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14/07/2026
8 min

No Mercado Livre, vender mais com menos impacto passa por frota elétrica e a biometano

No Mercado Livre, vender mais com menos impacto passa por frota elétrica e a biometano

A pandemia de covid-19 transformou a logística do Mercado Livre em uma operação ainda maior — e mais emissora de gases de efeito estufa.

Em 2020, a empresa informou que sua pegada de carbono havia crescido mais de quatro vezes em relação ao ano anterior, impulsionada pelo avanço do comércio eletrônico durante o isolamento social. Em 2022, as emissões chegaram a 1,7 milhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), alta de 25% sobre 2021.

Cinco anos depois, a estratégia da companhia para reduzir esse impacto deixou de apostar apenas na eletrificação da frota. Hoje, a empresa combina veículos elétricos, etanol, biometano e gás natural veicular (GNV), além de inteligência artificial para otimizar rotas, telemetria, expansão da infraestrutura logística e iniciativas para reduzir embalagens e consumo de energia. A lógica é adaptar a tecnologia às características de cada país e tipo de operação.

A mudança acompanha o crescimento do negócio. Em 2025, o Mercado Livre realizou mais de 2,4 bilhões de vendas para 121 milhões de compradores únicos e inaugurou 32 centros logísticos de grande porte, além de desenvolver 65 projetos na rede de última milha.

Ao mesmo tempo, afirma ter realizado 218 milhões de entregas com emissões reduzidas e evitado a emissão de 32 mil toneladas de CO₂e por meio de iniciativas de mobilidade sustentável.

A empresa contou à EXAME mais sobre a estratégia que tem garantido mais entregas enquanto busca cada vez menos emissões e impacto ambiental.

Da eletrificação à combinação de tecnologias

Quando a pandemia acelerou o comércio eletrônico, o Mercado Livre percebeu que a eletrificação da frota, sozinha, não seria suficiente para acompanhar o ritmo de crescimento da operação. A empresa passou a desenhar uma estratégia baseada em diferentes tecnologias, escolhidas de acordo com a infraestrutura disponível, o perfil das rotas e a realidade de cada país da América Latina.

"A pandemia acelerou o e-commerce, ampliou nossa operação e colocou a logística no centro da discussão sobre emissões. A cadeia de entrega é onde temos maior capacidade de atuar, e também onde os desafios de descarbonização são mais complexos", afirma Rodrigo Brito, gerente sênior de Sustentabilidade Ambiental do Mercado Livre para a América Latina.

Segundo ele, a principal mudança foi abandonar a ideia de que apenas uma tecnologia resolveria o problema. "O principal aprendizado foi que não existe uma solução única. O Mercado Livre opera em diferentes países com infraestruturas distintas e atende rotas urbanas e de longa distância com dinâmicas completamente diferentes", explica. Isso levou a companhia a evoluir de uma estratégia focada na eletrificação da frota para uma abordagem mais abrangente, que combina veículos elétricos, etanol e biometano de acordo com a realidade de cada país, rota e operação.

Hoje, a frota de baixa emissão da empresa soma 17,5 mil veículos na América Latina. Desse total, mais de 4,5 mil são elétricos e cerca de 13 mil utilizam combustíveis alternativos, como etanol, biometano e GNV. O avanço é significativo em comparação com 2020, quando a companhia operava cerca de 51 veículos elétricos só no Brasil.

Exclusivo: Mercado Livre e MIDR levam produtores da bioeconomia ao e-commerce

No Brasil, onde está concentrada mais da metade da operação logística do Mercado Livre, o foco tem sido ampliar o uso de etanol e biometanotanto na primeira quanto na última milha. Segundo a companhia, esses combustíveis podem reduzir entre 65% e 95% das emissões em comparação com gasolina e diesel, dependendo da aplicação.

A estratégia, no entanto, também responde às limitações das tecnologias disponíveis. A oferta de infraestrutura de recarga para veículos elétricos ainda é insuficiente para atender operações de média e longa distância, enquanto o abastecimento de biometano permanece restrito em diversas regiões do país.

Eficiência operacional como um indicador climático

Além da substituição gradual dos combustíveis, a empresa passou a concentrar esforços em aumentar a eficiência da operação logística. Inteligência artificial é utilizada para otimizar rotas, melhorar a ocupação de paletes, pacotes e veículos e reduzir quilômetros percorridos. Parte da frota também opera com sistemas de telemetria que monitoram tempo de viagem, consumo de combustível, rotas e hábitos de condução dos motoristas para identificar oportunidades de ganho operacional.

"Nossa estratégia é integrar sustentabilidade e eficiência operacional, e não tratá-las como agendas separadas. Para uma operação da dimensão do Mercado Livre, reduzir emissões só faz sentido se as soluções também forem viáveis do ponto de vista operacional e puderem ser escaladas", afirma Brito.

Segundo o executivo, a combinação entre otimização de rotas, melhor aproveitamento da capacidade dos veículos, diversificação da matriz de combustíveis e redução de embalagens permite diminuir desperdícios sem comprometer prazo de entrega ou competitividade.

