pode ajudar na redução do endividamento.
O BTG acredita que a Minerva conseguirá avançar na desalavancagem. A dúvida dos analistas está no ritmo.
Uma menor disponibilidade de gado e a pressão sobre as margens podem tornar esse caminho mais lento e explicam a recomendação neutra mesmo diante do potencial de valorização calculado pelo banco.
“Embora haja um grande potencial de alta para a ação quando isso acontecer, o oposto também é verdadeiro”, afirmam Duarte e Guttilla.
