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Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
14/08/2026
8 min

'Nova' Americanas aposta em eficiência para se reconstruir, mas balanço aponta novo prejuízo

Analistas veem acerto na estratégia da companhia, mas apontam que o desafio agora é fazer a operação melhorar mais rápido que o custo da dívida

'Nova' Americanas aposta em eficiência para se reconstruir, mas balanço aponta novo prejuízo

Três anos e meio após a maior fraude corporativa do Brasil, a Americanas (AMER3) tenta escrever um novo capítulo de sua história quase centenária. Mas o balanço do 2° trimestre mostra que ainda há muito a ser feito.

A companhia apresentou prejuízo líquido de R$ 274 milhões entre abril e junho deste ano, alta de 179,6% em relação aos R$ 98 milhões negativos registrados um ano antes. O Ebitda ajustado, indicador que mede o desempenho operacional sem efeitos financeiros e contábeis, caiu 51,5%, para R$ 145 milhões, enquanto a receita líquida recuou 1,7%, para R$ 3,3 bilhões.

Os números, isoladamente, parecem pouco compatíveis com anarrativa de recuperação defendida pela administração. Mas é na operação que a Americanasconcentra seus esforços e onde seus executivos enxergam os sinais mais importantes de reconstrução da varejista.

"A nossa companhia ainda gera um resultado operacional negativo", afirmou o CEO Fernando Soares em entrevista à EXAME nesta quinta-feira, 13. "Com os efeitos extraordinários, o resultado fica muito volátil: uma hora aparece positivo, outra hora volta a ficar negativo. Por isso, estamos limpando esses efeitos e olhando apenas para a operação".

Nesse recorte, a companhia aponta que saiu de uma perda de R$ 796 milhões no 1° semestre de 2024 para R$ 548 milhões em 2025 e chegou a R$ 297 milhões negativos neste semestre. Ainda é um resultado negativo, mas representa uma melhora de cerca de R$ 250 milhões em um ano. Um ponto alto, segundo a empresa, é a disciplina na gestão de despesas, com uma economia de R$ 76 milhões no semestre.

O chamado Same Stores Sales (SSS), indicador que mede o desempenho das unidades com um ano ou mais de operação, cresceu 9,3% no primeiro semestre, enquanto as despesas de vendas, gerais e administrativas recuaram 12,3% no segundo trimestre, para R$ 772 milhões. As vendas online a partir do estoque das lojas físicas, por sua vez, avançaram 74,6% no semestre.

A Páscoa ajuda a explicar o trimestre, mas não resolve tudo

O CFO da Americanas, Sebastien Durchon, explica que parte da dificuldade de leitura dos números vem justamente da comparação com os anos anteriores. Em 2024 e 2025, a companhia reconheceu centenas de milhões de reais em créditos fiscais e decisões judiciais favoráveis. Esses ganhos extraordinários ajudaram os resultados passados, enquanto a operação ainda apresentava perdas.

Agora, os efeitos tributários estão diminuindo e, ao mesmo tempo, a perda operacional também está encolhendo. "A soma dos dois passa a impressão que a variação é negativa, mas dentro dessa variação negativa você tem uma redução muito grande do ganho tributário que ajudou no passado, que não ajuda quase nada hoje, e você tem essa perda operacional que vem reduzindo", disse Durchon.

Apesar da melhora operacional, a companhia ainda terminou o trimestre em uma situação financeira mais pressionada. A Americanas saiu de uma posição de caixa líquido de R$ 488 milhões no fim de 2025 para uma dívida líquida de R$ 1.023 bilhão em junho. O caixa consolidado ficou em R$ 1,1 bilhão, enquanto o consumo de caixa nos últimos 12 meses chegou a R$ 860 milhões.

A varejista atribui parte desse movimento à sazonalidade do negócio e aoinvestimento em capital de giro. No semestre, também houve R$ 273 milhões em pagamentos extraordinários para quitação de passivos federais e regularização tributária.

A Americanas também argumenta que a comparação entre os segundos trimestres é prejudicada pelo calendário da Páscoa. Em 2025, a data ocorreu em 20 de abril, enquanto, neste ano, 5 de abril. Com isso, parte das vendas que ficaram no segundo trimestre do ano passado foi antecipada para o primeiro trimestre de 2026.

Mercado vê balanço como negativo

"O resultado foi ruim e a queda das ações nesta quinta mostra que o mercado fez essa leitura rapidamente", afirmou Olivia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.

A executiva avalia que a Páscoa é, de fato, uma explicação economicamente válida, mas não suficiente para neutralizar a leitura negativa do balanço. Mas destaca que a direção da companhia "está correta" ao colocar a melhora operacional como "prioridade absoluta".

