'Nunca é tarde': aos 62 anos, esta pernambucana criou uma das empresas que mais cresce no Brasil
Pernambucana Deise Coelho comanda a Almerindas, empresa vencedora da categoria Novatas do ranking Negócios em Expansão 2026

Quando subiu ao palco para receber o prêmio de vencedora da categoria Novatas do Ranking EXAME Negócios em Expansão 2026, a pernambucana Deise Coelho resumiu em poucas frases uma decisão pouco convencional para alguém com quatro décadas de carreira.
“Em 2023, aos 62 anos, em vez de me aposentar, saí de uma zona de conforto. Nunca é tarde para começar algo novo”, disse.
Até então, a engenheira pernambucana havia passado a maior parte da vida profissional como funcionária e executiva do setor de saneamento. Trabalhou com projetos no Brasil, na América Latina e na África, atravessou funções técnicas e cargos de liderança e acumulou experiência em áreas que vão da engenharia ao trabalho socioambiental.
Quando muita gente enxergaria nesse currículo o caminho para diminuir o ritmo, Deise escolheu fazer o contrário. Fundou a Almerindas.
O resultado dessa decisão apareceu pouco tempo depois. A empresa, criada em 2023 e com operação efetivamente ganhando corpo a partir de 2024, terminou aquele ano com receita operacional líquida de apenas R$ 55,9 mil. Em 2025, a cifra alcançou R$ 2,6 milhões, um avanço de 4.472,1% — o maior da categoria Novatas do ranking da EXAME.
O salto colocou a pequena empresa de Recife na primeira posição entre negócios que haviam registrado receita operacional líquida inferior a R$ 2 milhões em 2024. As três primeiras colocadas da categoria cresceram mais de 1.000% no ano seguinte.
Para Deise, porém, a história começou muito antes dos números.
Quatro décadas antes de virar empreendedora
Deise entrou no saneamento ainda estudante. Antes de se formar, já era estagiária de uma consultoria de projetos de água em Pernambuco. Depois ingressou na companhia de saneamento do estado como engenheira projetista e, ao longo da carreira, avançou para posições de gerência, superintendência e diretoria.
Ao todo, são mais de quatro décadas dedicadas ao setor. Nesse período, passou também cerca de 20 anos na Diagonal, empresa especializada em questões sociais e territoriais, experiência que aproximou seu trabalho de favelas e comunidades vulneráveis.
Foi justamente no campo que uma inquietação começou a se repetir.
Deise via redes de água e esgoto serem construídas, mas encontrava casas que continuavam desconectadas do sistema. Na prática, a infraestrutura podia existir na rua sem necessariamente cumprir sua função dentro da residência.
“Eu continuava vendo muita moradia sem banheiro”, afirma. Ao longo da carreira, trabalhou em comunidades no Brasil e também em outros países e passou a defender que projetos de saneamento deveriam combinar engenharia com conhecimento do território e participação dos moradores.
Essa experiência ajudou a definir o negócioque ela viria a criar.
A Almerindas presta serviços de consultoria, gestão e apoio operacional para projetos de infraestrutura, saneamento, meio ambiente, comunicação e desenvolvimento social. Mas a proposta é combinar duas disciplinas que muitas vezes caminham separadamente: a engenharia e o trabalho social.
“Eu não vou te dar um social só. Eu vou também trabalhar a engenharia integrada ao social”, diz Deise.
Na prática, a equipe estuda redes, obras e soluções técnicas enquanto também acompanha moradores, identifica obstáculos para a conexão dos imóveis e coleta informações sobre os territórios.
É uma abordagem que a própria empresa resume em uma frase: “saneamento são pessoas”. Em sua apresentação institucional, a Almerindas afirma que trabalha principalmente para conectar moradias aos sistemas de água e esgoto e atender comunidades urbanas, rurais e isoladas.
Como a empresa cresceu 4.472% em um ano
O crescimento acelerado veio quando os primeiros pequenos projetos deram lugar a contratos maiores.
Em 2024, Deise estava em Recife e seu sócio, Vitor Tonzar Chaves, em São Paulo. A oportunidade de concentrar esforços no estado paulista apareceu com a ampliação de investimentos em saneamento e os programas voltados para a recuperação da bacia do Rio Tietê.
