Nova York freia novos data centers por pressão sobre energia e água

Pesquisas recentes mostram que uma parcela maior dos americanos prefere ter uma usina nuclear perto de casa a conviver com um data center.
Por trás do incômodo, há uma pressão concreta sobre dois recursos naturais que já operam no limite nos EUA: energia e água.
O boom e expansão da inteligência artificial já consome mais eletricidade do que cidades inteiras e a rede elétrica do país está ficando sem capacidade para sustentar esse ritmo.
Nesse contexto, Nova York se tornou o primeiro estado do país a suspender por decreto as licenças ambientais para novos data centers de grande porte. As informações são do portal Washington Post.
A governadora Kathy Hochul assinou uma ordem executiva nesta terça-feira, 14, exigindo a pausa por até um ano de instalações que consomem 50 megawatts ou mais.
O objetivo declarado é dar tempo ao estado para criar regras que protejam a rede elétrica, o meio ambiente e as comunidades onde esses projetos avançam, antes que a infraestrutura simplesmente não aguente a alta da demanda.
“Como o desenvolvimento de data centers ameaça aumentar as contas de energia, esgotar nossos recursos e criar incerteza para os nova-iorquinos, é minha responsabilidade agir e liderar”, disse Hochul em um comunicado.
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Só em 2025, o consumo elétrico global de data centers cresceu 17% e cinco vezes mais rápido que a demanda elétrica como um todo, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
A projeção é que o consumo das instalações voltadas à IA triplique até 2030. É esse gargalo e não a tarifa em si que está no centro do problema: a conta de luz sobe porque a rede precisa de expansão para dar conta, e o mercado já identificou os data centers como principal responsável pelo aumento nas tarifas residenciais na região que vai da Virgínia a Michigan.
Do boom da IA à pressão sobre recursos naturais
A mudança de postura já aparece em ações e a inteligência artificial passou a ser vista como vilã em alguns locais. Durante muito tempo, empresas de tecnologia usavam uma estratégia simples para conseguir aprovação de novos projetos: ofereciam recursos financeiros para escolas e obras de infraestrutura às comunidades onde queriam construir.
Mas essa moeda de troca perdeu força. Prova disso é que a própria governadora pediu ao Legislativo estadual que revogue as isenções de imposto sobre vendas que o setor recebia em Nova York.
O exemplo mais claro dessa virada é o norte da Virgínia, a região com maior concentração de data centers do mundo. Ali, cidades que por décadas dependeram desses empreendimentos para equilibrar as próprias contas públicas hoje enfrentam movimentos locais contrários.
Em Monterey Park, na Califórnia, a oposição já foi além de uma pausa temporária: os moradores aprovaram em votação popular uma proibição permanente para data centers e foram ainda mais radicais.
Impactos no bolso do consumidor
A leitura não é unânime. Estudos sobre o real impacto dos data centers nas tarifas chegam a conclusões conflitantes, e alguns especialistas em energia argumentam que, com o mercado regional bem estruturado, esses grandes projetos poderiam até contribuir para estabilizar a rede e baratear preços no longo prazo.
Na prática, isso comunica que o "problema seria de planejamento, não de escala".
Do lado da indústria e da Casa Branca, o argumento é que barrar a construção de data centers e das usinas que os alimentam significa ceder liderança em IA a rivais internacionais como a China, num momento em que a tecnologia sustenta tanto a economia global quanto a segurança nacional.
Segundo informações da Reuters, o governo Trump pressiona empresas de energia a assinar um pacto de proteção a consumidores parecido com o que as techs já firmaram.
Nova York é pioneiro em agir por decreto estadual, mas não está sozinho: o Maine aprovou legislação semelhante em abril, vetada pela governadora Janet Mills por risco a um projeto local.
No Congresso, Bernie Sanders (senador de Vermonte) e Alexandria Ocasio-Cortez (deputada federal de Nova York) defendem versões nacionais da moratória, e o tema já entrou na pauta eleitoral deste ano.
Segundo autoridades nova iorquinas, ainda é incerto quantos projetos serão afetados na prática. Mas a empresa de dados Cleanview lista 25 empreendimentos propostos no estado, incluindo uma instalação de 300 megawatts perto de Ithaca que já enfrenta oposição de moradores locais.
