Nura AI quer ajudar empresas a fazer o investimento certo em IA

A corrida pela inteligência artificial entrou numa fase menos ligada à compra de ferramentas e mais ligada ao uso delas no dia a dia. Em muitas empresas, a conta já chegou. O resultado, nem sempre.
A Nura AI, fundada por Izabela Anholett e Alberto Azevedo, nasceu para ajudar empresas a usar melhor a IA que já contrataram ou a decidir onde vale colocar dinheiro nessa área. A empresa treina times, redesenha processos e cria agentes de IA para tarefas como atendimento, cobrança, leitura de e-mails e organização de dados.
A empresa começou a operar em agosto de 2025 e ganhou o nome Nura em março de 2026. A projeção é fechar o primeiro ano com faturamento de R$ 6 milhões.
“As empresas não querem saber qual ferramenta vão usar. Elas querem aumento de receita, redução de custo, eficiência operacional, melhorar o tempo de resposta. É isso que elas querem ver”, afirma Azevedo.
O que faz a Nura AI
A Nura atua em dois tipos de trabalho. O primeiro é ensinar times a usar ferramentas de IA que a empresa já comprou. O segundo é criar agentes de IA, programas que executam tarefas com base em dados e comandos, para resolver problemas de operação.
Na prática, isso pode significar ler e-mails, identificar pedidos de clientes, buscar dados em sistemas internos, responder dúvidas, reenviar cobranças ou separar tarefas para uma equipe executar.
“A gente ajuda empresas hoje a usar a inteligência artificial efetivamente no dia a dia, mudando, inclusive, os processos, para que a IA tenha o melhor resultado possível”, afirma Anholett.
Segundo ela, o ponto não é apenas colocar IA em uma tarefa antiga. Em alguns casos, a tarefa precisa mudar.
“Você vai fazer a mesma coisa, mas rápido, e nem sempre é a forma mais efetiva de fazer. Então a gente entra, redesenha onde a gente vai colocar IA para implementar inteligência artificial de uma forma que traga o resultado que a pessoa espera”, afirma.
Quem são os fundadores
Izabela Anholett foi CTO da EXAME. Antes, passou por empresas como Grupo L’Occitane, Vale, Samarco e Ajinomoto. É formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Espírito Santo, com cursos na Fundação Dom Cabral e na ESPM.
Também é professora de IA na Escola de Negócios Saint Paul, parte do ecossistema de negócios da EXAME.
Alberto Azevedo tem trajetória em educação executiva, gestão e tecnologia. Passou por G4 Educação, EXAME e Inner AI. Na Nura, atua mais perto da estratégia comercial, do modelo de negócio e da expansão da empresa.
A ideia da Nura veio da leitura que os dois fizeram em aulas, clientes e conversas com empresários. Havia gente com acesso a ferramentas, cursos e sistemas, mas sem clareza sobre onde a IA deveria entrar.
“A gente viu uma dificuldade de levar essa cultura de AI first para as empresas”, afirma Azevedo. AI first, ou “IA primeiro”, é a ideia de pensar processos já considerando o uso de inteligência artificial desde o começo.
Por que a Nura mira pequenas e médias empresas
O foco da Nura são pequenas e médias empresas. Segundo os fundadores, essas companhias muitas vezes têm vários sistemas, mas pouco ganho no dia a dia.
“As pequenas e médias empresas estão sufocadas. Ou não têm sistema, ou os sistemas não se falam”, afirma Anholett.
Ela diz que é comum encontrar empresas que compraram ERP, sistema de gestão, CRM, sistema de relacionamento com clientes, cursos e ferramentas de IA, mas continuam com equipes copiando dados de um lugar para outro.
“Tem um monte de sistema e não melhorou em nada a minha empresa”, afirma Anholett, ao descrever uma queixa recorrente dos clientes.
Apesar do foco em empresas menores, a Nura também atende companhias maiores.
Como a empresa cobra
A Nura não cobra como um software tradicional, com preço por usuário. O modelo é uma mensalidade por entrega. O valor depende do escopo do agente, do volume de uso e da estrutura necessária para manter a operação funcionando.
Segundo Azevedo, a proposta é ficar mais perto de um time alocado do que de uma licença de software.
“É como se você estivesse contratando um time para ajudar a implementar. É um funcionário novo que vai estar dentro da sua empresa te ajudando a implementar”, afirma.
A empresa não cobra setup, taxa inicial comum em projetos de tecnologia, e constrói os agentes em sua própria estrutura.
Os cases
Entre os clientes já atendidos pela Nura está uma plataforma global de sonorização para empresas. O desafio: a companhia recebia pedidos e dúvidas por e-mail em nove idiomas e nove caixas diferentes.
A equipe precisava ler a mensagem, entender o pedido, acessar sistemas internos e responder. Em alguns casos, o prazo de resposta chegava a cinco dias úteis.
A Nura criou agentes para ler os e-mails, identificar o cliente, entender o pedido e deixar as informações prontas para a equipe. Em outra frente, criou agentes para responder dúvidas de cobrança e reenviar notas fiscais, faturas usadas em transações internacionais.
“Criamos uma série de 14 agentes conectados a nove caixas de e-mail ao redor do mundo. Eles respondem no idioma do cliente e enviam novamente a cobrança”, afirma Anholett.
Segundo ela, o cliente recuperou 68% das cobranças que não recebia porque faltava equipe para responder dúvidas ou reenviar faturas. Em outra frente, a operação passou a economizar 15 minutos por requisição. A empresa recebe cerca de 10 mil requisições por mês.
Quando a IA não é a resposta
Um dos casos citados pelos fundadores envolve uma empresa do interior de São Paulo que tinha uma taxa alta de inadimplência. A gestão da empresa acreditava que o problema estava no chatbot, programa que conversa com clientes por texto.
Ao acompanhar a rotina do atendimento, a Nura identificou outro problema: boletos não estavam sendo enviados aos clientes por uma falha de integração no ERP da empresa.
Para os fundadores, nem todo problema pede inteligência artificial. “A IA não resolve tudo”, afirma Azevedo.
Os desafios para crescer
A Nura tem hoje quatro pessoas na estrutura direta e cerca de oito desenvolvedores na operação.
O crescimento até agora veio sem investimento em mídia, segundo os fundadores. A aquisição acontece por conteúdo, indicação e expansão dentro dos clientes.
“Hoje a gente investe zero reais em mídia. A gente nunca investiu nada em tráfego pago”, afirma Azevedo.
O desafio, segundo ele, é contratar pessoas para um time enxuto e lidar com a resistência dentro das empresas. Há medo de substituição de empregos, falta de conhecimento técnico e cansaço com promessas sobre IA.
“Todo mundo está falando o tempo inteiro. Parece tão simples. Então você já chega num cliente que está machucado por outras experiências”, afirma Anholett.
O próximo passo da Nura é crescer dentro dos próprios clientes. A empresa começa com projetos curtos, de três a oito semanas, e depois passa para outras áreas, como financeiro, marketing, vendas e atendimento.
“Só depois de termos demostrado resultados concretos é que vamos ampliar o trabalho dentro de cada cliente”, afirma Anholett.
