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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
07/11/2026
11 min

O advogado gaúcho que fez dos prédios antigos de SP um roteiro de diversão de R$ 45 milhões

À frente do Grupo Tokyo, Fábio Floriano aposta em programação de dia e de noite para ampliar a ocupação do centro e atrair novos públicos

O advogado gaúcho que fez dos prédios antigos de SP um roteiro de diversão de R$ 45 milhões
RESUMO +

O Grupo Tokyo, liderado pelo advogado Fábio Floriano, projeta faturar entre R$ 40 milhões e R$ 45 milhões em 2026. A empresa estima investir R$ 100 milhões na restauração e adaptação de áreas do Edifício Martinelli, incluindo R$ 25 milhões para recuperar o antigo Cine Rosário. 

O advogado gaúcho Fábio Floriano começou a organizar festas por diversão, enquanto construía uma carreira no Direito. Hoje, ele é CEO e sócio-fundador do Grupo Tokyo, que projeta faturar até R$ 45 milhões em 2026 colocando paulistanos e turistas para cantar, dançar, comer e circular por endereços do centro de São Paulo.

O negócio ganhou projeção com a Tokyo, que reúne karaokê, restaurante, bar e pista de dança em um edifício na Rua Major Sertório. Depois, avançou sobre o Martinelli, onde as festas no terraço ajudaram a transformar um dos prédios mais conhecidos da cidade em destino de entretenimento.

Agora, Floriano quer ampliar o repertório. O grupo estima investir cerca de R$ 100 milhões na restauração e adaptação das áreas que opera no Martinelli, incluindo R$ 25 milhões para recuperar o antigo Cine Rosário. Ao mesmo tempo, prepara novas operações em outros edifícios históricos, como o Itália e o Renata.

“Isso começou como um lado B, por gostar de festa, de evento, de noite e de ver gente se divertindo”, afirma Floriano.

O lado B cresceu a ponto de fazê-lo voltar a morar em São Paulo para acompanhar o Martinelli. A advocacia, porém, continua na agenda.

Como um advogado gaúcho entrou no negócio das festas

Antes de ter endereço fixo na noite, Floriano já produzia eventos pelo Brasil com um de seus sócios. A operação chegou a organizar oito edições simultâneas de uma festa em diferentes cidades. Enquanto um acompanhava a produção no Rio de Janeiro, outro embarcava para Salvador, e uma terceira equipe cuidava de Belém.

O passo seguinte foi abrir uma casa própria. No fim de 2014, ele e outros amigos decidiram criar o Margot, em Porto Alegre, que passou a funcionar em 2015. Instalado no bairro Cidade Baixa, o bar e clube misturava gastronomia, música e referências ao cinema de Wes Anderson. O nome vinha de Margot Tenenbaum, personagem interpretada por Gwyneth Paltrow em Os Excêntricos Tenenbaums.

Floriano vendeu sua participação no fim de 2016. Já dividia a semana entre Porto Alegre e São Paulo, onde dirigiu uma fundação alemã, e queria explorar o mercado de entretenimento paulistano.

A primeira casa por aqui foi a Selva, na Rua Augusta, aberta em 2016. Depois veio o projeto que daria nome ao grupo.

A mudança de cidade não significou abandonar a profissão original. Floriano segue como advogado, com atuação em Direito internacional, sobretudo em consultoria e construção de argumentação jurídica. O escritório tem base em Porto Alegre e atende também em São Paulo, Brasília e fora do país.

Ele chegou a deixar São Paulo em 2019 por causa da carreira jurídica. Em 2024, voltou para acompanhar de perto o projeto do Martinelli. “Preciso estar aqui, preciso acompanhar isso aqui de perto”, diz, ao recordar a decisão.

Por que a viagem ao Japão mudou o tamanho da aposta

A ideia inicial para a Tokyo era encontrar uma cobertura onde coubesse um karaokê com vista para a cidade. Uma viagem à capital japonesa fez os sócios mudarem a escala do empreendimento.

“Voltamos com a convicção de que não adiantava ter uma cobertura. O que nós íamos precisar era um edifício”, afirma Floriano.

A inspiração estava nos prédios japoneses em que atividades diferentes convivem, andar por andar. Um mesmo elevador podia levar a um consultório de dentista, a uma loja de quadrinhos ou a um pub irlandês.

Em São Paulo, a proposta ganhou forma no Edifício ABC, um prédio modernista de nove andares na Rua Major Sertório, projetado por Oswaldo Bratke. A Tokyo foi inaugurada em maio de 2018, com karaokê, gastronomia, bar, festas e espaços para atividades criativas.

