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Mundo
05/11/2026
6 min

Nos anos 90, uma virada republicana no Congresso travou Bill Clinton. Como ficará Trump?

Apesar de não ter impedido a reeleição do democrata em 1996, o Executivo teve que frequentemente se adequar às demandas dos parlamentares eleitos na 'Revolução Republicana' de 1994

Nos anos 90, uma virada republicana no Congresso travou Bill Clinton. Como ficará Trump?

O Partido Democrata teve no Congresso dos Estados Unidos quatro décadas ininterruptas como maioria, em um período que durou de 1955 a 1995. Esses anos de dominância, porém, terminaram a partir de um grande movimento legislativo do Partido Republicano nas eleições de Midterm de 1994, quando o democrata Bill Clinton estava em seu primeiro mandato como presidente dos EUA.

Chamada de "Republican Revolution" ("Revolução Republicana", em tradução livre), essa onda vermelha que tomou o governo norte-americano foi responsável por mudar profundamente o curso dos governos de Clinton.

Apesar de não ter impedido a reeleição do democrata em 1996, o Executivo teve que frequentemente se adequar às demandas dos parlamentares defensores do "Contract with America" ("Contrato com a América"), uma agenda legislativa conservadora inspirada pelo ex-presidente Ronald Reagan e escrita por Newt Gingrich e Dick Armey.

De acordo com um artigo publicado na revista Politico em 2014, Bill Clinton foi pressionado pelos republicanos a reformar o sistema de assistência social e realizar cortes orçamentários, divergindo de suas propostas originalmente apresentadas durante a campanha para a Presidência em 1992.

Nesta terça-feira, 3, o governo republicano de Donald Trump sofreu uma derrota substancial nas eleições de meio de mandato, com os democratas conquistando o controle da Câmara dos Representantes e do Senado. Assim como aconteceu com Clinton há 32 anos, o resultado abre um novo capítulo de disputa entre a Casa Branca e o Legislativo.

Como foi a Revolução Republicana de 1994?

A vitória republicana de 1994 foi uma das maiores reviravoltas políticas da história recente dos Estados Unidos. Até então, os democratas controlavam a Câmara havia 40 anos e mantiveram uma maioria no Senado durante a maior parte do período. O resultado das midterms mudou esse equilíbrio, após os republicanos conquistarem 54 cadeiras na Câmara e nove no Senado, segundo o balanço apresentado pelo jornalista Robert D. Novak em 1998 no The New York Times.

O movimento foi articulado principalmente por Newt Gingrich, então deputado pela Geórgia, que reuniu candidatos republicanos em torno do "Contract with America". Assinado por mais de 300 postulantes ao Congresso em setembro de 1994, o documento prometia colocar em votação, nos primeiros cem dias da nova legislatura, uma série de medidas conservadoras.

Entre as propostas estavam cortes de impostos, reforma da assistência social, redução da estrutura do governo federal, limites ao mandato de congressistas e uma emenda constitucional para exigir o equilíbrio do orçamento. A estratégia também transformou a eleição em um referendo nacional sobre o governo Clinton, que havia chegado à Casa Branca com a promessa de reformar Washington, ampliar o acesso à saúde e modernizar políticas sociais.

O resultado foi uma derrota abrangente para os democratas. Em artigo publicado na revista The New Yorker em novembro de 1994, o jornalista Michael Kelly descreveu a vitória como o fim, ao menos naquele momento, de uma era de domínio do liberalismo democrata na política federal americana.

A nova maioria prometia cumprir o contrato eleitoral. "Pretendemos ser revolucionários, no sentido de que pretendemos fazer depois da eleição o que dissemos que faríamos antes dela", declarou Gingrich na época. O republicano assumiu a presidência da Câmara e passou a liderar uma agenda legislativa que colocou Clinton na defensiva.

Clinton teve de negociar com a oposição e resistir

Com os republicanos no comando das duas Casas, Clinton precisou rever parte de sua estratégia de governo. A reforma da assistência social, por exemplo, avançou em direção a um modelo mais restritivo do que o inicialmente defendido pelo presidente. O orçamento e os gastos federais também se tornaram pontos centrais da disputa.

O embate mais emblemático ocorreu no fim de 1995, quando divergências sobre o orçamento levaram a duas paralisações do governo federal, conhecidos nos EUA como shutdowns. Clinton vetou propostas republicanas, e a oposição não conseguiu sustentar a pressão para impor seus termos. A disputa terminou com um acordo que favoreceu o presidente e desgastou a liderança de Gingrich.

A experiência também expôs as divisões dentro do próprio Partido Republicano. O entusiasmo da vitória de 1994 deu lugar a disputas entre parlamentares mais ideológicos e integrantes da velha guarda, menos dispostos a romper com práticas tradicionais do Congresso.

Em 1998, a oposição já enfrentava dificuldades para manter a unidade e a agenda reformista neoliberal. Naquele ano, mesmo com o processo de impeachment de Clinton em andamento, os democratas conseguiram um resultado inédito: ganharam cadeiras na Câmara em uma eleição de meio de mandato realizada no sexto ano de uma Presidência. Gingrich deixou o comando da Casa e renunciou ao Congresso.

Em 1998, Novak descreveu o episódio como a "Surrender of '98" ("Rendição de 1998", em tradução livre). Para o jornalista, a revolução republicana havia perdido força porque a liderança do partido abandonara parte das promessas que sustentaram a vitória de 1994 e passara a priorizar a sobrevivência política dos parlamentares.

O que a experiência de Clinton indica para Trump?

A derrota republicana nas midterms de 2026 também transforma o Congresso em um obstáculo para a agenda presidencial. Durante os meses de campanha, Trump pediu repetidamente que os eleitores considerassem que ele estava na cédula de votação. O eleitorado atendeu ao chamado, mas o veredito não foi o esperado pela Casa Branca.

Os democratas conquistaram o controle das duas Casas, em uma disputa marcada pelo custo de vida, pela inflação e pela insatisfação com a gestão republicana. O resultado foi acompanhado por vitórias em estados tradicionalmente conservadores, como Texas e Kansas, e por uma mudança no comportamento de grupos que haviam apoiado Trump em 2024.

O presidente, por sua vez, aceitou o resultado das eleições, mas sinalizou que pretende recorrer ao poder de veto para conter iniciativas da oposição. Também afirmou que buscará acordos com os democratas.

Para Lucas de Souza Martins, professor da Temple University e consultor do Washington Office on Latin America, o resultado representa uma reprovação à política econômica do governo, especialmente diante da dificuldade de os americanos alcançarem objetivos associados ao chamado sonho americano.

"É a troca de carro com facilidade, o sonho da casa própria, o emprego alinhado com aquilo que foi estudado na universidade, bons salários, tudo isso continua sendo algo mais difícil de se alcançar", afirma.

O custo de vida, que já havia sido central na eleição presidencial anterior, voltou a pesar sobre o resultado. A pressão sobre o orçamento das famílias foi agravada pela alta dos combustíveis em meio à guerra iniciada pelos Estados Unidos contra o Irã. Além disso, Trump chegou às urnas com índices de aprovação próximos dos piores registrados por presidentes americanos na história recente. Uma pesquisa da Associated Press e do NORC Center for Public Affairs Research apontou que apenas 26% dos americanos aprovavam sua gestão na economia.

A comparação com Clinton, porém, tem limites. Em 1994, a vitória republicana abriu espaço para uma agenda legislativa conservadora que acabou enfraquecida por conflitos internos e recuos da própria liderança. Agora, os democratas terão a oportunidade de fiscalizar o governo, dificultar a aprovação de projetos e investigar decisões da administração Trump.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
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