A empresa passou a atender consórcios que executam obras ligadas à Sabesp, fornecendo serviços de engenharia e atuação social. Deise diz que sua rede de relacionamentos, construída durante 42 anos no setor, também ajudou a abrir portas e dar credibilidade a uma companhia recém-criada.
Outro diferencial foi transformar conhecimento acumulado em tecnologia.
A empresa desenvolveu a ConnectGIS, plataforma que reúne dados técnicos, sociais e georreferenciados coletados em campo. O sistema permite acompanhar informações de imóveis e redes e apoiar decisões em regiões onde os cadastros disponíveis nem sempre refletem toda a infraestrutura existente.
A ferramenta nasceu, segundo Deise, de problemas encontrados durante os próprios projetos. “A ferramenta tecnológica é fundamental”, diz.
Agora a companhia pretende avançar no uso deinteligência artificialdentro da plataforma, inclusive para cruzamento de informações e geração de análises. A empresa diz que a ConnectGIS foi desenvolvida a partir do trabalho em campo e permite acompanhar diferentes etapas, do cadastro do imóvel à conexão ao sistema de tratamento.
Foi a combinação de contratos maiores, especialização técnica e tecnologia própria que levou a empresa dos R$ 55,9 mil aos R$ 2,6 milhões de receita operacional líquida em um ano.
O encontro de duas gerações
Deise não começou a empreender sozinha. Seu sócio, Vitor Tonzar Chaves, tem 35 anos e pertence a uma geração mais jovem até do que os dois filhos da empresária. Engenheiro naval com formação na área de hidráulica, ele assumiu principalmente a frente tecnológica do negócio.
De um lado, Deise levou para a empresa décadas de experiência em engenharia, gestão, comunidades e projetos socioambientais. Do outro, Vitor trouxe um olhar concentrado em tecnologia, dados e ferramentas como GIS e BIM.
“Eu tenho certeza de que a gente não faria sozinho o que a gente está construindo junto”, diz Deise.
Os dois se conheceram durante a pandemia, enquanto trabalhavam em um projeto ligado à bacia do Rio Tietê. Depois de alguns trabalhos em conjunto, veio o convite para criar a empresa. O CNPJ nasceu em 2023. A operação ganhou força nos dois anos seguintes.
No palco do Negócios em Expansão, Deise contou que a Almerindas começou apenas com os dois. Hoje, segundo ela, são quase 30 pessoas.
Há ainda um componente familiar. A filha de Deise, administradora, entrou na empresa como gerente administrativa e financeira durante uma transição de carreira. A empreendedora diz que o apoio da família foi decisivo quando escolheu deixar uma trajetória executiva consolidada para começar de novo.
Por que "Almerindas"
O nome também nasceu de uma história que Deise carregou da vida profissional.
Almerinda era uma mulher que vivia em uma comunidade de Pernambuco e criou os filhos convivendo com a falta de saneamento. Para Deise, ela passou a simbolizar as mulheres que enfrentam dentro de casa as consequências da ausência de água segura, banheiro e coleta de esgoto.
A empresa transformou a homenagem no plural: Almerindas. É uma referência não apenas a uma mulher, mas a muitas.
A própria companhia continua usando a história de Almerinda Monteiro da Silva para explicar sua origem e sua proposta de colocar moradores — e especialmente mulheres — no centro das soluções de saneamento.
Para Deise, a decisão tomada depois dos 60 anos não parece ter sido uma tentativa de prolongar uma carreira que já era longa. Foi o começo de outra.
Ela continua visitando obras, entrando em comunidades e percorrendo centenas de quilômetros para conhecer pessoalmente os locais em que a equipe trabalha. Em uma viagem recente ao Vale do Ribeira, conta que rodou cerca de 1.000 quilômetros em dois dias.
“O conhecimento da realidade é o indutor da solução”, diz.
Aos 64 anos, Deise agora tenta transformar aquilo que aprendeu durante quatro décadas em uma empresa que consiga continuar sem depender somente dela. A aposentadoria, pelo menos por enquanto, terá de esperar.