O visitante pode começar em uma oficina ou exposição, seguir para o karaokê coletivo, reservar uma sala privativa com amigos, jantar e terminar na pista de dança com vista para a cidade.

“Consigo trocar de ambiente, trocar de experiência e trocar de atividade, tudo dentro de um mesmo tíquete, um mesmo espaço físico”, diz Floriano.

A Tokyo recebe mais de 200 mil pessoas por ano. Cerca de um terço vem de fora de São Paulo, o que levou o endereço a entrar também no roteiro de turistas.

Outro componente da fórmula é começar cedo. Floriano diz que, desde o Margot, procura atender quem quer sair no fim da tarde, sem esperar a madrugada. Na Tokyo, a programação pode atravessar o happy hour e seguir até a manhã seguinte. Nos fins de semana, a casa também abre ao meio-dia.

“Essa parte é uma parte importante da atividade que a gente desenvolve, mas nós somos equipamentos culturais de economia criativa”, afirma, sobre as festas. Entre as demais atividades que o espaço já recebeu estão exposição de joalheria contemporânea, workshop de grafite e oficina de dança.

Como uma ocupação de 100 dias virou uma operação permanente

O sucesso da Tokyo fez o grupo receber convites para conhecer outros imóveis. Um deles foi o Martinelli, cuja cobertura já havia passado por uma primeira tentativa de concessão antes da pandemia.

O grupo venceu a licitação em 2023. O contrato, assinado em junho daquele ano, tem prazo de 15 anos e abrange 2.570 metros quadrados, incluindo o terraço, outros pavimentos e espaços na base do edifício. A proposta vencedora previa uma outorga fixa mensal de R$ 135 mil, valor apresentado na licitação.

A concessão envolve áreas específicas do Martinelli. O restante do prédio mantém outras funções, com presença importante de órgãos públicos.

Segundo Floriano, a posse das áreas foi recebida em novembro de 2023. No ano seguinte, o início da construção do Martinelli completaria um século. O grupo decidiu criar uma ocupação temporária de 100 dias, batizada de M100, para marcar a data.

Vieram atividades de design, exposições, lançamentos musicais, visitas guiadas e festas. A resposta do público mudou o planejamento.

“Quando nós chegamos ao final dos 100 dias, houve uma pressão muito grande do público e do poder público dizendo: ‘Sinto muito, vocês não podem mais fechar’”, afirma Floriano.

Edifício Martinelli

Edifício Martinelli, em São Paulo: festas no terraço do prédio atraem moradores e turistas para o Centro (Divulgação)

A permanência criou um desafio operacional. A empresa passou a conciliar eventos e visitas com as obras de restauração e adaptação.

Na configuração descrita pelo executivo, cerca de 20% da área total do projeto está aberta ao público. Os trabalhos avançam nos demais espaços. A ideia é concluir essa parcela e, depois, inverter a ocupação para finalizar a área hoje em uso.

O projeto completo prevê duas galerias de arte, espaços para workshops e eventos, mirantes, áreas para festas, restaurante para aproximadamente 240 pessoas, café, loja de arte e design, estúdio de produção de conteúdo e uma instalação imersiva sobre a história do edifício e do centro.

A projeção do grupo é receber cerca de 1 milhão de visitantes por ano quando o conjunto estiver funcionando, somando a programação diurna e noturna.

Por que o grupo decidiu concentrar a expansão em prédios históricos

A experiência da Major Sertório e do Martinelli levou Floriano a formular a estratégia que hoje orienta a expansão: ocupar áreas subutilizadas de edifícios históricos com atividades culturais e gastronômicas, incluindo programação à noite.

O projeto recebeu o nome de Epicentro. A intenção é criar uma rede de endereços em um raio de cerca de 3 quilômetros no centro de São Paulo, estimulando a circulação de pessoas entre eles.

“Nossa hipótese é: gente na rua se divertindo e consumindo é o que torna a cidade segura”, afirma Floriano.

Na avaliação do empresário, o movimento gerado pela Tokyo ajudou a atrair outros estabelecimentos para seu entorno. Ele diz observar um processo semelhante na região do Martinelli. A expansão procura reproduzir essa dinâmica em outros pontos, com parceiros de diferentes segmentos da cena cultural.

A decisão também implicou sair de negócios. O grupo se desfez da participação em um bar em Pinheiros e decidiu encerrar a Selva para concentrar esforços nessa nova frente.

