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04/06/2026
11 min

No palco do South Summit de Madri, uma homenagem a Luiza Trajano

No palco do South Summit de Madri, uma homenagem a Luiza Trajano

MADRI* — Presidente do conselho de administração do Magalu, Luiza Helena Trajano subiu ao palco do South Summit Madri no dia 3 de junho para falar sobre varejo, tecnologia, liderança e participação feminina nos negócios.

Ao lado de María Benjumea, fundadora do evento, a presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza contou como começou a trabalhar ainda jovem, falou da digitalização da companhia e defendeu mais mulheres nas mesas de decisão.

A participação no painel antecedeu outro momento da agenda de Luiza na capital espanhola. Nesta quinta-feira, 4 de junho, ela recebe das mãos do rei Felipe VI, da Espanha, o South Summit Leadership Award, prêmio concedido pelo evento a lideranças empresariais por trajetória e impacto social.

Para Luiza, a homenagem tem peso coletivo. Em entrevista à EXAME antes de subir ao palco, no dia 3, ela afirmou que o reconhecimento não se resume à sua história individual, mas envolve os funcionários do Magazine Luiza, as mulheres do grupo Mulheres do Brasil e os homens que apoiam a pauta da igualdade.

“Esse reconhecimento representa o trabalho de milhares de pessoas que caminharam comigo ao longo dessa trajetória, entre funcionários, parceiros e as mulheres que participam do Mulheres do Brasil”, diz Luiza.

O prêmio reconhece duas frentes da trajetória da empresária: a transformação do Magazine Luiza em um dos principais grupos de varejo e tecnologia do Brasil e o trabalho do Mulheres do Brasil, movimento criado por ela em 2013 para atuar em temas como empreendedorismo, educação, inclusão e combate à violência contra a mulher.

O palco em Madri

O South Summit é um dos principais eventos de inovação e empreendedorismo da Europa. A edição de Madri reúne startups, investidores, executivos e representantes do setor público para discutir tecnologia, novos negócios e transformação digital.

No painel com María Benjumea, Luiza falou em português, com tradução simultânea para o público. A conversa percorreu sua trajetória pessoal, a história do Magazine Luiza, a criação do Mulheres do Brasil e a defesa da presença feminina em cargos de liderança.

Luiza começou lembrando a origem em Franca, no interior de São Paulo. Ela citou a influência de uma família formada por mulheres empreendedoras e disse que cresceu ouvindo mais incentivos do que limites.

“Eu vim de uma família de mulheres empreendedoras. Então eu acho que foi meu grande momento ter nascido nessa família”, diz Luiza.

Ela também contou que começou a trabalhar cedo. Aos 12 anos, segundo relatou no palco, pediu dinheiro à mãe para comprar presentes. A resposta foi um convite para trabalhar. Aos 15, passou a atuar como vendedora temporária no Natal.

Essa vivência no comércio aparece na forma como Luiza costuma falar de negócios. O discurso tem menos foco em teoria e mais em teste, loja, cliente, funcionário e comunidade.

O palco do South Summit serviu também para apresentar uma trajetória que mistura varejo e transformação digital e uma visão de liderança ligada à comunidade.

A homenagem do Rei

A entrega do South Summit Leadership Award é concedida pelo South Summit a nomes empresariais reconhecidos pela trajetória e impacto social.

Segundo a organização do evento, a escolha de Luiza leva em conta sua atuação no Magazine Luiza e seu trabalho em iniciativas ligadas à inclusão, educação, empreendedorismo e redução das desigualdades.

María Benjumea afirmou, em material do evento, que Luiza representa uma forma de liderança que coloca pessoas no centro da construção de empresas e mede o sucesso também pelo impacto gerado na sociedade.

Ao falar sobre a entrega do prêmio, Luiza destacou o significado do reconhecimento.

“É uma honra receber esse reconhecimento das mãos do rei Felipe VI”, diz Luiza.

Ela também creditou a Benjumea e à organização do South Summit o convite para estar em Madri. A empresária disse que tinha outro compromisso no Brasil, em Bonito, no Mato Grosso do Sul, com mulheres indígenas, mas mudou a agenda para participar do evento.

“Eu tinha um compromisso lá em Bonito com mulheres também indígenas, muito sério, que eu já tinha assumido. Então foi um pouco de eu ter que tirar disso para poder fazer. Mas no fim deu tudo certo”, diz.

A homenagem reconhece uma trajetória construída entre negócios e mobilização social e conecta a atuação de Luiza ao debate sobre empreendedorismo feminino e inclusão.