"Neste estágio, a Americanas não deveria perseguir crescimento a qualquer custo, mas eficiência, rentabilidade, giro e geração de caixa. A discussão não é recuperar rapidamente o tamanho que a companhia possuía antes da fraude. É descobrir qual tamanho de Americanas consegue efetivamente produzir retorno econômico de forma sustentável. A prioridade não é voltar a ser grande. É voltar a ser boa", afirma Brás.

A leitura é semelhante à de Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. Para o especialista, embora a administração diga que o foco está na melhora operacional, ainda falta evidência concreta disso no balanço.

"Pode até ser que o foco da empresa esteja na melhora operacional, mas isso ainda não está aparecendo no balanço. Não se vê, de fato, uma evolução com tanta força. A direção pode estar buscando essa virada, mas, por enquanto, ainda não há um reflexo concreto nos resultados", afirmou.

O assessor de investimentos Mário Machado, da InvestSmart/XP, também chama atenção para a diferença entre a reestruturação financeira e a recuperação operacional. Na avaliação do analista, o balanço mostra que a empresa terminou uma reestruturação e começou outra, agora com o desafio de fazer o negócio produzir resultado suficiente para sustentar a estrutura financeira.

A Americanas trocou uma dívida antiga por R$ 2,15 bilhões em debêntures da 22ª emissão, que deram à companhia prazo para atravessar a recuperação. O custo dessa nova estrutura, porém, é relevante, já que duas séries pagam 128% do CDI, enquanto outra é remunerada em dólar + 8,35% ao ano. As debêntures tinham 24 meses de carência, encerrada em julho, o que significa que a companhia passou a arcar efetivamente com os juros dessa dívida.

"Quem sai de uma reestruturação sai com tempo comprado, e o tempo comprado tem preço — que neste caso é 128% do CDI, e começou a ser cobrado em julho. Vale para uma companhia aberta de 1.448 lojas e vale para uma empresa familiar que renegociou dívida no ano passado. A pergunta, nos dois casos, é a mesma: a operação melhora mais rápido do que o custo do fôlego que se comprou?", questionou Machado.

A ação ainda carrega a cicatriz do escândalo contábil

Os papéis AMER3 fecharam esta quinta-feira em queda de 4,35%, a R$ 3,74. Durante o pregão, chegaram a cair mais de 7%, negociadas na região de R$ 3,60. No ano, os papéis acumulam queda de 26,71%. Em 12 meses, a desvalorização chega a 31,31%.

A reação acontece em um papel que ainda carrega uma das maiores perdas de confiança da história do mercado brasileiro. Em 11 de janeiro de 2023, a Americanas revelou inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões. No dia seguinte, as ações despencaram de R$ 1.200 para R$ 272.

Desde então, a empresa passou por uma profunda reestruturação financeira e entrou em recuperação judicial. Em 25 de março, a companhia protocolou umpedido formal de encerramento do processo de recuperação na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, alegando ter cumprido as obrigações previstas no plano.

Em 9 de julho, a empresa informou que recebeu pareceres favoráveis do Ministério Público e do Administrador Judicial, mas desde então aguarda a decisão final do Juízo. A companhia, no entanto, ainda convive com as consequências do escândalo.

Em 25 de junho, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Disclosure, investigação sobre a fraude contábil que atingiu a Americanas. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, com bloqueio de bens e valores de investigados até o limite de R$ 54 bilhões.

Entre os alvos estavam Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, acionistas de referência, além de integrantes do conselho e executivos ou ex-executivos de bancos que mantinham operações com a varejista. A Americanas afirma que não foi alvo dos mandados e que a investigação se refere à fraude revelada há três anos.

É nesse contexto que a administração tenta diferenciar a companhia atual daquela que existia antes da crise.

Soares diz que a empresa reduziu a dependência do e-commerce, fortaleceu as lojas físicas e passou a usar sua rede de estabelecimentos como parte central da estratégia digital. O programa de fidelidade já identifica mais de 38 milhões de consumidores, segundo o executivo, e esses clientes gastam, em média, três vezes mais nas lojas.

A companhia também aposta em serviços financeiros, cartões, publicidade e logística para ampliar as fontes de receita.

O executivo descreveu a estratégia como uma "nova Americanas", reconstruída a partir dos negócios que funcionaram ao longo dos 96 anos e dos erros que, segundo ele, não devem ser repetidos. O desafio é transformar esse conjunto de iniciativas em algo que o acionista consiga enxergar na última linha do balanço.

AutorClara Assunção
FonteExame
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