O ano mais atípico da história do mercado brasileiro de fertilizantes, segundo a Keytrade

O mercado brasileiro de fertilizantes atravessa aquele que pode ser o ano mais atípico e desafiador de sua história, na avaliação da Keytrade, uma das principais tradings globais do setor.
Em reunião com analistas do Bank of America (BofA), a companhia afirmou que a combinação de tensões geopolíticas, restrição ao crédito, relações de troca desfavoráveis e incertezas climáticas tornou o planejamento da cadeia de suprimentos excepcionalmente difícil em 2026.
A expectativa é de que as entregas de fertilizantes NPK no Brasil recuem cerca de 15% em relação ao ano passado, passando de 50 milhões para 42,5 milhões de toneladas. A queda deve ser puxada principalmente pelos fertilizantes nitrogenados e fosfatados, enquanto o consumo de potássio tende a registrar leve crescimento.
Os números das importações já refletem esse cenário. Entre janeiro e junho, as compras externas de fertilizantes nitrogenados caíram 15% na comparação anual, enquanto as de fosfatados recuaram 6%. Em contrapartida, as importações de potássio cresceram 5%.
Nitrogênio melhora, mas oferta ainda preocupa
O BofA destaca que a queda superior a 40% nos preços da ureia desde abril devolveu competitividade às compras de fertilizantes nitrogenados pelos produtores brasileiros.
Com a commodity negociada novamente próxima de US$ 400 por tonelada, a relação de troca para o milho voltou a ser favorável, reduzindo em cerca de 7% os custos estimados da safrinha 2026/27 em comparação com as projeções de março.
Mesmo assim, a Keytrade avalia que o principal risco agora é a disponibilidade do produto. O Brasil ainda precisará importar cerca de 4 milhões de toneladas de ureia até o fim do ano para abastecer as lavouras de algodão e da segunda safra de milho.
Além disso, a oferta de sulfato de amônio pode ser limitada pelas novas cotas de exportação impostas pela China, aumentando as incertezas sobre o abastecimento.
Fosfatados seguem caros e desestimulam compras
Se o nitrogênio ficou mais barato, o mesmo não aconteceu com os fertilizantes fosfatados.
Os preços permanecem elevados devido aos altos custos do enxofre, acumulando alta de cerca de 40% no ano e chegando próximo de US$ 890 por tonelada no mercado brasileiro.
Segundo a Keytrade, esse cenário deteriorou a relação de troca para os produtores de soja, reduzindo o ritmo das compras. Até agora, apenas 76% da demanda por fertilizantes da safra foi contratada, abaixo dos 82% registrados no mesmo período de 2025.
Na avaliação da companhia, parte das aquisições pode ficar para setembro — caso os produtores decidam comprar.
El Niño e crédito pressionam o produtor
Além da questão dos fertilizantes, a Keytrade chama atenção para outros dois fatores que aumentam a pressão sobre o setor.
O primeiro é o risco de um clima mais seco no Centro-Oeste brasileiro durante o segundo semestre em razão do El Niño, o que pode comprometer o desenvolvimento das lavouras de soja e da segunda safra de milho.
O segundo é o aperto nas condições de financiamento. Segundo a empresa, a oferta de crédito para o agronegócio caiu cerca de 35% em relação ao ano anterior, com bancos, tradings de grãos e fornecedores de insumos reduzindo a concessão de recursos diante do aumento da inadimplência.
Esse cenário tem afetado principalmente os pequenos produtores, que vêm adiando a compra de insumos para os momentos finais da janela de plantio, aumentando ainda mais a imprevisibilidade do mercado de fertilizantes em 2026.