A relação de Luiza com o South Summit

A conexão de Luiza com o South Summit começou no Brasil. Ela já havia participado da edição brasileira do evento, realizada em Porto Alegre, e disse ter se aproximado da proposta por enxergar no encontro uma mistura de tecnologia, inovação, diversidade e presença feminina.

“O South Summit sempre me chamou a atenção pela combinação entre inovação, diversidade e conexão entre as pessoas”, diz Luiza.

Luiza também afirmou ter se aproximado ainda mais do evento após as enchentes no Rio Grande do Sul. Segundo ela, a decisão de prestigiar a edição brasileira teve relação com a situação vivida pelo estado.

“Depois teve a enchente, eu larguei de ir para outros lugares para poder prestigiar, porque foi um dos lugares mais atingidos. Eu me senti no dever de estar junto”, afirma.

Em Madri, ela disse ter visto traços parecidos com a edição brasileira: presença de jovens, startups, empresas maiores e públicos diferentes no mesmo espaço.

“Eles levam também muita diversidade. Então você vê jovens, pessoas, startups, empresas de muito tempo”, diz.

O que mais chamou sua atenção foi a mistura de perfis no evento e a capacidade de reunir startups e grandes empresas no mesmo ambiente.

Por que Luiza foi escolhida

A homenagem a Luiza passa pela combinação entre sua trajetória empresarial e sua atuação fora do Magazine Luiza.

No varejo, ela participou da modernização da companhia fundada em 1957 no interior paulista. No painel, relembrou uma das primeiras apostas digitais do grupo: a loja eletrônica, criada em 1991, quando o varejo físico ainda era dominante.

A loja não tinha produtos no espaço físico. A venda acontecia por meio de TV e vídeo. Era uma forma de chegar a cidades menores sem montar estruturas grandes.

“Em 91 a gente criou uma loja que já não tinha produto e era através de TV e vídeo. Chamava loja eletrônica”, diz Luiza.

A empresária contou que o modelo causava estranhamento porque não havia redes sociais, internet de massa ou cultura digital. Para reduzir a resistência, a empresa passou meses explicando o formato às comunidades antes de abrir as unidades.

“Quando a gente vai fazer uma coisa, a gente tem que pensar naquilo que não vai dar certo. E aquilo que pode dar errado é o que eu procuro trabalhar junto”, afirma.

A companhia também criou centros de promoção ligados às lojas, com cursos e atividades para moradores. Era uma forma de aproximar o negócio da comunidade local.

Essas iniciativas ajudaram a construir uma cultura de teste constante de novos formatos e de aproximação com o consumidor.

A digitalização do Magazine Luiza

A experiência com as lojas eletrônicas ajudou a companhia a entrar mais cedo na internet. O site do Magazine Luiza foi criado em 2001. Dois anos depois, nasceu a Lu, personagem digital da marca.

No palco, Luiza disse que a personagem começou simples e foi ganhando novas funções com o tempo.

Hoje, segundo Luiza, a Lu atua também no WhatsApp, canal de uso amplo no Brasil. A personagem atende o cliente sem que ele precise sair do aplicativo.

“Ela é a primeira influenciadora do mundo que está no WhatsApp sendo a atendente. Ela te atende tudo sem sair do WhatsApp, até você receber o produto”, afirma.

Para Luiza, a lógica da inovação na empresa sempre foi testar com pouco custo, manter o que funciona e interromper o que não dá resultado.

“Deu errado, a gente para. Deu certo, a gente continua. Não temos medo de experimentar”, diz.

A estratégia ajudou a construir uma cultura de testes rápidos e baixo custo e de adoção antecipada de tecnologia.

O Mulheres do Brasil

O outro eixo da homenagem é o Mulheres do Brasil. O movimento foi criado em 2013, depois de uma reunião com 40 mulheres em Brasília para discutir empreendedorismo.

No painel, Luiza disse que sempre foi convidada para entrar na política, mas escolheu outro caminho: mobilizar a sociedade civil.

“Eu sou uma política porque eu acredito em políticas públicas. Eu acho que políticas públicas é que mudam um país, mas eu nunca me filiei a partido político”, diz.

Segundo Luiza, o grupo nasceu de uma conversa sobre empreendedorismo feminino e cresceu com alguns princípios: não ser partidário, não atuar contra os homens, não usar a rede para benefício próprio e trabalhar por causas concretas.

Hoje, segundo ela, o Mulheres do Brasil reúne 154 núcleos e está presente em todos os continentes.