Na entrevista, Floriano afirmou ter quatro endereços contratados e em implantação no Epicentro. Entre os projetos que podia divulgar estavam uma operação na varanda do Circolo Italiano, no terceiro andar do Edifício Itália, e espaços no Edifício Renata.

No Renata, o grupo já operava a área da piscina no terceiro andar e preparava um clube no subsolo, em parceria com nomes da música eletrônica. Outros endereços permaneciam sob negociação ou dependiam de alinhamento com os parceiros para ser anunciados.

“Antigamente, as pessoas se viam como competidoras. Nós nos vemos como parceiros”, diz Floriano.

Fora de São Paulo, o grupo mantém a Andaime, loja de arte e design na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Segundo o executivo, também há conversas com outras prefeituras sobre iniciativas semelhantes.

Como o cinema fechado há 70 anos entra nessa estratégia

Uma das principais apostas do Martinelli está longe do terraço. Como a EXAME revelou com exclusividade, o grupo prepara a recuperação do Cine Rosário, inaugurado em setembro de 1929 e fechado em 1955.

O investimento estimado em R$ 25 milhões faz parte do orçamento de aproximadamente R$ 100 milhões para o conjunto do projeto. Cerca de R$ 20 milhões já haviam sido aplicados no Martinelli. O financiamento combina recursos próprios e patrocínios.

De volta às telas: projeto prevê recriar o Cine Rosário no Edifício Martinelli mais de 70 anos depois do fechamento (Grupo Tokyo/Divulgação)

O Rosário original tinha aproximadamente mil lugares e ficou conhecido pelo padrão luxuoso. A nova sala terá outra configuração, adequada às exigências atuais de acessibilidade, segurança, acústica e tecnologia. Sua capacidade final ainda não foi divulgada.

Durante as prospecções, a equipe encontrou pinturas e elementos decorativos originais escondidos por intervenções posteriores. Parte estava acima de placas de gesso no teto.

A proposta é oferecer uma sala que possa alternar cinema, teatro e outras apresentações, com curadoria própria.

“A experiência completa não é tíquete e pipoca. Ela é outras coisas acontecendo dentro daquele espaço”, afirma Floriano.

O cronograma depende das aprovações dos órgãos de preservação do patrimônio. Depois dessa etapa, a expectativa apresentada pelo empresário é concluir o conjunto de intervenções em até 18 meses. A implantação de dois novos elevadores está entre os fatores que influenciam o prazo.

O que o leilão de arte revela sobre o novo Martinelli

Uma amostra da programação que o grupo pretende ampliar chegará ao térreo do edifício em novembro. A galeria do Martinelli receberá a exposição do 1º Leilão Caroço, com obras doadas por mais de 90 artistas, entre eles Cildo Meireles, Sonia Gomes, Antonio Obá e Paulo Nazareth.

A visitação gratuita está prevista para 5 a 12 de novembro, de segunda a sábado, das 11h às 19h. O pregão será on-line nos dias 11 e 12, a partir das 17h, na plataforma Leilões BR.

A parceria com o Grupo Tokyo leva ao prédio a rede do Caroço, iniciativa independente de pesquisa e experimentação artística criada em 2022 e sediada na Vila Ipojuca.

A arrecadação financiará a programação e a operação do Caroço em 2027, incluindo a busca por uma nova sede em uma região mais central, próxima ao metrô. Em quatro anos, o projeto realizou 25 exposições e recebeu 161 artistas e 29 curadores.

Para o Martinelli, a exposição marca mais uma etapa de abertura dos espaços culturais previstos no empreendimento.

Quais desafios acompanham a aposta na vida noturna do centro

A estratégia depende de condições que ultrapassam a programação dos espaços. Floriano diz manter diálogo com o poder público sobre iluminação, policiamento e circulação de pessoas na região.

Outra preocupação é a convivência entre os empreendimentos culturais e os novos moradores atraídos pelos projetos de recuperação de edifícios antigos.

O empresário defende que construtoras responsáveis por retrofits, especialmente os que recebem incentivos públicos, entreguem imóveis com isolamento acústico adequado. Sua avaliação é que a valorização da região atrai compradores, mas a qualidade das construções pode criar conflitos posteriores com bares, clubes e outros espaços que já funcionavam ali.

“Os novos moradores vão para aquela região porque a região está valorizada e é legal”, diz. “Entram em conflito com justamente o que os levou a morar lá.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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