Essa lógica também orienta a forma como a empresa acompanha seus resultados. Em vez de observar apenas o volume absoluto de emissões — que tende a crescer à medida que o negócio se expande — o Mercado Livre afirma monitorar principalmente a intensidade de emissões por entrega.

"Desde a pandemia, o volume de envios cresceu de forma significativa, mas a intensidade de emissões por entrega segue em trajetória de redução, resultado dos ganhos de eficiência operacional e das iniciativas de descarbonização implementadas ao longo dos últimos anos", conta Brito. A companhia afirma que seu objetivo é desacoplar o crescimento da operação do aumento proporcional das emissões.

Inventário de emissões na cadeia logística

Para medir o impacto climático da operação, o Mercado Livre realiza anualmente seu inventário de emissões seguindo os três escopos do GHG Protocol, metodologia internacional utilizada para contabilizar gases de efeito estufa. O levantamento inclui as emissões diretas da companhia, o consumo de energia e também a cadeia de valor, incluindo parceiros responsáveis por parte da operação logística.

"Esse processo é continuamente aprimorado para aumentar a precisão dos dados e ampliar a cobertura da cadeia logística, incorporando um número cada vez maior de parceiros ao inventário", afirma Brito.

Foi com essa estratégia, afirma a companhia, que as iniciativas de mobilidade sustentável evitaram a emissão de aproximadamente 32 mil toneladas de CO₂ equivalente.

A redução das emissões também passa por mudanças que antecedem o transporte dos produtos. Uma delas é o programa Shipping in Own Container (SIOC), modelo em que os itens são enviados na própria embalagem do fabricante sempre que possível, dispensando uma segunda caixa. Segundo o Mercado Livre, a iniciativa já representa 21,4% dos envios na América Latina e contribui para reduzir o consumo de novas embalagens, a geração de resíduos, além do peso e do volume transportados.

"Também buscamos reduzir emissões antes mesmo do transporte acontecer. O programa reduz o uso de materiais, resíduos, peso e volume transportado", explica o gerente sênior.

Outra frente é a expansão das Agências Mercado Livre, rede formada por micro e pequenas empresas parceiras que atuam como pontos de coleta e retirada de encomendas. Para a companhia, aproximar os produtos dos consumidores torna a última milha mais eficiente e reduz deslocamentos desnecessários.

A estratégia inclui ainda a transição energética das operações. Atualmente, 51% dos centros logísticos e escritórios do Mercado Livre são abastecidos por fontes renováveis, como energia solar, eólica e biomassa. Apenas em 2025, nove novos centros migraram para energia limpa, mudança que, segundo a empresa, evitou a emissão de mais de 12 mil toneladas de CO₂ equivalente.

Crescimento da operação desafia redução das emissões

As iniciativas de eficiência ocorrem em paralelo à expansão da infraestrutura logística da empresa. Em 2025, o Mercado Livre inaugurou 32 centros logísticos de grande porte e desenvolveu 65 projetos na rede de última milha entre novas unidades e ampliações. Atualmente, 75% das entregas rápidas são concluídas em menos de 48 horas.

O desafio é manter esse ritmo de crescimento sem que as emissões avancem na mesma proporção. Segundo Brito, as iniciativas adotadas precisam ser operacionalmente viáveis e capazes de ganhar escala, conciliando eficiência logística, experiência do cliente e redução das emissões.

A empresa afirma responder ao CDP (Carbon Disclosure Project) desde 2020. Em 2025, recebeu nota B na avaliação sobre Mudanças Climáticas e, pela primeira vez, classificação A- no Supplier Engagement Assessment, indicador que mede o engajamento da cadeia de fornecedores na gestão de riscos climáticos.

Segundo Brito, o avanço nessa agenda depende também da ampliação do monitoramento da cadeia logística. "Esse processo é continuamente aprimorado para aumentar a precisão dos dados e incorporar um número cada vez maior de parceiros ao inventário."

Infraestrutura limita expansão de tecnologias de baixa emissão

Para o executivo, a principal barreira à descarbonização das entregas não está apenas nas decisões das empresas, mas na infraestrutura disponível no país. "Avançar nessa agenda depende da ampliação da oferta de tecnologias de baixas emissões e do engajamento de toda a cadeia logística", conta.

Entre os gargalos citados estão a baixa disponibilidade de pontos de recarga para veículos elétricos e de abastecimento com biometano, especialmente em rotas de média e longa distância. Caminhões e outros veículos pesados movidos por tecnologias de menor emissão também enfrentam limitações relacionadas ao custo, à autonomia e à oferta no mercado brasileiro.

Outro desafio envolve a rede de parceiros responsável por parte das entregas. Como boa parte da operação é realizada por transportadoras terceirizadas, a redução das emissões depende da adoção de novas tecnologias em toda a cadeia logística. "Ampliar a adoção de soluções de baixas emissões exige investimento, capacitação e acompanhamento contínuo de toda essa rede", afirma Brito.

Segundo o gerente sênior, é por esse motivo que a companhia participa de iniciativas como a Associação Brasileira de Logística (Abralog) e a Aliança pela Mobilidade Sustentável. "Acreditamos que essa é uma agenda que precisa ser construída de forma colaborativa. Os avanços serão mais consistentes quando todo o setor evoluir em conjunto."

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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