“Nós temos mulheres mais simples como temos cientistas. Nós temos 18 grupos de trabalho diferentes”, diz.

A pauta comum em todos os países é o combate à violência contra a mulher. Outras frentes variam conforme a cidade ou o país.

O movimento se transformou em uma rede com presença internacional e foco em educação, empreendedorismo e inclusão.

A meta de 2030

Uma das principais campanhas atuais do Mulheres do Brasil é ampliar a presença feminina em cargos de liderança até 2030.

“Nós teremos 50% de mulheres em todos os níveis mais altos junto com os homens. Os homens não vão ficar fora”, afirma.

Ela reforça que sua visão de feminismo não envolve disputa entre gêneros.

“Feminismo significa igualdade entre homens e mulheres. Não se trata de uma disputa, mas de ampliar oportunidades”, diz Luiza.

Na entrevista à EXAME, Luiza afirmou que o tema avançou nos últimos anos.

“Nos últimos anos houve um avanço importante na participação das mulheres em diferentes espaços de decisão”, afirma.

A meta envolve ampliar a presença feminina na liderança e aumentar a participação das mulheres em espaços de tomada de decisão.

Mulheres na política e nos negócios

Luiza também relaciona a pauta feminina à política. Ela citou que as mulheres ocupam hoje cerca de 18% das cadeiras na política brasileira e afirmou que a participação precisa aumentar.

“A participação feminina na política tende a crescer nos próximos anos e deve ocupar um espaço maior do que ocupa hoje”, diz Luiza.

O movimento também pretende pedir compromissos de candidatas em temas como educação, saúde, habitação, diversidade e democracia.

A lógica, segundo Luiza, é acompanhar essas agendas sem vínculo partidário.

O debate envolve tanto representação política feminina quanto maior presença das mulheres em cargos de liderança empresarial.

Empreendedorismo feminino como causa

O empreendedorismo feminino aparece como ponto central da homenagem porque conecta a trajetória empresarial de Luiza à atuação do Mulheres do Brasil.

No painel, ela afirmou que o grupo nasceu de uma conversa sobre empreendedorismo em uma época em que o tema ainda era pouco debatido no país.

“Fomos 40 mulheres há 13 anos para falar sobre empreendedorismo, que nem se falava direito nisso em Brasília”, diz.

Para Luiza, a defesa de mais mulheres em cargos de decisão também tem impacto econômico.

“Eu luto muito para essa igualdade nas decisões, de ter mulher e homem junto”, afirma.

A pauta conecta geração de renda para mulheres e ampliação da participação feminina nos negócios.

O Brasil visto de Madri

Durante a passagem pelo South Summit, Luiza também comparou o ambiente de inovação da Espanha com o Brasil.

“O que eu senti aqui muito rapidamente é que o Estado e o país se uniram muito para as startups”, diz.

Segundo ela, no Brasil há muitas iniciativas, mas o ecossistema ainda parece mais fragmentado.

“No Brasil se faz muito com startup, mas eu ainda acho que a gente está mais fragmentado”, afirma.

A observação veio depois de circular pelo evento e conversar com empreendedores e lideranças locais.

Ela destacou a relação entre setor público e startups e a construção de um ecossistema mais integrado.

O peso do South Summit

O South Summit em Madri tem entre seus organizadores a IE University e se consolidou como uma plataforma de conexão entre startups, investidores, empresas e governos.

Segundo os organizadores, as 14 edições realizadas em Madri reuniram mais de 42.500 startups. Mais de 1.500 empresas passaram pela Startup Competition, competição oficial do evento.

A edição de Madri ocorre em um momento de aproximação entre Europa e América Latina e reforça o papel do evento como ponto de encontro de startups, investidores e grandes empresas.

A mensagem levada ao palco

No encerramento da conversa com Benjumea, Luiza voltou ao tema que atravessou toda sua participação: a combinação entre negócios, tecnologia e presença humana.

“A tecnologia faz parte da nossa cultura, mas as pessoas continuam valorizando o encontro presencial”, diz Luiza.

Para Luiza, eventos como o South Summit mostram que a tecnologia não elimina o encontro presencial.

“Eu acredito num encontro que seja através das telas, mas que seja também um encontro para o bem comum”, afirma.

A mensagem final reuniu tecnologia e relações humanas e reforçou a importância de construir comunidades presenciais mesmo em um mundo cada vez mais digital.

*O jornalista viajou a convite do South Summit

AutorLeo Branco
FonteExame
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