Nordeste supera Sul e vira 2º maior mercado de FIDC do Brasil, diz estudo

O mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) começa a ganhar espaço além do eixo Rio-São Paulo. Levantamento do Grupo IOX mostra que o Nordeste já responde por 9,3% das operações de crédito privado estruturado no Brasil, tornando-se a segunda principal região do país nesse segmento.
O percentual coloca a região à frente do Sul, que concentra 8,2% das operações, enquanto o Sudeste segue dominante, com 77,8% de participação.
O avanço ocorre em um momento de expansão dos instrumentos de crédito estruturado, impulsionados pela busca de empresas por alternativas ao financiamento bancário tradicional. Em um ambiente de juros elevados, com a taxa Selic em 14,5%, os FIDCs ganharam relevância ao permitir que companhias antecipem recebíveis.
Apesar do crescimento, nem todo FIDC é acessível a qualquer investidor. Com as regras mais recentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o produto foi parcialmente aberto ao público em geral, mas com restrições: investidores comuns só podem aplicar em cotas com prioridade no recebimento e em fundos com critérios específicos de governança.
As cotas de maior risco, que absorvem as primeiras perdas em caso de inadimplência, continuam reservadas a perfis mais sofisticados. Em qualquer caso, o instrumento exige atenção à qualidade dos recebíveis e à capacidade de pagamento das empresas que originam as dívidas, uma análise que vai além do que se faz em aplicações de renda fixa tradicionais.
Demanda por crédito impulsiona crescimento
A posição do Nordeste reflete uma combinação de fatores econômicos e estruturais. Entre eles está a forte presença de empresas de médio porte na região, segmento que, frequentemente, encontra mais obstáculos para acessar linhas tradicionais de financiamento.
Estimativas citadas pelo estudo mostram que cerca de 100 mil empresas médias no país enfrentam dificuldades para obter crédito. Esse cenário tende a ser mais desafiador em períodos de juros elevados, ampliando a procura por mecanismos alternativos de captação de recursos.
A expansão da atividade econômica regional também ajuda a explicar o avanço dos FIDCs. Setores como agronegócio, varejo, energia, infraestrutura e serviços vêm ampliando operações fora dos grandes centros financeiros, gerando demanda crescente por capital de giro e financiamento.
Descentralização do mercado de FIDCs no Brasil
O levantamento aponta ainda para um movimento mais amplo de interiorização do crédito privado no Brasil. Historicamente concentrado no Sudeste, o mercado de capitais tem ampliado sua presença em outras regiões à medida que investidores e estruturadores buscam novas oportunidades de crescimento.
Para o diretor de relações com investidores do Grupo IOX, Vicente Guimarães, o processo acompanha uma mudança no perfil dos investidores. "O investidor deixou de comprar apenas taxa. Hoje, ele avalia a tese, a estrutura e a governança da operação", afirma.
Na avaliação do executivo, o cenário favorece operações lastreadas em ativos reais e estruturas capazes de oferecer maior previsibilidade de fluxo de caixa. "Em um cenário mais desafiador, quem domina análise técnica, fluxo de caixa e estruturação terá vantagem. Estruturas lastreadas e bem organizadas entregam previsibilidade."
Captação cresce mesmo com saídas da indústria
O crescimento dos FIDCs ocorre em um momento de contraste dentro da indústria de fundos. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), referentes a abril, mostram que, enquanto o setor de fundos registrou resgates líquidos de R$ 18,1 bilhões, os FIDCs seguiram na direção oposta.
A categoria liderou as captações líquidas do período, com entrada de R$ 4,5 bilhões, reforçando o interesse dos investidores por estratégias de crédito privado. O movimento também sugere uma busca crescente por diversificação em ativos fora dos mercados mais tradicionais.
